Mercado Financeiro

Depois de cair mais de 1,2% e trafegar no negativo até o início da tarde desta quinta-feira, 19, a Bolsa inverteu o sinal e fechou em alta de 0,45%, aos 117.164,69 pontos, com os investidores indo às compras com muitas pechinchas no mercado.

Após três dias de fortes quedas, diversas ações zeraram os ganhos do ano ou até mesmo retornaram para níveis de abril ou maio, segundo o analista da Clear Corretora, Rafael Ribeiro. Com isso, muitos investidores entenderam que o momento era oportuno para a compra em níveis bem convidativos de preços.

Foto: B3/Divulgação
Sede da B3 em São Paulo - Foto: B3/Divulgação

O dólar também subiu 0,91%, cotado a R$ 5,428.

O que impediu uma reação mais vigorosa da Bolsa nesta quinta-feira foi o comportamento das ações do setor siderúrgico e mineração, após os contratos de minério de ferro despencarem 12% em Singapura, atingindo o menor nível desde dezembro de 2020.

A desvalorização é, em boa dose, consequência de expectativas de redução na produção e consumo de aço chinês até o fim deste ano, em parte pelas medidas de restrições para conter a poluição naquele país. Essa perspectiva levou a uma baixa nos preços da commodity de mais de 40% em relação ao recorde alcançado há apenas três meses.

Não por acaso, os papéis das siderúrgicas tiveram as maiores quedas do dia na B3. Vale, CSN, Usiminas e Gerdau reportaram queda forte de 5,48%, 5,53%, 5,69% e 3,14%, respectivamente. Já as ações de Petrobras, que chegaram a cair mais de 1% pela manhã, fecharam com desvalorização de 0,56%.

Do lado positivo do dia, o destaque ficou com o setor financeiro, que é uma porta de entrada dos investidores na B3. Entre os bancões, que caíram bem mais ao no decorrer do pregão, o Itaú fechou com queda de 1,12%, enquanto o Bradesco fechou sem variação e o Santander subiu 0,35%.

Além do setor financeiro, as ações de empresas ligadas ao consumo interno atraíram os investidores estrangeiros. Até o dia 17 de agosto, quando o Ibovespa escorregou ao nível de 116 mil pontos desde abril, o saldo líquido dos estrangeiros na Bolsa foi positivo em R$ 2,05 bilhões, enquanto neste mês as compras superam as vendas em R$ 5,7 bilhões.

Sobe e desce da B3

Após anunciar o lançamento do Programa de Demissão Incentivada (PDI), por conta da Copel Telecom, as ações da Copel chegaram a cair mais de 1,2% no período da manha; no início da tarde, os papéis viraram o sinal e fecharam com alta de 2,95%.

As ações da Ambipar subiram 4,21%, após o anúncio da companhia de que apresentou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) um pedido de IPO de sua controlada Environmental ESG Participações, que atua no setor de gestão ambiental.

A rede de diagnósticos de imagem Alliar comunicou que a Rede D'Or adquiriu mais 63 mil ações ordinárias de emissão da companhia, totalizando R$ 721,9 mil. A notícia levou os papéis da rede de hospitais a caírem mais de 1,2% no pregão. No entanto, no fechamento a companhia registrou alta de 0,20%

Dólar em alta

O dólar fechou em alta de 0,93%, vendido a R$ 5,428. A moeda americana testou a máxima de R$ 5,456 neste pregão, maior intradia desde 4 de maio – R$ 5,483 – puxando a curva a de juros para cima.

Os investidores precificaram o tombo no preço das commodities em meio à aversão ao risco no exterior, após o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) ter defendido a realização do tapering ainda neste ano com receio da alta recente e persistente da inflação.

Especialistas atribuem também a alta do dólar ao cenário de incertezas domésticas ligadas à instabilidade política, gerada sobretudo pelo embate entre os Poderes e à insegurança com o equilíbrio fiscal. Nesse ambiente, segundo eles, o investidor estaria procurando o mercado de dólar como proteção ao patrimônio.

Já o mercado de câmbio avalia que é possível o Banco Central fazer leilão de swap cambial ou de moeda no mercado à vista, uma vez que o avanço do dólar ante o real é bem maior do que a valorização da moeda americana frente pares principais e moedas emergentes ligadas a commodities.

Com o cenário adverso, o Tesouro divulgou ainda, antecipadamente, o edital do leilão de LTN, NTN-F e LFT de hoje, que era previsto para 11h, que apontou uma redução de papéis, após já ter colocado uma oferta pequena de NTN-B na última terça-feira,17.

Risco político e fiscal

No ambiente doméstico, as atenções do mercado se voltam à confecção da peça orçamentária de 2022, em meio ao imbróglio envolvendo o pagamento dos precatórios e ao desejo do presidente Jair Bolsonaro de expandir o Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil, para tentar recuperar a popularidade.

"O governo já não consegue ancorar mais as expectativas. O presidente perdeu muito do seu capital político e existe o risco de que ele jogue o fiscal pela janela para tentar se reeleger", afirma o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto.

Em audiência no Congresso Nacional, o secretário do Orçamento Federal, Ariosto Culau, disse que, sem o parcelamento dos precatórios, todos os programas do governo em 2022 estarão comprometidos.

