Economia

Assistimos nos anos recentes uma queda sistemática na taxa básica de juro, e com ela, toda a estrutura de juros brasileira. Na última reunião, o Banco Central, por meio do Comitê de Política Monetária (COPOM) decidiu reduzir o juro básico da economia (SELIC) de 5,50% para 5,00%, o menor nível da história recente.

Apesar de não ser usada à risca, essa taxa é parâmetro para diversos outros preços de mercado, como por exemplo o CDI.

Em outras palavras, quanto mais a SELIC cai, mais o CDI diminuirá e, com isso, mudando o nível do benchmark de diversos fundos de investimentos, além de impactar diversos ativos que ele está alocado.

Abaixo a evolução recente das duas taxas, com previsões até o fim do ano.

taxa de juros

Com essa nova realidade de juro historicamente baixo, que deve permanecer por algo como dois anos, até a retomada mais vigorosa da economia e uma inflação mais pressionada (e com meta ainda menor), é interessante pensarmos um pouco sobre as taxas cobradas pelos fundos.

Impactos das taxas no retorno

Impactos das taxas no retorno

O leitor, se investe em fundo, certamente sabe das taxas de administração e de performance que são cobradas pelas casas. Elas são as mais variadas possíveis, dependendo do tipo do fundo, podendo cobrar a performance baseada no CDI, no IMA+B, o IBR-X, IPCA+ algum parâmetro, e etc.

Essa é a forma do gestor ser remunerado pelo seu desempenho ao superar algum benchmark, mas obviamente deixando a maior parte do excedente para o investidor, visto que a cobrança de performance roda usualmente em torno de 15-20% do que o gestor superar desses índices.

Além disso, há a taxa de administração, que às vezes o investidor esquece de sua existência pelo fato de, assim como na performance, a divulgação dos resultados por parte dos fundos já serem feitas com esse desconto. Ela também varia de fundo para fundo.

O mais comum, e quase um mantra do mercado, é o chamado 2 com 20 (2/20), que representa um fundo que cobra 2% de taxa de administração e 20% do que exceder o benchmark escolhido. Os próximos parágrafos e exercícios do texto irão usar especificamente essas taxas como ilustração.

Como Investir nos Melhores Fundos

Taxa de administração e performance com juros baixo

Taxa de administração e performance com juros baixo

Vamos imaginar um fundo representativo, que não é Curto Prazo, Referenciado DI ou Renda Fixa, e, portanto, cobra taxa de performance.

O gestor desse fundo é um homem muito preparado e conseguiu acumular retornos anuais que representam 170% do CDI por ano entre 2009 e 2019, antes da cobrança de qualquer taxa.

Provavelmente para esse ano seja pouco, com muitas casas já se aproximando dos 200% do CDI até julho, mas não se pode dizer o mesmo para os anos anteriores a 2017, por exemplo.

Considerando a cobrança do 2/20 desse fundo, qual será o retorno que chega na mão do investidor?

Vamos considerar uma simulação em que a taxa de administração e performance são cobradas apenas no fim do ano (a performance pode ser cobrada em seis meses, e a administração pode ter seu cálculo mensal também, mas fiquemos nesse exemplo).

Talvez o leitor não tenha percebido, mas 2% de administração tem um impacto bastante diferente quando o CDI está próximo de 14% e quando está próximo de 5%.

Abaixo temos os resultados em % do CDI após a cobrança de cada taxa, começando com os 170% do CDI que o fundo rendeu originalmente.

impacto das taxas por ano

A título de exemplo, o CDI acumulou 6,4% em 2018, sendo que 170% disso representa 10,9%. Uma taxa de administração de 2% pode comer boa parte disso. Já em 2016, o CDI acumulou praticamente 14%, e 170% disso representa 23,8%, reduzindo o impacto dos 2%.

Por conta dessas movimentações anuais de mercado, a mesma performance pode entregar até 10 pontos percentuais de diferença para o investidor desse fundo.

