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Bitcoin: agora é diferente?

Por:
10/07/2019

Quem poderia imaginar que o Bitcoin voltaria a render praticamente 200% nesse primeiro semestre de 2019? Isso depois de cair mais de 80% desde o seu pico máximo, em dezembro de 2017, quando alcançou os US$ 19 mil.

Aquele foi um período interessante, em que o hype dessa moeda trouxe toda a discussão da sua tecnologia, o blockchain, revelando para o mundo todas as suas utilidades.

Por outro lado, também ficamos intrigados pelo alto valor que a moeda atingiu em tão pouco tempo, levantando o questionamento se tratava de uma nova bolha, o que parecia ter sido confirmado após a forte queda nos preços das criptomoedas a partir de 2018.

Com essa nova alta, fica a pergunta: dessa vez é diferente?

Há fundamentos para o Bitcoin?

Há fundamentos para o bitcoin

Antes de mais nada, se o leitor quer uma introdução melhor sobre o assunto, vale a pena conferir o artigo “Criptomoedas e Criptoativos: o que são e como funcionam” aqui mesmo no Mais Retorno, tratando do que é o tal do blockchain, as criptomoedas e o seu mercado.

Uma das coisas em comum nas bolhas financeiras é que após seu “estouro”, o preço daquele produto, ativo ou o que quer que seja, não costuma voltar a subir. Pelo menos não em proporções relevantes. Dentre os mais clássicos, temos os preços das tulipas holandesas e os títulos da Companhia dos Mares do Sul, cujo preço nunca mais mostrou tal comportamento.

No gráfico abaixo é possível ver que, mesmo ainda permanecendo longe do pico histórico é impressionante a alta recente do preço das bitcoins, o que não é o mais usual dentre as bolhas, sobretudo quando a confiança daquelas pessoas que investem foram tão impactadas após o último tombo.

O problema é que, a partir daí, começam a surgir teorias de que “agora é diferente”, ou até colocando preços-alvo para o ativo.

Em contraponto, há formas mais rigorosas para avaliar se há bolha ou não.

Dois economistas do departamento de economia da USP publicaram recentemente o artigo “Is Bitcoin a bubble?” tentando entender um pouco mais o assunto. Chaim e Laurini (2018) usaram algumas técnicas estatísticas, envolvendo conceitos como martingale (que tem uma definição complicada para explicar aqui) para identificar bolhas financeiras.

De forma geral, à partir da análise da volatilidade do bitcoin, encontraram evidência baseada na literatura de que a hipótese de bolha é plausível.


Facebook entrando no jogo

Facebook entrando no jogo

Das novidades que podem ter revigorado o mercado das criptomoedas, a intenção do Facebook em ter um produto também com base no blockchain foi a de maior peso. A Libra tem vária particularidades, podendo ser categorizada como uma stablecoin, que é um tipo de coin vinculada a uma moeda fiduciária (por exemplo o dólar) ou a algum tipo de título.

A consequência é uma maior estabilidade em relação as criptomoedas, que costumam não estar atreladas, e por isso o “stable”.

Calma, não sabe o que é uma moeda fiduciária? De forma rápida, é uma moeda que algum governo declarou ter curso legal em um dado país, mas não tem seu preço lastreado em uma mercadoria física, como o ouro por exemplo.

Desta forma, o valor da moeda fiduciária é derivado da relação entre oferta e demanda, e não o valor do material do qual o dinheiro é feito. Essa discussão é ultrapassada hoje, mas foi bastante importante no século passado, quando ainda existia o tal Padrão Ouro.

O bitcoin tem uma característica diferente: ele se torna tão valioso quanto mais as pessoas acreditam que ele de fato é, o que o torna muito, muito volátil. Não é fiduciária pois não tem seu controle por nenhum governo ou banco central, sendo que um dado algoritmo controla sua oferta, de forma bastante previsível.

Em termos de volatilidade, o bitcoin segue com um dos investimentos mais arriscados para se tratar. E isso é um fator relevante, independentemente da existência ou não de fundamentos. A volatilidade voltou a crescer em 2019, e por sorte, as realizações têm sido positivas, mas não há qualquer garantia de que esse comportamento irá permanecer por muito tempo.

