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Embora os grandes bancos tenham fechado o 1º trimestre com lucro e crescimento dos resultados em relação a 2020, uma análise mais detalhada pode revelar quedas e fragilidades em alguns números dos balanços. A redução do spread afetou a performance dos bancos, o valor de mercado dos quatro juntos ainda não recuperou o nível pré-pandemia, mas a principal preocupação está ligada a provisões diante da perspectiva de crescimento da inadimplência no segundo semestre do ano.  

De acordo com estudo realizado pela plataforma Economatica, a receita líquida operacional dos quatro grandes bancos – Bradesco, Itaú Unibanco, Santander e Banco do Brasil – alcançou R$ 138 bilhões, nos três primeiros meses deste ano. Um resultado 23,4% menor que o de igual período de 2020.

Foto: Marcos Elias de Oliveira
Uma das agências do banco Bradesco - Foto: Marcos Elias de Oliveira

O único banco que obteve crescimento de receita foi o Bradesco, de R$ 25,852 bilhões no primeiro trimestre de 2020 para R$ 30,145 bilhões.

Já o lucro líquido total dos quatro bancos fechou o trimestre em R$ 18,6 bilhões, volume 35,2% superior ao do mesmo período de 2020. Também nesse item o Bradesco foi destaque sobre os demais, com lucro líquido de R$ 6,153 bilhões, seguido pelo Itaú Unibanco, com R$ 5,414 bilhões.

Para Marcel Campos, analista de Bancos da XP, o resultado dos bancos no primeiro trimestre foi relativamente fraco, mas dentro do estimado. Um dos principais fatores, segundo ele, foi o achatamento do spread bancário. Com o agravamento da crise da pandemia, os bancos procuraram os segmentos de empréstimo com menos risco, portanto com spreads mais baixos.  

Ele comenta que a economia no primeiro trimestre de 2021 enfrentou uma segunda onda, ainda mais severa, da Covid, que, em seu início, afetou de forma mais suave a atividade no mesmo período de 2020.

Os bancos sofreram um impacto muito forte da crise econômica sobre suas receitas no trimestre, analisa Campos. “Houve um aumento no volume de empréstimos, mas a rentabilidade caiu por causa da redução do spread, dos juros sobre as carteiras de crédito.”

A Selic na mínima histórica também contribuiu para a diminuição da margem financeira nas operações de crédito dos bancos. “A correção na taxa Selic, que voltou a subir, demora para impactar a carteira de empréstimos”, mas ele acredita que passe a elevar o spread bancário no segundo semestre.

Lucro é importante, mas não diz tudo nos bancos

O levantamento da Economatica indica que o lucro líquido dos bancos cresceu, o que é positivo, mas não é o dado mais relevante ou o mais revelador do desempenho dos bancos neste momento, avalia Campos. “Todos os bancos bateram as expectativas, os lucros vieram acima das previsões do mercado, mas o ponto mais importante não é este.”

O xis da questão ou a dúvida é o que vem pela frente e está relacionando ao nível de provisionamento (reserva de recursos guardados à parte, para a cobertura de eventuais calotes, que reduz o lucro no balanço) feito pelos bancos. “O Santander provisionou menos e pode não estar preparado para uma possível onda de inadimplência”, aponta Campos.

O analista da XP diz que a inadimplência hoje está menor que antes da crise. A lógica, de acordo com ele, seria que, como não aconteceu ainda, um movimento de inadimplência mais forte pode estar a caminho e a dúvida é saber se o provisionamento feito pelos bancos é suficiente para dar cobertura a essa possível onda.

Santander
Santander reduziu provisões, mas inadimplência pode crescer no 2º semestre - Foto: Divulgação

A expectativa é que a inadimplência afete mais o lucro no segundo semestre, a menos que os bancos retomem a formação de provisões.

Dados levantados pela Economatica indicam que o volume de provisão para devedores duvidosos recuou em todos os quatro bancos no trimestre de 2021, comparado com período idêntico de 2020.

Além de olhar o lucro, o investidor deve acompanhar vários outros fundamentos dos bancos, orienta o analista da XP.

Por exemplo, como está se comportando a taxa de inadimplência, como os tomadores de crédito vão pagar suas dívidas, a evolução das receitas de serviços em um ambiente cada vez mais pressionado pela concorrência, principalmente das fintechs, corte de custos para ganhar maior eficiência e rentabilidade em um mercado altamente e cada vez mais competitivo.

Dividendos devem ser mais generosos no fim do ano

A despeito de dúvidas, Campos acredita que a safra de dividendos deverá ser mais generosa, e mais robusto no fim do ano, quando os bancos terão maior visibilidade do lucro que estamparão em seus balanços.

Ademais, lembra o analista, a distribuição dos bancos neste ano não terá as restrições impostas ao pagamento de dividendos no ano passado. A distribuição não poderá ser menor que o mínimo regulatório, um porcentual de 25% sobre o lucro, ou estatutário, um mínimo de 30%.

O volume de dividendos e Juros sobre Capital Próprio (JCPs) distribuídos pelos quatro grandes bancos no primeiro trimestre deste ano totalizou R$ 18,1 bilhões. O valor total distribuído pelo Santander (R$ 9,848 bilhões) é superior ao de outros três (R$ 8,350 bilhões).

O valor de mercado dos quatro bancos em 6 de maio totalizou R$ 696,7 bilhões, 26,8% menor que o de R$ 951,8 bilhões de dezembro de 2019. O analista de Bancos da XP diz que não prevê melhora no valor de mercado, porque os fundamentos dos bancos pioraram. Campos considera que o valor está no lugar que considera justo, “não tem muita assimetria nem para um lado nem para outro”.

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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