Mercado Financeiro

O mercado financeiro inicia a semana atento à pauta de trabalhos do Congresso - tanto do Senado quanto da Câmara - de olho nas possíveis novidades em relação à retomada de debates e votação das propostas de mudança do Imposto de Renda e da reforma administrativa. E também ao avanço de trabalhos para a definição de regras para quitação dos precatórios e do valor do Auxílio Brasil, criado em substituição ao Bolsa Família.

No âmbito internacional, o mercado observa que o risco de uma recuperação mais lenta, causada pela variante delta, parece estar cada dia mais reduzido, o que tem trazido um tom mais otimista para os negócios. Os investidores seguem avaliando as pressões de preços, por conta da inflação, e seu impacto no provável cronograma para uma redução no estímulo do Fed (Federal Reserve, o banco central americano).

Debates podem destravar pautas como o pagamento dos precatórios - Foto: Arquivo

No cenário local, a mudança do IR, os precatórios e o Auxílio Brasil são matérias que permanecem travadas no Congresso como consequência do acirramento da crise política, cristalizada no conflito entre Poderes e aliviada pelo recuo do presidente Bolsonaro com a divulgação, na quinta-feira, 9, de uma declaração à nação.

Nela, o presidente afirma que ameaças e insultos feitos aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), nos atos de 7 de setembro, não tiveram a intenção de agredir quaisquer Poderes.

O tom conciliador da nota aliviou a tensão política e o mal estar, mas não baixou a guarda do mercado financeiro. Investidores e gestores de mercado começam a semana ainda cautelosos, após uma reação momentânea positiva à divulgação da carta. O sentimento, segundo especialistas, é que a temperatura baixou, mas a crise continua.

Nesse ambiente ainda de certa tensão, o mercado quer saber dos efeitos práticos da distensão política, patrocinada pelo gesto do presidente Bolsonaro, no ambiente legislativo, se ela destravará e abrirá caminho para o andamento da agenda econômica do governo no Congresso.

Uma agenda cujo desfecho terá desdobramentos, para o bem ou para o mal, nas expectativas do mercado financeiro, principalmente em relação à gestão das contas públicas sem o risco de atropelamento das regras do teto de gastos.

Mudanças no imposto de renda, regras para a quitação dos precatórios, novo valor do Auxílio Brasil, reforma administrativa são todos temas pendentes de definição no Congresso que afetam diretamente as contas do governo e o equacionamento do ajuste fiscal.

Risco fiscal ainda é preocupação do mercado

O Projeto de Emenda Constitucional (PEC) dos precatórios prevê o parcelamento para a quitação de dívidas com valores mais elevados e mudança no índice de correção do débito.

Já a proposta de ampliação do novo programa social do governo, o Auxílio Brasil, elevaria o valor médio do benefício de R$ 190 para R$ 300 e o número de famílias contempladas de cerca de 14 milhões para aproximadamente 17 milhões.

O risco fiscal, de acordo com especialistas, é uma das principais preocupações do mercado financeiro. É um dos temores que têm deprimido a Bolsa de Valores e pressionado o dólar, em um ambiente de sentimento negativo dos investidores potencializado pelo cenário de baixo crescimento econômico, inflação e juros altos, e crise hídrica.

A agenda semanal fora do Congresso prevê a divulgação, a partir desta terça-feira, 14, de dados de crescimento do setor de serviços e de confiança do consumidor, uma combinação de dados que poderá dar uma ideia do ritmo de retomada de atividade econômica no País.

Jair Bolsonaro

Além da reabertura dos trabalhos no Congresso, os investidores continuam acompanhando a movimentação do presidente Jair Bolsonaro após a divulgação da carta à nação na qual ele recua dos ataques que ele fez aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) durante as manifestações do feriado de 7 de setembro.

Alvo das críticas de apoiadores por divulgar essa carta, o presidente e seus aliados se mobilizaram para conter o desgaste em sua base.

O chefe do Executivo e alguns de seus apoiadores mais próximos passaram este final de semana usando as redes sociais e dando declarações negando que tenha havido algum recuo político após os protestos.

