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Economia

Selic a 13,75%? O que é melhor, Tesouro Selic, Tesouro IPCA ou Prefixado?

Tesouro Selic seguirá atraente até que a Selic passe a recuar; Tesouro IPCA e Prefixado têm taxas maiores em vencimentos curtos

Data de publicação:03/08/2022 às 05:00 -
Atualizado 8 dias atrás
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A expectativa da maioria dos analistas do mercado financeiro é que a taxa básica de juros, a Selic, passe por novo ajuste de 0,50 ponto porcentual, para 13,75% ao ano, nesta quarta-feira, 3 de agosto. Nesse cenário, o que é melhor, Tesouro Selic, Tesouro IPCA ou Prefixado?

Os juros já elevados tornam o rendimento das três modalidades de título atraente, mas a resposta sobre qual o mais indicado vai depender da sinalização a ser dado pelo Banco Central sobre os próximos passos da política monetária. Isso deve vir em comunicado após a reunião de hoje de seus diretores. Acompanhe:

Selic
Decisão sobre nova Selic sai após o fechamento do mercado nesta quarta-feira, dia 3 - Foto: Reprodução

A aposta do mercado

A decisão da nova Selic será tomada e anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), após o fechamento dos mercados.

A aposta em aumento de 0,50 ponto porcentual é quase uma unanimidade. O que divide os agentes é se, após a decisão desta quarta-feira, o comunicado do BC cravaria o fim do ciclo de alta. Ou deixaria o caminho aberto para nova elevação na reunião seguinte, em setembro.

Os três entrevistados para essa reportagem se alinham à maioria do mercado e preveem uma elevação de 0,50 ponto porcentual na Selic na reunião de hoje.

Uma ideia comum entre analistas é que, após esse ajuste, o BC poderia deixar uma janela para nova alta, que dependeria de evolução dos dados econômicos (principalmente inflação e atividade), sem adiantar essa possibilidade nem a possível calibragem do ajuste.

Independentemente de sinalização e da dinâmica da Selic, os analistas dizem que os juros já estão bastante elevados, em nível contracionista (para conter a atividade e frear a inflação). Um cenário de oportunidades para ganhos na renda fixa, tanto em títulos públicos como privados.

Tesouro Selic, favorecido com juro em alta

O Tesouro Selic, que segue a alta do juro básico da economia, permanecerá atraente enquanto o BC não sinalizar o fim do ciclo, afirma Igor Cavaca, head de gestão de investimentos da Warren Asset. “O título está com juro alto e deve se manter assim por muito tempo”, até que a Selic passe a recuar.

Victor Zucchi Meneghel, especialista em renda fixa da Valor Investimentos, diz que o Tesouro Selic alia boa rentabilidade com liquidez e baixo risco. “É indicado para o investidor conservador ou para a aplicação de reserva de oportunidade”, avalia.

Com a liquidação em um dia, que põe o dinheiro rapidamente na mão, “o investidor pode deixar o dinheiro no título e ficar de olho em janelas de oportunidade para realocação imediata em opções mais rentáveis”.

“O nível atual de taxa Selic, que deve chegar a 13,75% nesta quarta-feira e pode ir até além, é muito atraente para um título que é dos mais seguros”, compartilha Eliseu Hernandez, analista de risco na Oby.

Tesouro IPCA, taxas maiores em vencimentos curtos

A política monetária contracionista está levando o mercado a revisar para baixo a inflação e os juros para títulos mais longos, afirma Hernandez, da Oby. “O mercado está precificando que o BC deve começar a cortar a Selic em meados de 2023”, aponta o analista.

 “As taxas de juro já estão menores em títulos de prazos mais longos”, movimento que ele vê como normal. “A taxa vai cair, é a curva normal de juros, porque a Selic está muito contracionista”, avalia.

Cavaca, da Warren Asset, também aposta na queda da inflação, na esteira da política monetária contracionista, e estima que, nesse cenário, os títulos indexados à inflação venham a rentabilizar menos que os prefixados, pelas atuais taxas.

