Mercado Financeiro

O mercado financeiro permanece cauteloso, atento aos sinais de mudança na política monetária nos Estados Unidos, que ganhou mais um capítulo.

A ata da última reunião do Comitê de Mercado Aberto (FOMC) que o Fed (Federal Reserve) divulgou na quarta-feira, 18, indicou que ganha força o debate sobre a redução gradual do lote de títulos que o banco central americano vem comprando para dar maior tração à economia.

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Perspectiva de redução de incentivos monetários à economia americana deixa investidores cautelosos - Foto: Envato

O sentimento de maior cuidado, misturado a um ligeiro pessimismo dos investidores, não impediu que a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, retomasse a alta e subisse 0,45%, após três pregões de fortes baixas. As ações de empresas exportadoras de minério e aço, afetadas pelo recuo das commodities no exterior, continuam pesando negativamente sobre o Ibovespa.

Influenciadas pela variação negativa dos preços de minério de ferro, com as restrições adotadas pela China à produção de aço, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Vale e Usiminas, que têm peso relevante no principal índice da B3, ocuparam o topo da coluna de ações que mais caíram.

Romero Oliveira, head de Renda Variável da Valor Investimentos, visualiza um cenário global de preocupação do investidor com a disseminação da variante delta do coronavírus, a possibilidade de desaceleração do programa de estímulos monetários nos EUA já em setembro e com a inflação que começa a impactar as economias emergentes como um todo.

“Um cenário em que os investidores estão deixando os ativos mais sensíveis à recuperação econômica e começando a buscar ativos que oferecem mais proteção”, avalia Oliveira.

Um desses ativos, segundo especialistas, é o dólar, que se fortalece em escala global, inclusive no Brasil. “O dólar bateu R$ 5,42, maior valor desde maio”, diz Oliveira, que atribui o avanço da cotação ainda ao quadro local de deterioração da situação fiscal, crescente tensão política, pelo embate entre os Poderes, e ao aumento da pressão inflacionária.

“A falta de resolução da PEC dos precatórios e do valor do Auxílio Brasil gera mais preocupação sobre o cumprimento do teto de gastos para 2020”, afirma Oliveira.

A percepção de queda de popularidade do presidente Bolsonaro e do aumento de desaprovação à sua gestão reforça o temor de investidores e gestores de mercado com o risco de que o governo adote medidas que impliquem mais gastos para tentar recuperar a popularidade em ano eleitoral.

Como são questões cuja definição não está visível ainda no radar dos investidores, a expectativa de especialistas é que a persistente incerteza mantenha um clima de elevada volatilidade no mercado financeiro.  

Tensão política

A briga aberta entre o governo e o Supremo Tribunal Federal (STF) ganha um novo capítulo. O presidente Jair Bolsonaro se opôs contra o artigo do regimento interno da Corte que permite a abertura das investigações do ofício, sem a necessidade de aval da Procuradoria Geral da República (PGR).

A norma foi usada, por exemplo, para instaurar o inquérito das notícias falsas que atingiu a rede bolsonarista e o próprio chefe do Executivo.

Em ação enviada ao STF, a Advocacia Geral da União (AGU) pediu a suspensão liminar do texto até o julgamento definitivo do tema no plenário do tribunal. A AGU argumenta que o artigo viola preceitos fundamentais, como os princípios acusatórios, da vedação de juízo e de segurança jurídica.

Bolsonaro também anunciou que nesta sexta-feira sairá a sanção ou veto ao montante reservado pelo Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) para o fundo eleitoral de campanha para 2022. Em julho, o Congresso aprovou a ampliação do fundão, de R$ 2 bilhões para R$ 5,7 bilhões.

CPI da Covid: quebra de sigilo

O colegiado da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado pediu a quebra de sigilo fiscal do deputado Ricardo Barros, líder do governo Jair Bolsonaro na Câmara.

O colegiado vai requerer os dados à Receita Federal, assim como informações sobre investigações que envolvam o parlamentar no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Contas da União (TCU). Na sessão do dia anterior, os senadores também deram aval a um requerimento que quebra o sigilo fiscal de Frederick Wassef, que se apresenta como advogado do presidente e sua família.

Wassef se tornou amplamente conhecido após a Polícia Federal encontrar e prender Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro acusado de comandar um esquema de rachadinha para o parlamentar quando ele era deputado estadual pelo Rio, em uma propriedade sua na cidade de Atibaia, no interior paulista, em junho de 2020

 No mesmo dia, Barros entrou com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar anular a quebra de seus sigilos telefônico, fiscal, bancário e telemático.

NY: futuros em queda

Em Nova York, os contratos futuros negociados nas bolsas locais operam em queda com os investidores apreensivos com a retirada de estímulos sinalizada pelo Fed na ata da última reunião do Fomc, além das preocupações com o avanço da variante delta, que pode prejudicar a retomada global.

Segundo Filipe Teixeira, sócio da Wisir Research, os investidores estão fugindo para a segurança dos títulos do Tesouro e do dólar, estimulando fluxos de entrada nos mercados americanos que amortecem o impacto de uma venda global de ações corrigidas em Nova York.

No entanto, de acordo com o especialista, uma rápida disseminação da variante do vírus delta e uma repressão cada vez maior da China às grandes tecnologias podem continuar alimentando, conforme as expectativas, uma possível correção.

Bolsas asiáticas fecham no vermelho

As bolsas asiáticas fecharam em baixa nesta sexta-feira, em meio às incertezas regulatórias que cercam o setor de tecnologia chinês e preocupações com os desdobramentos da pandemia do novo coronavírus, à medida que a variante delta continua se espalhando pelo mundo.

Em Tóquio, o índice japonês Nikkei caiu 0,98% hoje, aos 27.013,25 pontos, pressionado em parte pelo setor automotivo. A ação da Toyota teve queda de 4,09%, após relatos de que a montadora pretende cortar sua produção em 40% em setembro, diante da escassez mundial de chips para veículos.

Já o Hang Seng liderou as perdas na Ásia, com baixa de 1,84% em Hong Kong, aos 24.849,72 pontos, com temores de que o governo chinês endureça ainda mais a regulação para grandes empresas de tecnologia do país.

O papel do gigante de comércio eletrônico Alibaba, por exemplo, recuou 2,59% na bolsa local. A China aprovou hoje uma lei de privacidade que vai restringir a ampla coleta de dados de usuários por companhias de tecnologia, segundo a agência de notícias estatal Xinhua.

Na China continental, o Xangai Composto se desvalorizou 1,10%, aos 3.427,33 pontos, e o menos abrangente Shenzhen Composto caiu 1,17%, aos 2.388,96 pontos.

Como se previa, o banco central chinês manteve inalteradas nesta sexta-feira suas principais taxas de juros de referência para empréstimos de curto e longo prazos, conhecidas como LPRs.

Em outras partes da região asiática, o sul-coreano Kospi recuou 1,20% em Seul, aos 3.060,51 pontos, e o Taiex registrou perda modesta em Taiwan, de 0,20%, aos 16.341,94 pontos.

Na Oceania, a bolsa australiana fechou em baixa apenas marginal hoje, mas vem acumulando perdas por cinco pregões seguidos, seu pior desempenho desde março de 2020. O S&P/ASX 200 caiu 0,05% em Sydney, aos 7.460,90 pontos. / com Júlia Zillig e Agência Estado

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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