A narrativa difundida por canais e influenciadores bolsonaristas é a de que o presidente apenas adotou o que seria uma "estratégia de estadista", moderando suas falas para não prejudicar a economia, mas que isso lhe garantiria, segundo esta versão, supostas vantagens na pressão contra o Supremo.

A tática foi definida ainda na última quinta-feira, 9, em meio ao impacto político provocado pela divulgação da nota, quando seguidores do presidente o acusaram de traição. Na última sexta-feira, 10, o próprio Bolsonaro tentou amenizar as queixas afirmando que não tinha recuado.

"Alguns querem que vá lá e degole todo mundo", declarou o presidente em conversa com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada. "O que acontece? Cada um fala o que quiser. O cara não lê a nota e reclama. Leia a nota, duas, três vezes. É bem curtinha, são dez pequenos itens. Entende. Se o dólar dispara, influencia o combustível", disse ele.

Bolsonaro também justificou a preocupação com a economia para explicar por que pediu para que caminhoneiros desobstruíssem as estradas. "Você quando quer matar um verme, às vezes mata a vaca. Até domingo, se ficar parado, a gente vai sentir, mas se passar disso, complica a economia do Brasil. Ninguém está recuando. Não pode ir para o tudo ou nada."

A ala militar do governo também foi acionada para acalmar a base. Os ministros Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria-Geral da Presidência, e Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, ambos generais, usaram as redes sociais para divulgar a versão de que não houve recuo e pedir "paciência".

Levantamentos feitos nas redes sociais mostram que a "operação abafa" montada pelo governo começou a dar resultado.

Segundo monitoramento da ModalMais & AP Exata, as menções positivas a Bolsonaro "recuperaram 2 pontos porcentuais devido à narrativa bem-sucedida sobre recuo estratégico de Bolsonaro". "A confiança também acompanhou o crescimento", destacou.

De acordo com análise da Bites Consultoria, "o grupo mais organizado se reestruturou e criou uma estratégia de contenção do problema que coloca Bolsonaro no papel de pacificador, não para a opinião pública, e sim para os seus seguidores".

Diferentemente do que ocorreu após a saída de Sérgio Moro do governo, quando Bolsonaro perdeu cerca de 55 mil seguidores - desta vez ele ganhou 4,2 mil nos últimos dois dias.

Protestos

Na véspera, manifestantes foram às ruas, em 15 capitais, pedir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Mas a divisão da oposição acabou esvaziando os atos organizados pelo Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua e Livres.

O número de pessoas que aderiu aos protestos foi bem menor do que o contabilizado nas manifestações de 7 de setembro, quando o presidente ameaçou o STF e pregou desobediência a decisões judiciais.

O maior ato foi o da Avenida Paulista, em São Paulo (SP). De acordo com estimativa da Secretaria de Segurança Pública, cerca de 6 mil pessoas compareceram à manifestação, ante 125 mil estimada pela Polícia Militar no feriado.

Foi o primeiro protesto pelo impeachment de Bolsonaro encabeçado por esses movimentos, que ganharam projeção durante a campanha pelo impedimento de Dilma Rousseff em 2016.

A adesão foi além da direita, alcançou presidenciáveis do centro democrático de São Paulo, o PDT e centrais sindicais ligadas à esquerda. Principal partido de oposição, o PT ficou de fora inspirado pelo mote original do protesto: “nem Lula, nem Bolsonaro”.

Urnas eletrônicas

Durante o fim de semana, o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, se negou a comentar os recorrentes ataques feitos a ele e ao uso das urnas eletrônicas nas eleições pelo presidente da República, Jair Bolsonaro.

"Só respondo questões institucionais. As pessoais trato com a indiferença que merece. O resto é política e não me interessa", disse Barroso, em coletiva de imprensa, após a realização de testes de integridade das eleições suplementares dos municípios fluminenses de Silva Jardim e Santa Maria Madalena.

Pela primeira vez, no Estado do Rio, o teste é divulgado em tempo real, pela página do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) no YouTube. Há um esforço maior, dessa vez, por parte do TSE em demonstrar a idoneidade do processo eleitoral eletrônico, em razão das acusações de Bolsonaro de que o sistema abre brechas a fraudes.