Não há fundamentos sólidos, práticos e teóricos, de que o preço dele é crescente ad infinitum, muito menos sobre o ponto de vista da teoria monetária.

Há de se ter bastante cuidado com os profetas que aparecem e somem durante as altas e baixas de qualquer ativo. O bitcoin é um caso clássico em que alguns gurus hibernaram durante a última baixa ao longo de todo 2018, eclodindo para ativa mais recentemente, prometendo o seu “lugar no céu”.

Quantos desses não disseram em 2017 que o preço da moeda iria aumentar muito mais do que de fato aconteceu? Quantos não conseguiram prever o tombo naquele ano? Pois é, estamos novamente passando por essa etapa.

Não faltam aqueles que prometem Bitcoin com preço de US$ 50 mil e até US$ 100 mil. A pergunta é: com base em que? Qual a justificativa para tamanho salto? Qual a metodologia de análise?

Mesmo no caso de ativos mais clássicos, em que as pessoas investem e estudam há décadas, a previsão de um preço alvo é muito difícil. Não é nem um pouco trivial projetar variáveis do mercado financeiro, mesmo aquelas com grandes fundamentos em desempenho de empresa e outros fatos relevantes.

Por outro lado, qualquer modelo estatístico que for utilizado sofreria com a enorme volatilidade do ativo. Uma estimação do seu preço futuro traria um intervalo de predição (que é derivado da volatilidade da série que se está estimando) que basicamente poderia assegurar que o preço do Bitcoin poderia encerrar o ano entre US$ 7 mil e US$ 50 mil, o que definitivamente não ajuda em nada.

Não há um modelo confiável para determinar um preço alvo para um ativo como esse. Tome cuidado com os profetas.

Desta vez é diferente?

Desta vez é diferente

Há de se ter bastante cuidado, sobretudo ao acreditar que o mercado de bitcoin é totalmente seguro. Para se ter noção, Griffin e Shams, professores e pesquisadores do departamento de finanças da universidade do Texas, encontraram evidencias de que os padrões dos preços do bitcoin no boom de 2017 não podem ser explicados somente pela demanda do investidor, mas são mais consistentes com a hipótese de que houve manipulação dos preços das criptomoedas.

Esse estudo foi feito a partir de algoritmos que analisaram os dados do blockchain e publicados em “Is Bitcoin Really Un-Tethered?”. Portanto, qual garantia que a situação atual de elevação de preços não responde por esse mesmo fenômeno?

Claro, nem todos os pontos são ruins e duvidosos, pois também houve ganho de confiança no mercado de criptomoedas. De fato, JP Morgan anunciou uma nova criptomoeda no início deste ano, além de ter anunciado planos de parceria e expansão de plataformas blockchain com a Microsoft. Por sua vez, a Intercontinental Exchange Inc (ICE, proprietária da NYSE) também lançou contratos futuros de Bitcoin (junto com a Bakkt).

Isso tudo gera maior confiança no mercado e, sobretudo, na tecnologia por trás.

Outro ponto alegado por quem acompanha o mercado é o crescimento dos chamados HODL (derivado da palavra hold), que são moedas que estão “paradas” há algum tempo, sem nenhuma negociação, seja por conta de uma estratégia de quem a possui, seja por desilusão com o ativo ou até por estar perdida (sim, as pessoas perdem bitcoins), o que tem impactado o volume da oferta deste mercado e seu preço.

É inegável que a procura pelo bitcoin aumentou, e isso é confirmado até pelo número de buscas no Google, que tem uma relação curiosa com o preço da moeda.

Ainda assim, quanto mais se pesquisa sobre o assunto, menos segurança se tem para aceitar as apostas que a moeda pode passar até dos US$ 100 mil. Simplesmente não há algo robusto para sustentar isso. Quase sempre há uma justificativa revolucionária, uma certa desconfiança para com os governos, mas nada com ótimos fundamentos para essas previsões.

Bitcoin é a moeda do futuro?

