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É difícil alguém que trabalha no mercado financeiro não ter sido questionado sobre a escolha da cantora Anitta para o Conselho de Administração do Nubank. Para muitas pessoas, a notícia foi recebida com indignação, chegando ao ponto de alguns correntistas cancelarem a conta na instituição. Para esse público, fica a pergunta: baseado em que eles tomaram uma decisão tão radical?

Antes de mais nada, é importante esclarecer o papel dos conselheiros em uma empresa. O órgão seria uma espécie de “guardião da estratégia” da empresa, o grupo que “estabelece as bases do processo do pensamento e planejamento estratégico, que levará à definição dos rumos do negócio”, segundo o IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

Foto: Reprodução
fachada da Nubank

É fato que a popstar não tem experiência no mercado financeiro nem tampouco conhece o cenário de fintechs como um analista do setor em Wall Street. Mas ela não seria capaz de aprender as informações essenciais sobre o negócio? Ou, por outra: entender tudo deste segmento com profundidade é realmente imprescindível para integrar o board do Nubank?

De acordo com a instituição, a cantora irá participar de reuniões trimestrais e ajudará a “desenvolver produtos e comunicações cada vez mais focadas na missão de empoderar as pessoas”. Já Anitta pensa em contribuir aumentando o acesso da população a produtos financeiros, mesmo com pouco ou nenhum histórico de crédito. “Isso dialoga comigo exatamente pela minha história de vida”, escreveu em uma publicação no LinkedIn.

Os críticos da cantora talvez não procuraram saber que Anitta é bem mais do que uma estrela da música. Aos 28 anos, ela se tornou uma das mais bem-sucedidas empresárias do show business da América Latina, com uma fortuna estimada em quase US$ 100 milhões, segundo a revista Forbes.

Não precisa gostar de funk para concordar que uma pessoa que acumulou meio bilhão de reais em tão pouco tempo possui outras qualidades, além de dotes estéticos e coreografias polêmicas. Anitta é sua própria empresária e, se ela decide sozinha os rumos de uma carreira milionária, certamente trará bons conselhos para a próxima reunião do Conselho. Esperto será o Nubank se aproveitar sua contribuição e não se limitar à exposição gerada pela cantora à marca na mídia. 

Vivemos um momento em que a promoção da diversidade, a busca pela inovação e o incentivo à disrupção são iniciativas mandatórias no planejamento estratégico de qualquer negócio. Tudo que o novo mundo não precisa é o preconceito daqueles, cuja preguiça os impedem de descobrir o que é verdade ou mentira na internet.

Na indústria de fundos, essa realidade também se repete. Até hoje, muitos investidores acreditam que os fundos quantitativos são portfólios negociados por robôs que escolhem, compram e vendem títulos, ignorando totalmente a qualidade das empresas negociadas. Por conta do preconceito, os gestores de fundos quantis têm seu trabalho subestimado, como se sua função fosse apertar uma tecla no computador e deixar a tecnologia gerar resultados sozinha.

Ora, por trás de uma estratégia sistemática, existem estudos acadêmicos sérios, escritos por mestres e doutores em Finanças, Economia e Estatística, que dedicam anos à pesquisa sobre as razões para um ativo repetir um determinado desempenho na Bolsa de Valores.

Gestores internacionais já incorporaram a tecnologia e a análise quantitativa em seus processos de avaliação fundamentalista, mas no Brasil essa prática ainda é limitada aos fundos de Factor Investing, uma subclassificação dos fundos quantitativos.

Também chamados de Fundos Multifatores, esses portfólios avaliam diversas características de cada ativo, para depois combiná-las entre si, até formarem uma composição com grande potencial de performar bem no mercado. Em outras palavras, o gestor desta modalidade de investimento busca a melhor combinação possível entre os ativos, para não depender das características de um só papel de forma isolada.

Talvez valha a pena comparar o factor investing com o novo Conselho de Administração do Nubank. Em vez de tentar encontrar o conselheiro ideal – um profissional que tenha formação em economia, domina finanças, é um expert em instituições financeiras, conhece tudo sobre tecnologia, trabalhou em fintechs, tem pós-graduação em governança, boas relações políticas etc. –, o banco preferiu montar um board pela combinação de pessoas com aptidões diferentes, que se complementam no trabalho em conjunto.

Assim como o Nubank se blindou dos preconceitos para receber a contribuição da cantora nos rumos do seu negócio, um gestor do fundo de factor investing também precisa ignorar os comportamentos subjetivos do mercado para compor seu portfólio.  

Nas duas situações, o sucesso dessas combinações será medido não apenas pelo grau de diversificação do grupo, mas também pelo tipo de estratégia adotada naquele conjunto.

Por ora, posso falar do Fundo Avantgarde Multifatores FIA, cuja comprovação do sucesso está na rentabilidade de 30%, no acumulado do ano, bastante superior à variação de 8,8% da Bolsa (Índice IBX), no mesmo período.

Já o êxito do novo Conselho de Administração para o Nubank pertence ao futuro. Mas tudo indica que a vinda da cantora será um baita diferencial competitivo da instituição.

Imagem do autor

Luciano Boudjoukian França (CFP®️) economista pela FEA-USP, Pós-Graduado em Finanças, Mestre em Economia pelo Insper e sócio da Avantgarde Asset Management.

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