Mercado Financeiro

Mercado: ativos seguem comprimidos por incertezas no cenário fiscal

Crescimento menor da China afetou mercados domésticos, porque país é grande importador das commodities e alimentos brasileiros

Data de publicação:19/10/2021 às 08:00 - Atualizado um mês atrás
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O mercado financeiro começou a semana na mesmice, com a Bolsa de Valores e o dólar invertendo as tendências. A Bolsa de Valores de São Paulo encerrou a segunda-feira com ligeira queda de 0,19%, depois de ter fechado a sexta-feira, 15, com valorização de 1,29%.

O dólar iniciou a semana com alta de 1,21%, cotado por R$ 5,52, após ter recuado 1,11% na sexta-feira, vendido por R$ 5,45. Para especialistas, o marasmo na Bolsa espelha as incertezas no cenário fiscal.

fluxo de capital estrangeiro bolsa
Incertezas fiscais seguem segurando avanço da Bolsa - Foto: Envato

A queda da Bolsa de Valores e a alta do dólar foram atribuídas pelos especialistas aos dados de PIB (Produto Interno Bruto) mais fracos que o previsto na China, o que gerou uma repercussão negativa nos mercados domésticos, já que o País é um dos principais exportadores de commodities e alimentos para o mercado chinês.

Ainda de acordo com os eles, a reação negativa do mercado de ações ao PIB chinês abaixo do esperado foi neutralizada em parte pelos resultados positivos nos balanços corporativos divulgados nos Estados Unidos.

No caso do dólar, o avanço com mais força foi contido por nova intervenção do Banco Central, com ofertas de contratos de swap cambial.

Desta vez, o Banco Central reforçou a dose. Além da oferta prevista de 14 mil contratos que equivalem à venda futura de dólar, ofereceu adicionalmente mais 10 mil contratos, no valor total de US$ 1,2 bilhão.

Eventos e expectativas do dia a dia têm ditado o rumo dos mercados, mas especialistas dizem que o comportamento da bolsa de valores e do dólar reflete movimentos estruturais derivados de incertezas no cenário fiscal.

A votação da PEC dos precatórios pela Câmara nesta semana poderá aliviar a tensão ou adicionar mais incerteza à preocupação fiscal.

Incertezas no cenário fiscal afetam a Bolsa

O termômetro desse sentimento, apontam, seria a alta dos juros futuros. Preocupados com o equilíbrio das contas públicas, os investidores estão exigindo juros mais elevados, um prêmio de risco maior que se traduz na curva de alta dos juros futuros e na alta da cotação do dólar. Dólar mais caro realimenta a inflação que, por sua vez, leva a juros ainda mais altos.

Nesse cenário de instabilidade, e em meio ao ambiente de incertezas políticas e econômicas, o mercado de ações perde atratividade perante o investidor, que, ao ver os juros em elevação, prefere proteção e rentabilidade com menos risco na renda fixa.

Os juros futuros tiveram mais um dia de alta na véspera. Os contratos de DI futuro para janeiro de 2023 fecharam em 9,36%; os de vencimento em janeiro de 2025, em 10,27%; e os de janeiro de 2027, em 10,66%.

Para especialistas, investidores estariam preferindo uma rentabilidade anual nesses patamares a correr o risco mais acentuado em bolsa de valores. A B3 acumula baixa de 3,86% no ano, até agora.

Cenário político

O cenário político também compõe o pacote de apreensões do mercado. Com um poder sem precedentes no comando da Câmara, Arthur Lira tem atropelado os ritos da Casa para impor sua pauta ao ponto de, em mais de uma ocasião, colocar em votação projetos que os próprios deputados desconhecem o texto final.

A conduta tem provocado críticas por parte dos parlamentares e especialistas, que apontam falta de transparência. O caso mais recente ocorreu na quinta-feira, 14, quando o relatório final da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que aumenta o poder do Congresso sobre o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) só foi divulgado depois que a sessão para a votação já havia começado.

Sem conseguir apoio suficiente para aprová-la, Lira adiou a análise do texto para esta terça-feira. Além disso, o presidente da Câmara também decidiu votar a proposta diretamente do plenário, ignorando a fase em que as alterações na Constituição são discutidas em uma comissão especial, como prevê o regimento em caso de PEC.

É nesta fase em que são realizadas audiências públicas e o texto pode ser discutido com a sociedade civil. Mas uma brecha utilizada por Lira permite pular essa etapa quando há urgência.

Além da PEC, Lira segue tentando "barrar" o impeachment de Bolsonaro. No dia anterior, Lira voltou a dizer que não há apoio popular para o afastamento do chefe do Executivo, ne de votos de deputados para aprovar a abertura de um processo contra ele, ainda que mais de 100 pedidos tenham sido propostos.

"Estamos a um ano das eleições, o que ia resolver?", questionou. Para ele, tampouco há condições econômicas para o impeachment.

Lira disse que o presidente da Câmara deve agir com responsabilidade. Ele afirmou ainda que seu antecessor, Rodrigo Maia, ainda que fizesse oposição a Bolsonaro, tampouco deu andamento aos processos de impeachment por não ver condições para tal.

Sobre a reforma administrativa, Lira cobrou apoio do governo ao projeto. Para ele, o texto não mexe em direitos adquiridos nem afeta a estabilidade dos servidores públicos atuais.

"Posso dizer que governo está fazendo força sobre reforma administrativa? Não está", afirmou. "O governo precisa ajudar e se movimentar para que a reforma administrativa ande."