Culau argumentou que a PEC dos precatórios é uma forma de manter o teto de gastos sem sacrificar programas meritórios. "Não estamos propondo que o teto seja rompido, parcelar precatórios torna a regra efetiva", afirmou.

O head de Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, afirma que, embora o Brasil já tenha estado à beira do abismo em certas ocasiões, sempre houve um recuo por parte da classe política na direção de preservar uma racionalidade mínima na condução das contas públicas.

"É difícil acreditar que vão seguir nessa linha de burlar o teto de gastos. Essa piora dos ativos domésticos faz parte da pressão do mercado para um ajuste na rota", diz o tesoureiro do Travelex, ressaltando que o nível de incerteza é hoje muito grande. "Eu geralmente tenho uma convicção da direção dos ativos, mas neste momento está muito difícil".

A consultoria Eurásia divulgou na véspera um relatório rebaixando a trajetória de longo prazo do Brasil de neutra para negativa, com a avaliação de que a preocupação fiscal e a inflação persistente devem piorar as expectativas para o desempenho da economia em 2022.

A empresa também afirma que as tensões institucionais devem piorar a qualidade da pauta no Congresso e que o ambiente econômico ruim enfraquece Bolsonaro, o que incentiva o presidente a tentar deslegitimar as eleições.

CPI da Covid: Precisa Medicamentos

Nesta quinta-feira, o colegiado da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado ouve, após quatro adiamentos, o sócio da Precisa Medicamentos, Francisco Maximiano, que prestará um dos depoimentos mais aguardados pelos senadores.

A empresa atuou como intermediária entre a Bharat Biotech e o Ministério da Saúde na negociação de 20 milhões de doses da vacina Covaxin a partir de contrato suspeito de irregularidades e hoje cancelado.

A transação comandada pela Precisa, que acabou cancelada pelo governo federal após o contrato entrar na mira da CPI, é uma das principais linhas de investigação do colegiado.

A vacina indiana foi negociada ao preço de US$15 a dose, totalizando R$ 1,6 bilhão. Foi o mais caro imunizante contratado pelo governo e a tratativa mais rápida.

A verba chegou a ser empenhada (reservada formalmente no Orçamento da União) para a compra, mas nenhum pagamento foi efetivado

NY: bolsas mistas

Nos Estados Unidos, as bolsas de Nova York fecharam com sinais mistos, com os investidores digerindo os últimos dados econômicos e apreensivos sobre a postura do Fed em retirar os estímulos da economia antes do previsto.

O índice S&P 500 teve alta residual de 0,13%, Dow Jones recuou 0,19% e Nasdaq 100 avançou 0,51%.

Durante a manhã, o Departamento do Trabalho americano divulgou que o número de pedidos de auxílio-desemprego no país registrou queda de 29 mil solicitações, somando 348 mil. O resultado ficou abaixo da expectativa dos analistas, que previam 365 mil pedidos.

O número de pedidos continuados, por sua vez, apresentou recuo de 79 mil na semana encerrada em 7 de agosto, totalizando 2,82 milhões.

Os investidores estão se preparando para a retirada da liquidez sem precedentes nos mercados globais, à medida que o mundo desenvolvido busca vacinações em massa para manter a recuperação econômica no caminho certo.

O próximo momento importante para os investidores é a conferência do Fed em Jackson Hole, que acontecerá entre os dias 26 e 28 de agosto, na qual os dirigentes podem trazer um detalhamento maior sobre a redução do estímulo.

Bolsas asiáticas fecham em baixa

As bolsas asiáticas fecharam em baixa nesta quinta-feira, com o Fed, em meio a preocupações sobre possível aperto regulatório na China e o avanço da variante delta do coronavírus pelo mundo.

O índice acionário japonês Nikkei caiu 1,10% em Tóquio hoje, aos 27.281,17 pontos, enquanto o chinês Xangai Composto recuou 0,57%, aos 3.465,55 pontos e o Hang Seng teve queda de 2,13% em Hong Kong, aos 25.316,33 pontos.

 O sul-coreano Kospi se desvalorizou 1,93% em Seul, aos 3.097,83 pontos, seu menor nível em quatro meses, e o Taiex registrou expressiva perda de 2,68% em Taiwan, aos 16.375,40 pontos.

A rápida disseminação da delta e outras variantes do coronavírus prejudica o apetite por risco. Na ata, o Fed ressaltou que esse fator reforça as incertezas sobre o cenário econômico global.

Há também temores de que o governo chinês torne ainda mais severa a regulação contra empresas de tecnologia derrubou hoje as ações de gigantes do setor.

Exceção nesta quinta, o índice chinês de menor abrangência Shenzhen Composto teve alta de 0,20%, aos 2.417,23 pontos.

Na Oceania, a bolsa australiana seguiu o tom majoritariamente negativo da Ásia, pressionado por mineradoras e petrolíferas, que sentiram os efeitos de quedas nos preços do minério de ferro e do petróleo. O S&P/ASX 200 caiu 0,50% em Sydney, aos 7.464,60 pontos. / com Tom Morooka e Agência Estado

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Repórter do Portal Mais Retorno.

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