Mercado Financeiro

Quem já é aposentado certamente vai se lembrar do filme sobre o qual o título acima faz referência. Trata-se de uma comédia dos anos 80 onde um piloto de guerra e a sua namorada assumem o comando de um avião após um imprevisto com a tripulação.

A situação atual não é nada engraçada, mas o filme pode servir como analogia para o que estamos vivendo. Imagine que um avião contenha passageiros de várias nacionalidades e todos ali estão à mercê das circunstâncias. Ninguém sabe muito bem o que vai acontecer ou quanto tempo o voo vai durar, a única coisa que esperam é que saiam vivos.

Ao contrário da crise de 2008, dessa vez não estamos expostos à alavancagem excessiva do mercado financeiro. Enfrentamos agora um problema que começou como um “choque de oferta”, por conta das fábricas chinesas que pararam de funcionar, e que se somou a um “choque de demanda”, decorrente do grande contingente de pessoas que estão em casa.

O que deveria ser um problema local foi se espalhando ao redor do mundo e, pela experiência chinesa, percebeu-se que o isolamento social é a melhor estratégia. O problema é que o mundo inteiro começou a fazer isso, de forma que a China agora pode produzir, mas não tem para quem vender.

Alguns indicadores, que literalmente “medem o pulso” da economia global, já mostram quedas acentuadas. É fato que governos e bancos centrais têm sido bastante ágeis, com programas de apoio e crédito farto, mas isso não significa que aposentados e investidores de um modo geral estejam livres de problemas.

Mais risco na renda

Assumir mais risco é o que todo assessor de investimentos diz para quem aponta para a baixa taxa de juros em sua renda. O problema é que a grande maioria “reage” aos juros mais baixos ao invés de se preparar para eles.

Assim, migram para fundos de crédito privado achando que ainda estão na sistemática do fundo DI. Por conta disso, costumam ser surpreendidos quando descobrem que não podem sacar de imediato e quando percebem que a cota ficou negativa.

Nenhum desses dois elementos representam “falhas” pois eles nada mais são do que ajustes para acomodar títulos de longo prazo, que se tornaram mais comuns conforme as empresas foram “rolando” dívidas mais caras por outras mais baratas.

O outro lado da moeda é que esses papéis não possuem um mercado secundário que os negocie prontamente. Ao contrário do mercado de ações, não necessariamente existirá um formador de mercado, uma instituição responsável por colocar diariamente ordens de compra para quem quer vender e ordens de venda para quem quer comprar.

Assim, quando um título troca de mãos, seu preço é refletido na cota do fundo, seja ele decorrente de uma compra com ágio ou de uma venda com deságio. Esse processo pode se repetir ao longo de vários dias, principalmente quando os cotistas não têm ciência de que, a cada solicitação de resgate, o gestor do fundo é obrigado a vender papéis de excelente qualidade de crédito em condições bastante adversas.

Não sendo um problema exclusivamente do Brasil, ele acontece em qualquer lugar do mundo.  Portanto, tentar sacar de um fundo com um maior grau de risco, quando o mercado está bastante arriscado, é prejuízo na certa.

Menor Rendimento na renda

Esse mesmo prejuízo também é perceptível para quem vive dos rendimentos, sejam eles aluguéis, proventos de fundos de investimento imobiliários ou dividendos de uma carteira de ações. Como exemplo, podemos nos ater aos shopping centers.

Eles foram forçados a fechar. Diante desse fato, não conseguem recolher os aluguéis de seus lojistas, pois cobram de acordo com as vendas. Alguns desses empreendimentos pertencem a fundos de investimento imobiliário, sendo que muitos deles possuem um shopping como único imóvel.

É o caso do Shopping Pátio Higienópolis, considerado um case de sucesso e um dos fundos pioneiros do setor, que já comunicou que não distribuiria proventos em abril. O mesmo pode acontecer com os fundos de lajes corporativas e de galpões logísticos caso demais empresas sejam impactadas com as restrições impostas à circulação de pessoas nas cidades.

Setores que costumam pagar bons dividendos em sua renda também não estão isentos. No caso do setor elétrico, para que as geradoras possam distribuir dividendos, elas precisam receber das distribuidoras, que são as empresas que levam a energia elétrica até as nossas casas. Se todos tiveram as suas atividades suspensas, quais as chances dos agentes econômicos (indústria, comércio e serviços) pagarem as suas respectivas contas de luz?