Haveria, de acordo com Cavaca, duplo impacto sobre o Tesouro IPCA, título público com rendimento híbrido. Seu retorno é dado por juro real prefixado, que recuaria com a Selic, e correção monetária, que também encolheria com a desaceleração da inflação medida pelo IPCA.

Zucchi Meneghel considera atraentes os títulos indexados à inflação de vencimentos intermediários, entre 2028 e 2035. “São títulos com risco adequado ao vencimento, mais seguros que os de vencimentos mais longos”, sujeitos a maior volatilidade, de juros e preço.

Tesouro Prefixado de prazos menores tem taxa maior

A taxa de juros do Tesouro Prefixado também segue dinâmica semelhante à do Tesouro IPCA. Os juros de papeis mais curtos estão acima dos de prazos mais longos. “Os vencimentos para 2023/2024 estão com taxas acima de 13% ao ano”, afirma Hernandez, analista na Oby.

É uma taxa superior à de vencimentos mais longos, depois de 2025, que estão abaixo de 13% ao ano, aponta. As taxas mais curtas, segundo ele, estão pressionadas pelas incertezas com os efeitos da guerra da Ucrânia na inflação e a proximidade de eleições presidenciais no País. E as mais longas já precificam possível corte dos juros pelo BC a partir de 2023.

Para especialistas, investir em títulos prefixados ou indexados à inflação, como Tesouro Prefixado ou Tesouro IPCA, com vencimentos mais curtos e taxas mais altas pode levar a um retorno mais atraente. A questão é que na realocação, no vencimento, o investidor poderá encontrar taxas menores em um cenário de inflação em desaceleração e Selic em queda.

Cavaca, da Warren Asset, destaca outros dois pontos em títulos prefixados. Um é a velocidade de redução dos juros pelo BC. “Se essa decisão levar mais tempo do que o mercado pensa ou imagina, o título poderá render menos que outras opções.”

Outro, aponta ele, o Tesouro Prefixado é o que oferece maior risco, em termos de condução da política monetária. “Se o juro sobe, o título perde valor (em relação aos demais que estão com taxas mais altas) e se a inflação sobe a taxa prefixada também pode se tornar insuficiente”.

Oportunidades em crédito privado

A alta da Selic não melhora apenas a rentabilidade dos títulos públicos. Impacta também o retorno dos títulos de crédito privado, de emissão bancária, como CDBs, e corporativa, como debêntures.

A correlação de taxas se deve ao fato de que a precificação de títulos privados é referenciada em títulos públicos, nas Notas do Tesouro Nacional da série B (NTN-B) ou Tesouro IPCA, na versão do Tesouro Direto.

“A essa taxa é acrescido um adicional, como prêmio de risco, por ser emissão corporativa, que supostamente eleva o risco de crédito”, afirma Hernandez. Por isso, costumam proporcionar retorno maior que o dos títulos públicos, vistos como mais seguros, pela garantia do Tesouro.

Zucchi Meneghel, especialista em renda fixa da Valor Investimentos, vê boas oportunidades no segmento de dívida privada.  De acordo com ele, novas emissões têm oferta de debêntures incentivadas, isentas de imposto de renda, com juro de até 6% ao ano mais IPCA. A taxa da NTN-B ou Tesouro IPCA também gira em torno de 6%, mas o rendimento é tributado pelo imposto de renda.

A recomendação de especialistas é que, de olho na taxa, o investidor fique atento também à empresa emissora do papel, analise o porte, a solidez financeira, a qualidade do rating (classificação de risco e de crédito). 

Diversificação, uma estratégia adequada

O analista de risco na Oby sugere a diversificação da carteira entre os diversos ativos de renda fixa para atravessar o cenário de indefinição da política monetária e os riscos inflacionários.

O Tesouro Selic, para aproveitar o juro em alta, com segurança e boa liquidez; o Tesouro IPCA, para proteção de capital contra a inflação e boa rentabilidade; e o Tesouro Prefixado, para quem quer travar o juro alto em cenário de possível redução da Selic.

A estratégia de diversificação, lembra Hernandez,  pode ser estendida ainda a ativos de crédito privado.

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Sobre o autor
Tom Morooka
Colaborador do Portal Mais Retorno.