Além disso, Barroso garantiu que o sistema eletrônico eleitoral é "absolutamente seguro". "O sistema está em aplicação desde 1996 e jamais documentou qualquer tipo de fraude", afirmou, em entrevista coletiva de imprensa, após acompanhar testes de integridade feitos em eleições fora de época para escolher os prefeitos de duas cidades no interior do Rio.

NY: futuros operam no positivo

No cenário externo, os contratos futuros negociados nas bolsas americanas operam em alta, à medida que o risco de uma recuperação mais lenta causada pela variante delta parece cada dia mais reduzido.

Os rendimentos do Tesouro americano reduziram o avanço à medida que os investidores seguem avaliando as pressões de preços e seu impacto no provável cronograma para uma redução no estímulo do Fed (Federal Reserve, o banco central americano).

De acordo com Filipe Teixeira, sócio da Wisir Research, a divulgação dos preços ao consumidor nos Estados Unidos esta semana deve reacender a discussão em torno do risco inflacionário e de sua duração.

A marcha contínua da covid-19, mesmo com a aceleração do lançamento de vacinas, está minando a confiança na recuperação econômica e contribuindo para os problemas de abastecimento que estão alimentando esta inflação, segundo Teixeira.

Os principais bancos centrais também estão se aproximando da redução dos estímulos concedidos ao longo de toda a pandemia, o que ainda representa riscos para os mercados.

Entre os dirigentes do Fed, a presidente da distrital de Cleveland do Fed, Loretta Mester, afirmou que é possível que o mercado de trabalho americano não atinja o nível anterior à pandemia este ano.

Mesmo assim, ela destacou a "notável melhora" recente e alertou para riscos de que a inflação nos EUA suba ainda mais. Já o dirigente do Fed de Richmond, Tom Barkin, alertou sobre uma possível pressão nos salários, uma vez que há dificuldades de empresas para reter pessoal, sobretudo em cargos com rendimentos mais baixos.

Enquanto isso, o plano de impostos e despesas de US$ 3,5 trilhões do presidente Joe Biden enfrenta desafios. O senador democrata Joe Manchin lançou dúvidas sobre o cronograma para levar a agenda econômica de Biden ao Congresso, e as alíquotas de impostos propostas podem ser atenuadas para aumentar as chances de o pacote ser aprovado.

Bolsas asiáticas fecham mistas

As bolsas asiáticas fecharam sem direção única nesta segunda-feira. Preocupações com o aperto regulatório na China, que tem focado empresas de tecnologia, voltaram a derrubar ações do setor em Hong Kong.

A ação do Alibaba despencou 4,23% em Hong Kong após relatos de que órgãos reguladores chineses planejam exigir a cisão do Alipay, popular aplicativo de pagamentos do Ant Group, empresa afiliada do gigante de comércio eletrônico. Outras "big techs" sofreram tombos no mesmo mercado, caso da Tencent (-2,45%) e da Meituan (-4,47%).

O índice Hang Seng, da Bolsa de Hong Kong, terminou o pregão em baixa de 1,50%, aos 25.813,81 pontos.

Já em Tóquio, o índice acionário japonês Nikkei subiu 0,22%, aos 30.447,37 pontos, impulsionado por papéis de bancos e do segmento de eletrônicos.

Enquanto em Seul, o sul-coreano Kospi teve ganho apenas marginal de 0,07%, aos 3.127,86 pontos, ajudado por ações financeiras e de siderúrgicas.

Na China continental, o Xangai Composto valorizou 0,33%, aos 3.715,37 pontos, mas o menos abrangente Shenzhen Composto recuou 0,05%, a 2.500,83 pontos.

Mineradoras e petrolíferas foram destaque positivo, mas as montadoras caíram após um regulador em Pequim defender a consolidação da indústria de carros elétricos. Em Taiwan, o Taiex apresentou modesta baixa de 0,16%, aos 17.446,31 pontos.

O desempenho misto na Ásia veio também após as bolsas de Nova York encerrarem a última semana no vermelho, com os índices Dow Jones e o S&P 500 acumulando perdas por cinco sessões consecutivas.

Na Oceania, a bolsa australiana teve alta modesta nesta segunda-feira, sustentada pelos setores minerador e petrolífero. O S&P/ASX 200 avançou 0,25% em Sydney, aos 7.425,20 pontos. / com Júlia Zillig e Agência Estado

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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