Auxílio Brasil

Sob pressão para definir como ficarão as políticas sociais a 13 dias do fim do auxílio emergencial, o governo tem agora na mesa uma nova proposta de arranjo dos benefícios, que incluiria o Auxílio Brasil - novo Bolsa Família - e duas parcelas complementares, pagas uma dentro e outra fora do teto de gastos, regra que limita o avanço das despesas à variação da inflação.

Essa alternativa levaria os beneficiários a receber, em média, R$ 400 em 2022, ano em que Bolsonaro buscará a reeleição.

A ideia se soma a um leque de opções que têm sido analisadas pelo Palácio do Planalto, em um ambiente de muita tensão e informações desencontradas de autoridades de governo e de políticos.

No dia anterior, o presidente chegou a falar sobre a possibilidade de prorrogar o auxílio emergencial, que hoje paga R$ 150 a R$ 375 a 39 milhões de brasileiros.

CPI da Covid: tensão no colegiado

Com a proximidade de conclusão de suas atividades, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid vive um momento de tensão por conta das divergências entre o relator, Renan Calheiros e o presidente da CPI, Omar Aziz.

Na véspera, Aziz reforçou sua insatisfação com o relatório da comissão e se recusou a fazer uma nova reunião do grupo majoritário para discutir o parecer final da investigação.

Para Aziz, há falhas na tipificação dos crimes apontados nas conclusões do relator que podem ser derrubadas após a conclusão dos trabalhos da CPI. "Ninguém vai condenar ninguém fazendo do relatório uma pirotecnia", disse o presidente do colegiado em entrevista à imprensa no Senado.

Após o descontentamento, Aziz pediu que o relator não altere nada no parecer e que, apesar dos questionamentos, o parecer será aprovado. Mais cedo, Renan admitiu fazer alterações se houver concordância da maioria da comissão. Em entrevista à imprensa no Senado, no entanto, Aziz declarou que se posicionará de forma favorável a tudo que Renan colocou até agora no documento.

O relatório deve listar uma série de crimes supostamente cometidos pelo presidente Bolsonaro na pandemia, como homicídio qualificado, infração de medida sanitária preventiva, charlatanismo, genocídio de indígenas e prevaricação. O relator resolveu classificar os crimes como dolosos, ou seja, assumindo os riscos conscientemente.

Há divergências entre integrantes do grupo majoritário sobre a acusação de "genocídio indígena" na pandemia, crime que pode levar o governo a ser julgado em tribunais internacionais, e de homicídio qualificado por parte de Bolsonaro.

Omar Aziz afirmou que o parecer será lido nesta semana e a comissão terá uma semana para avaliar. Os senadores poderão sugerir a inclusão de indiciados e acréscimos no relatório, mas, após o vazamento de informações, se recusam a pedir a exclusão de itens do parecer. "

O presidente da CPI reforçou que irá votar favoravelmente ao relatório de Renan Calheiros e que o compromisso da CPI em responsabilizar os culpados pelo descontrole da pandemia de covid-19 está mantido, apesar das divergências.

"Sabe qual é a minha preocupação? É você tipificar alguma coisa e essa tipificação cair no primeiro momento e aí colocar tudo a se perder. Esse é o meu medo, é quando você faz uma denúncia frágil que você está colocando ali sem embasamento técnico e cair", declarou o presidente da comissão.

Wall Street e o mundo

Lá fora, os investidores seguem acompanhando mais uma boa safra de resultados trimestrais corporativos das empresas. Nesta semana, algumas das gigantes de tecnologia, como Netflix e Intel, apresentam seus números.

 Porém, as preocupações com a perspectiva e endurecimento da política monetária para conter as pressões sobre os preços ainda deixa o mercado apreensivo. Apesar disso, os futuros operam em alta em Nova York.

Os investidores estão esperando para ver se as lideranças do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tentarão acalmar esse nervosismo decorrente da redução o apoio às políticas da era da pandemia.

A alta do petróleo foi interrompida com os preços em torno de máximas plurianuais. A escassez de gás natural está estimulando a demanda por produtos como óleo combustível e diesel para geração e energia.

O mercado está prestando muita atenção à temporada de balanços para identificar com os custos mais altos de energia e matérias-primas estão afetando as margens de lucro.

Do outro lado do mundo, as bolsas na Ásia fecharam em alta nesta terça-feira. O índice japonês Nikkei subiu 0,65% em Tóquio, aos 29.215,52 pontos, enquanto o Hang Seng avançou 1,49% em Hong Kong, aos 25.787,21 pontos.

O sul-coreano Kospi valorizou 0,74% em Seul, aos 3.029,04 pontos, e o Taiex registrou ganho de 1,17% em Taiwan, aos 16.900,67 pontos.

Na China continental, os mercados também ficaram no azul, impulsionados pelo setor agrícola e fabricantes de alimentos e bebidas. O Xangai Composto subiu 0,70%, aos 3.593,15 pontos, e o menos abrangente Shenzhen Composto mostrou avanço de 0,86%, aos 2.422,64 pontos.

Na Oceania, a bolsa australiana contrariou o tom positivo da Ásia, encerrando a sessão em baixa marginal. O S&P/ASX 200 caiu 0,08% em Sydney, aos 7.374,90 pontos. /com Júlia Zillig e Agência Estado

Sobre o autor
Tom Morooka
Tom MorookaColaborador do Portal Mais Retorno.