Bitcoin é a moeda do futuro

Essa é uma pergunta de um milhão de dólares. Como algo tão instável e volátil pode se tornar o principal meio de pagamento? A verdade que a resposta não é consensual, com bastante divergência dentre os economistas e outros técnicos amantes do Bitcoin.

Em termos pragmáticos, consideramos moeda aquele objeto que consegue ter aceitação pela sociedade, com confiança, uniformidade, divisibilidade e portabilidade. Dessas características, parece claro que falta a total confiança por parte da sociedade para que ela seja de fato aceita como uma moeda.

O problema maior vem quando consideramos as clássicas funções da moeda: meio de troca, reserva de valor e unidade de conta.

Há um paper bastante interessante disponível na NBER, instituição de pesquisas econômicas americana, elaborado por David Yermack em 2014 tratando do tema. Em “Is Bitcoin a Real Currency? An economic appraisal” o autor foca em criticar as possibilidades do bitcoin em ser unidade de conta e reserva de valor.

Digamos que a primeira função já está sendo utilizada, sendo que o bitcoin já é aceito como meio de pagamento para algumas empresas e produtos ao redor do mundo. Não é usual, mas já existe.

De certa forma também pode ser usada como reserva de valor, pois ao adquirir algumas, você consegue assegurar o seu valor para ser utilizado no futuro, seja para comprar produtos ou até para resgatar o valor nas moedas convencionais. Mas há bastante limitação, pois não faltam histórico de hackers, roubos e fraudes envolvendo a moeda, ressaltando algumas fragilidades em termos de segurança.

O problema maior está na última função. Como tem um valor muito alto, é difícil utilizar o bitcoin como unidade de conta, o que inclusive dificulta em uma das características da moeda: a confiança.

Imagine num cenário muito extremo: É difícil numa transação simples do dia a dia converter preços de produto para preços em bitcoin. Imagina ir à padaria e ter que pagar 0,00004591 bitcoin nos pães, ou então receber um salário mínimo em 0,02295579 bitcoins. Não é fácil contabilizar nessa escala.

Não há razões para acreditar que alguma criptomoeda será a moeda do futuro, mas pode ser sim um meio de pagamento ou então influenciar a nosso entendimento convencional por moeda.

A questão é que dificilmente as mudanças passariam sem regulamentação, o que faria com que essas novas moedas (algo híbrido entre as moedas atuais e as criptomoedas) apresentem possibilidade bem mais conservadoras do que as atuais criptomoedas, que inclusive ajudam muito no mundo do crime.

Me cobre daqui 20 anos, combinado?

Conclusão

O objetivo desse artigo foi chamar atenção do leitor para os riscos desse novo boom de um dos mais voláteis investimentos que podemos fazer

Construir riqueza, gerar rendimentos sólidos, é um trabalho duro e que as pessoas levam anos para aprender e conquistar.

O amigo leitor, amante de tecnologia e das criptomoedas, pode ficar incomodado com texto. Argumentos como “esse cara não conhece nada de criptomoedas ou da tecnologia envolvida” ou coisas do tipo podem acontecer (e de fato acontecem com frequência), o que não chega a ser uma inverdade.

O ponto é que tenho conhecimento sobre economia, meios de pagamento e a história da moeda, além de conhecer um pouco de como os agentes reagem as mudanças tecnológicas.

Sempre haverá algum novo produto milagroso, um santo graal que promete farturas fáceis e rápidas. O problema é que sempre surgem uma coleção de gurus, que ninguém conhecia antes, prometendo o Eldorado, e que deturpam boas ideias e boas tecnologias que aparecem na mesa.

A tecnologia envolvendo as criptomoedas é de fato muito interessante e já está sendo utilizado em diversos outros segmentos, mas é muita ousadia afirmar que elas serão o futuro e que substituirão um sistema monetário consolidado e seguro que o mundo tem com suas moedas fiduciárias.

Quanto às previsões de preço-alvo para o Bitcoins, se encontrar alguém apresentando algo bem fundamentado, reproduzível e modelado, nos apresente. Do contrário é só mais um adepto de Nicolas Flamel.

Avalie esse texto e nos ajude a melhorar cada vez mais.

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Sobre o autor

  • Arthur Lula Mota
  • Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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