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Você provavelmente já ouviu falar da Shein. Mas, se esse nome ainda não lhe soa familiar, pergunte aos seus filhos, sobrinhos ou primos mais novos que eles devem conhecer. Shein é um aplicativo chinês de e-commerce que vem mexendo com o mercado da moda, principalmente quando falamos da indústria fast fashion, que conta com gigantes como a Zara. Há rumores de que a empresa chinesa se prepara para abrir o capital, com o maior IPO de todos os tempos.

A Shein faz sucesso, sobretudo, com as gerações mais jovens e configura, hoje, o pódio dos mais baixados em várias lojas de aplicativos. Dados da Euromonitor divulgados pela Reuters mostram que a Shein se tornou a maior operadora de moda do mundo em vendas online de produtos de marca própria.

O destaque da marca tem chamado a atenção, inclusive, do mercado financeiro e cresce a expectativa para que, em breve, haja uma estreia da loja online nas bolsas de valores mundo a fora.

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Foto: Shutterstock

Mesmo com todo o sucesso, a Shein mantem um perfil baixo e pouco se tem acesso aos números e dados sobre a empresa. No entanto, fontes ligadas à startup chinesa asseguram ao mercado que, em 2020, as vendas no aplicativo chegaram a US$ 10 bilhões, impulsionadas pela pandemia de covid-19.

Entre as milhares de pessoas que contribuíram para esse resultado estão Marina Orfali e Natália Cury, duas estudantes de 20 anos que trabalham com redes sociais e viraram fãs da marca durante o período de isolamento social. Preço baixo e tendências da moda em tempo real, aliados a um marketing espontâneo nas redes sociais parecem ser os principais fatores que influenciam no surgimento de novos consumidores da marca.

Marina, que conheceu a marca através de vídeos de influenciadoras digitais no TikTok e Instagram comenta que "normalmente, os sites chineses não têm opções bonitas. Mas, na Shein, além do preço em conta, as roupas são estilosas e estão na moda." Natália compartilha da mesma opinião e complementa que a loja tem "uma variedade imensa com produtos difíceis de encontrar em outros lugares".

Modelo de negócios da Shein

O preço, a variedade e o acompanhamento das tendências da moda ocidental, características observadas pelas duas entrevistadas, fazem parte do modelo de negócios que a Shein começou a montar lá em 2008, quando surgiu. Mas não é só isso.

De acordo com Alexandre Zavaglia, fundador da Finted Tech School, uma escola de negócios voltada para o mundo digital, há 5 pilares principais que sustentam a marca. “É a combinação entre supply chain, cultura data-driven (dados em tempo real e negócio orientado por dados), produção rápida e assertiva, logística, e benefícios fiscais para custo baixo do produto na prateleira", afirma.

O professor explica que o grande diferencial da empresa chinesa é o controle que ela tem sobre sua cadeia de produção, com parceiros terceirizados, mas próprios, que não ficam muito longe dos centros logísticos. Além desses vários centros logísticos presentes na China e nos EUA, há uma quantidade gigantesca de itens vendidos diariamente para mais de 200 países, a maioria do Ocidente.

Combinada a uma cadeia de suprimentos efetiva, a Shein se beneficiou do mundo online para desenvolver uma produção categórica.

A empresa tem uma coleção nova, em média, a cada 10 dias, com milhares de peças diferentes diariamente. No entanto, o processo de produção evita desperdícios. As peças são disponibilizadas em poucas quantidades, então a startup usa os rastros, dados, e preferências dos usuários dentro do próprio aplicativo e redes sociais para identificar quais produtos devem ser feitos em maior quantidade.

Além do sistema produtivo adotado pela empresa chinesa, outro fator contribuiu para o seu forte crescimento em todo o mundo: benefícios fiscais. Em 2018, enquanto corria a guerra comercial com os EUA, em resposta a uma nova rodada de tarifas do país norte-americano, a China renunciou efetivamente os impostos de exportação para empresas de consumo direto, o que foi bom para a Shein.

Simultaneamente, desde 2016, pacotes com valor inferior a US$ 800 podem entrar nos EUA, país com maior volume de compras no aplicativo, com isenção de impostos. Como a maioria das compras feitas na loja online não atingem esse preço, os pacotes chegam sem tributação, mantendo os preços baixos e reduzindo a concorrência.

Geração Z

Assim como muitas das empresas nativas digitais, a Shein é focada nas gerações mais jovens, principalmente a geração Z, que hoje tem entre 10 e 25 anos. Desde o design das roupas até a forma de comunicar da marca está dentro dos padrões dessas pessoas.

Chamada por alguns de "TikTok do comércio eletrônico", a startup explodiu dentro do aplicativo de vídeos curtos. Mas, diferente do que as marcas estavam acostumadas a fazer até então, o marketing da Shein é principalmente espontâneo. São os próprios clientes que compram e produzem seus conteúdos para divulgar os produtos.

O aplicativo tem quase como uma comunidade própria, com a possibilidade de postar fotos com os looks montados, falar sobre a experiência com cada produto e, claro, confirmar se a qualidade e o tamanho das peças é realmente o que está ali demonstrado. Zavaglia explica que "quanto mais o objetivo for o produto, maiores são as chances dele se dar bem no meio digital".

O professor considera, ainda, que para além de toda a experiência oferecida pela empresa ao usuário, o ponto para o sucesso é o preço baixo. "Há a tese (entre a geração Z) que ser chique é gastar pouco e comprar muito", finaliza.

A Shein no mercado financeiro

Embora a Shein tenha negado, os rumores no mercado são fortes de que a varejista de fast fashion está se preparando para abrir capital na bolsa de valores, num valor de US$ 47 bilhões, o maior IPO da história. De acordo com a Bloomberg, no ano passado a marca teria contratado o Goldman Sachs Group Inc., o Bank of America Corp. e o JPMorgan Chase & Co, para assessorar a potencial oferta pública inicial.

Mesmo não abrindo seus dados ao público, a empresa conseguiu alavancar seu valor não só com a geração Z, mas também com investimentos altíssimos. Na mesma apuração, a Bloomberg diz que a startup teria completado uma rodada de investimentos, iniciada em janeiro de 2019, com avaliação de cerca de R$ 30 bilhões.

Outra chinesa, a Sequoia, confirmou ao site TechCrunch que foi uma das investidoras. Entretanto, pouco se sabe também sobre quais foram as outras empresas a destinar capital à Shein. Alguns nomes que circularam na mídia chinesa foram Tiger Global, Shunwei Capital, IDG Capital, Greenwoods e JAFCO Asia.

Alexandre Zavaglia, assim como outros especialistas do mercado, considera que o maior perigo para a startup no futuro é, justamente, em relação ao que a empresa não mostra.

Com uma agenda sustentável crescente, investidores ligados aos princípios ESG e o histórico de outras empresas do setor, como a Zara, que viveu um escândalo com denúncias de trabalho escravo em empresas terceirizadas, a Shein precisa estar atenta também aos seus processos e formas de trabalhar com funcionários, meio ambiente e dados dos usuários.

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Repórter na Mais Retorno

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