Seguindo o raciocínio, os bancos, que distribuem fartos dividendos, são também credores das geradoras de energia, tendo financiado parte dos seus custos de construção ou modernização. Se as distribuidoras sofrem calotes e não pagam integralmente as geradoras, como elas vão honrar os empréstimos contraídos no passado?

Por conta disso e de outros fatores que podem aumentar a inadimplência, o Conselho Monetário Nacional optou por vedar a distribuição de dividendos acima do que é estipulado pela Lei das SA (25%). O intuito é deixar as instituições financeiras preparadas para o que ninguém sabe exatamente o que vai ser.

De novo, não sendo um problema exclusivamente do Brasil, isso acontece no mundo inteiro. A Autoridade Bancária Europeia (EBA) e o Banco da Inglaterra também adotaram medidas semelhantes.

A solução para sua renda

Percebe-se que, na situação atual, não se trata de falta de preparo ou de diversificação em sua renda. Não tendo precedentes e, dada a escala do problema, nem o mais astuto dos financistas (aposentado ou não) teria a alocação perfeita para um cenário onde os rendimentos simplesmente somem.

Ainda assim, podemos extrair alguns ensinamentos. O primeiro ponto que fica evidente é a necessidade de liquidez em sua renda. Aquele fundo DI, com baixa taxa de administração e que deveria funcionar como reserva de emergência, ainda tem o seu papel.

Porém, de acordo com dados levantados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), não foi bem isso o que as pessoas fizeram. Muitas optaram por sacar de outros fundos, “realizando o prejuízo”, para aplicar em opções mais arriscadas, o que pode trazer resultados desastrosos.

Uma outra lição que fica desse evento de proporções globais é a predominância do dólar norte-americano como moeda de refúgio. Não aquele dólar que se comprava porque o Brasil era um país instável, mas o dólar que o mundo inteiro compra quando a incerteza é brutal.

Nesse caso, não se trata de simplesmente comprar a moeda física, mas de investir em fundos cambiais. O motivo é bastante simples: quando a volatilidade é muito grande, a diferença entre o preço de compra e o preço de venda, em relação ao preço do dólar em si, é bastante alta. Dito de outra forma, o pequeno investidor paga um preço absurdamente alto para comprar a moeda física e, se precisar vender rapidamente, vai receber muito menos.

O mesmo pode ser dito em relação ao ouro, pelas peculiaridades que ele possui. Fora da indústria de fundos, ele não é para qualquer um. Sendo uma mercadoria negociada em bolsa, o valor de um contrato futuro (barra de 250g) vale mais do que R$ 50 mil. Mesmo para aqueles que queiram comprar pequenas barras de ouro, existe o problema da falta de segurança, sem se esquecer da necessidade de revendê-las depois para o mesmo fornecedor.

Dado que se valorizam nos momentos de crise, tanto o fundo cambial como o de ouro podem ser resgatados como forma de se evitar saques adicionais do fundo de previdência.

Por fim, fica a dica de cautela e um orçamento doméstico que temporariamente contemple apenas o essencial. Não havendo uma previsão de quando essa situação se reverterá, a pior coisa que se pode fazer é tomar mais um empréstimo, mesmo que seja um crédito consignado.

Conclusão

As perdas acumuladas no mês de março não são fruto do trabalho de banqueiros gananciosos. Dessa vez, o problema que estamos enfrentando representa o maior desafio da humanidade.

Isso mostra o quanto devemos ser cautelosos nas nossas decisões, principalmente quando a sociedade inteira assume mais risco. Quando a crise vem, a irracionalidade que prevaleceu até então fica escancarada nos gráficos de cotações.

Os fundos de crédito privado, que sequer eram conhecidos durante a crise de 2008, sofreram por conta do alongamento dos prazos dos papéis de renda fixa. O que deveria ser bastante benéfico para o país, por permitir a construção de uma infraestrutura digna de uma economia do nosso porte, esbarrou na falta de conhecimento de quem queria apenas um retorno turbinado.

Nem mesmo as opções mais tradicionais foram poupadas. Proventos de fundos imobiliários e dividendos de ações estão suspensos mundo afora pois as perdas econômicas sofridas com a quarentena vigente em vários países simplesmente não serão recuperadas.

A propagação de uma doença mostra o quanto estamos expostos a fatores alheiros à nossa vontade. Ainda assim, nem tudo está perdido. A reserva de emergência e os ativos de refúgio (dólar e ouro) servem justamente para os momentos de crise.

No mais, basta proteger a saúde e o bolso.

“Winter is coming.”

Game of Thrones
Imagem do autor

Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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