A situação fica um pouco mais clara quando consideramos o rendimento real no final do ano, isto é, retirando o efeito da inflação. Desta forma, é possível ter a noção de quão “mais rico” o investidor ficou de fato, ou seja, quanto o poder de compra dele aumentou. No fim do dia isto que importa.

A diferença entre os retornos, que já superou 2,5pp em 2016, agora ficaria nesse ano (e em 2018) próximo de 0,50pp. Render 170% em anos com CDI perto dos 5% definitivamente não é suficiente, pensando no enriquecimento do investidor.

Também podemos fazer o exercício da forma inversa. Vamos supor que um gestor de fundo que cobre 2/20, tenha o CDI como benchmark, e gostaria de entregar efetivamente, pelo menos, 100% do CDI na conta do seu cliente, depois das taxas.

Qual deverá ser a performance desse gestor ao longo dos últimos 10 anos?

O gráfico abaixo ilustra isso.

Qual volatilidade necessária?

Ok, como dito antes, apenas conseguir 170% do CDI no atual cenário não é o bastante. Vamos supor então que o investidor queira receber 14% de rendimento no fim do ano, o que demandaria um fundo com 311% do CDI pré taxas ou então com retorno acumulado de 264% do CDI pós taxas (algo não trivial se você não for um FIA). Tudo para relembrar aqueles “bons” tempos de Selic alta.

Existe fundos nessa situação atual? Qual é a volatilidade deles? Abaixo temos 10 fundos com rendimento próximo a 14% no ano e sua respectiva volatilidade, dando ideia de como seria necessário. 

gráfico fundos

A título de comparação, fundos que estão rendendo próximo a Selic (4,5%), tem volatilidade inferior a 1%, sendo que a média dos fundos apresentados é de 5.51%. Em outras palavras, para conseguir reviver aquele rendimento de 14% ano, o investidor pode esperar algo como 5 vezes mais volatilidade do que aqueles investimentos bem conservadores e que acompanham apenas o CDI.

Mudar as taxas ou a gestão?

Mudar as taxas ou a gestão

Observando esses importantes impactos e no novo cenário de juro que teremos pela frente, é justo o investidor pensar em duas coisas: ou as gestoras diminuem a taxa de administração, para não comer de forma demasiada o retorno real, ou então é preciso tomar mais risco, buscando acumular retornos ainda maiores para diluir esses impactos.

Acredito que a segunda alternativa seja mais justa, visto que não reclamamos da taxa de administração ser alta em momentos que o CDI beirava 14% e os gestores tinham que se revirar para bater o benchmark.

Desta forma, é o momento de os gestores mostrarem ainda mais suas habilidades para superar o CDI, tomando mais risco num cenário de bull market em que a relação risco-retorno tem sido bastante vantajosa para aqueles que estão buscando acumular rendimentos maiores.

Essa situação possivelmente permanecerá e possivelmente se acentuará nos próximos meses, dado a iminente aprovação de reformas e retomada da economia brasileira, com impactos nos resultados das empresas, no câmbio, juro, derivativos e claramente as cotas dos principais fundos brasileiros.

Conclusão

O país está numa nova realidade de juro e inflação, e isso tem impacto direto na indústria dos fundos de investimento. No fim desse ano teremos um juro real ex-ante muito próximo de 1%, o que vai exigir muita performance dos fundos de investimento para não “comer” a rentabilidade ao cobrar os famosos 2%.

Busque entender a filosofia de cada gestora, tentando ler as análises e cartas mensais divulgadas, o que costuma evidenciar a visão e a posição de cada casa nessa nova realidade, podendo sinalizar o aumento da propensão ao risco.

Por fim, uma outra discussão, e que possivelmente o mercado brasileiro começa a ficar mais maduro para ter, é se faz sentido continuar usando o CDI como benchmark, sobretudo na questão da cobrança de performance.

É só lembrar que lá fora não assistimos os fundos tentando atingir uma porcentagem da libor britânica ou do fed funds rate americano.

Como Investir nos Melhores Fundos

Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.


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