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Lojas Americanas (LAME4) se uniu à B2W (BETOW3), e vice-versa, para aumentar seus canais de venda e enfrentar a concorrência. Mas será que as escolhas e o acordo para o casamento foram adequados?

Para muitos analistas de mercado faltou transparência na divulgação do acordo de combinação de negócios entre as duas empresas. Especialmente pela nova e complexa composição societária da companhia que surge com a junção das operações, a americanas s.a., e sua listagem nos Estados Unidos.

A união das operações não foi exatamente uma surpresa, já que as empresas haviam anunciado em fevereiro a intenção de analisar as possibilidades de seguir por esse caminho. Diante da movimentação dos principais pares do varejo com compra, venda e fusões, era natural que Lojas Americanas saísse em busca de opções para diversificar e potencializar seus canais de venda.

Lojas Americanas vai aumentar seus canais de venda, com sinergias com a B2W - Foto: Divulgação

O que mais chamou atenção, no entanto, foi o fato de Lojas Americanas mesmo com a remodelação societária continuar tendo donos. A expectativa era que da união dos negócios surgisse um conglomerado de empresas, sem controle definido. Mas Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira continuarão com o controle de Lojas Americanas.

Na transação, B2W passa a ter o controle sobre Lojas Americanas, e a nova empresa será listada em uma das bolsas americanas, Nasdaq ou a NYSE (Bolsa de Nova York).

Todos ingredientes, alguns ainda com pouca clareza, para ser assimilados pelos investidores, e o resultado foi uma forte queda nos papeis de Lojas Americanas, que, na mínima do dia, registrou - 8,35%. No fechamento LAME4 apresentou queda de 5,17%, cotada por R$ 21,46.

Ao mesmo tempo, as ações de B2W transitaram por terreno positivo, durante todo o pregão, com altas expressivas, chegando a uma valorização de 8,01%. No encerramento das negociações BTOW3 ficou cotada a R$ 68,33, com elevação de 7,69%.

O movimento pode ter refletido a preferência dos investidores pela empresa que deterá os ativos diretamente, em vez da holding, afirmam os analistas do Banco Safra.

Assim como pode ter sido também, afirmam eles, um ajuste após incertezas sobre os termos do negócio menos favoráveis para a B2W. Pelas estimativas dos analistas, a relação de troca de 0,18% - cada acionista de Lojas Americanas receberá 0,18 ação ordinária da B2W (BTOW3) por ação preferencial ou ordinária da Lojas Americanas (LAME4) que possui - representa um pequeno prêmio para os acionistas da LAME3 e LAME4 e um pequeno desconto para os acionistas de BTOW3.

A alta das ações de uma (B2W) e a queda das ações de outra (Americanas) é consequência também da readequação das cotações de cada uma delas, explica Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos. O mercado está ajustando (precificando, no jargão de investidores) os preços dos papeis de cada uma delas à nova realidade, após o acordo de união, para reajustar o ‘valuation’ (valor de preço do mercado), segundo ele.

Os especialistas do Safra veem potencial para a criação de valor porque “a combinação pode gerar sinergias e eliminar ineficiências”. E também para uma reclassificação no múltiplo combinado se a empresa melhorar o perfil de sua base de acionistas com a atração de mais investidores de tecnologia.

Já o risco apontado por eles é a perda de visibilidade sobre o desempenho dos vários segmentos, do comércio eletrônico e varejo físico, destaca o relatório de análise do Safra.

O analista Bruno Komura, da Ouro Preto Investimentos, diz que a combinação de negócios vai aumentar a competitividade da B2W diante de outros players do mercado quanto à diversificação e sinergia de canais.
Uma empresa que tem só plataforma online de vendas pode passar por problemas com os clientes. “Ter lojas físicas permite ampliar essa possibilidade, por exemplo com entregas no mesmo dia ou duas horas depois. Elas acabam servindo como ponto de distribuição”, diz Komura.

A ideia é reforçada por Paloma Brum, analista da Toro Investimentos: “A multicanalidade tem sido um fator-chave para o crescimento das empresas de varejo, uma vez que isso implica melhorar a jornada de compra dos clientes e, por consequência, as tornará mais competitivas no mercado”.

Komura acredita que, com a fusão, a B2W poderá disputar mercado com varejistas que já estão um pouco mais à frente, como Magazine Luiza e Via (anteriormente, Via Varejo).

Para além dos ganhos operacionais, Paloma vê na união ainda um reforço na capacidade para empreender novas fusões e aquisições para acelerar o crescimento da nova companhia. A possível listagem na bolsa dos Estados Unidos, destaca, pode facilitar o acesso da nova companhia a novas fontes de financiamento, reduzir o custo de capital e proporcionar aumento de liquidez de suas ações.

A listagem das ações na bolsa americana, de todo modo, não foi bem recebida por todos os analistas. O motivo, segundo Gustavo Akamine, da Constância Investimentos, seria a inversão de controle.  A B2W é controlada atualmente pelas Lojas Americanas, que, após o acordo de combinação dos negócios, passará a ser controlada pela B2W.

Outra preocupação, entre os analistas, é com a possibilidade de que os recursos captados no Exterior não cheguem a operações por aqui.

A recomendação de analistas do Safra é que, por enquanto, os investidores fiquem com LAME3 (se a liquidez não for problema) e LAME4 (para quem precisa de posições mais líquidas).  Com ampla presença no varejo físico, ações das Lojas Americanas (LAME4) tem recomendação de compra, com preço alvo de R$ 34.

E um dos questionamentos de mercado é se Lojas Americanas, depois da junção com B2W, terá fôlego para fazer frente a Magazine Luiza, tido como muito à frente na estruturação de seu e-commerce, ou ao Mercado Livre, outro forte concorrente.

O estrategista da RB Investimentos, Gustavo Cruz, pondera que, mesmo que haja muito espaço para empresas crescerem no comércio eletrônico por aqui, as apostas precisam ser certeiras a essa altura do campeonato. Ele tem dúvidas se a B2W teria sido a escolha mais adequada: "Para mim faria mais sentido a empresa ir atrás de uma Infracommer, por exemplo, que está abrindo capital, para dar mais agilidade ao seu e-commerce".

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