Economia

Desde o registro dos primeiros casos de covid-19 na China, no final de 2019, o mercado passou a lidar com uma série de dificuldades na cadeia logística pelo mundo. Entre elas, a alta demanda por uma série de produtos, somada ao fechamento de portos em decorrência das medidas restritivas sanitárias, levou a uma disparada no preço do frete marítimo, principal forma de transporte internacional.

A escalada de preços neste importante ponto logístico, que é o transporte marítimo, traz consequências, também, para dentro do Brasil: da alta na inflação ao desabastecimento de matérias-primas. Em entrevista ao portal Mais Retorno, Miriam Vale, professora de negócios internacionais e gestão contextualizada do Ibmec São Paulo, explica os impactos deste fenômeno para o País.

frete marítimo
Atracação de navios no Caís do Porto do Rio de Janeiro.

Como começou a escalada no preço do frete marítimo?

Em meados de 2019, antes da chegada da pandemia, o custo de envio de um contêiner por meio de navios girava em torno de US$ 1.500, explica Miriam. Este valor agora pode ser cerca de 10 vezes maior e a tendência é que continue aumentando até que os problemas na cadeia produtiva se normalizem.

De acordo com a professora, a escalada começou logo nos primeiros indícios de que haveria uma explosão de casos relacionados ao coronavírus, quando o mundo todo passou a ter uma alta demanda por diversos produtos, principalmente os produtos médicos. Para levar esses materiais de um país para o outro, a forma mais acessível e conhecida é por meio dos contêineres em navios.

Para Miriam, a melhor relação para entender o estopim da pressão nos preços do frete é "como comprar coisas numa feira. Se você quer uma fruta que está fora de época, você vai pagar mais caro." É a lei de oferta e demanda: com uma necessidade cada vez maior do transporte marítimo, sem um aumento no mesmo nível da oferta de navios e espaço, o valor do produto, que se torna mais disputado, aumenta.

Além da quantidade muito acima do normal de pedidos de exportação e importação, a pandemia exigiu que os países ao redor do globo adotassem medidas sanitárias para o controle do número de casos. Entre as principais providências, o fechamento das fronteiras e, inclusive, dos portos.

"Não tem outra palavra para definir aquele momento que não caos. É como uma fileira de dominós que, com um impulso, vai caindo um por um", afirma a especialista.

A diminuição de casos, associada ao avanço da vacinação, no entanto, não melhorou as perspectivas para o segmento. Se por um lado no começo da pandemia a demanda por produtos médicos teve um crescimento acentuado, por outro o afrouxamento das medidas restritivas de circulação e a retomada econômica aumentam o consumo por outros materiais, principalmente commodities, produtos mais facilmente transportados pelo mar.

A professora do Ibmec explica que, atualmente, os EUA estão demandando bastante da região da Ásia Oriental, o que tem ocupado grande parte dos transportes disponíveis em todo o mundo. Uma das maiores e mais movimentadas rotas marítimas da atualidade é entre a costa oeste dos EUA (onde está localizada a Califórnia, estado mais populoso do país) e o leste asiático (onde estão a China e o Japão, entre outros países com grande força produtiva).

Concentração do mercado

Até que a situação de alta na demanda dos países por conta da retomada econômica se normalize, uma das alternativas para contornar uma oferta de transporte marítimo que não consegue atender a toda a procura é o investimento, por parte das empresas que oferecem esse serviço, para expansão dos espaços disponíveis e aumento no número de navios.

Entretanto, conforme explica Miriam Vale, este é um mercado altamente concentrado. Entre os armadores, há cinco principais - Maersk, MSC, CMA CGM, Cosco Shipping e Hapag-Lloyd - que, juntos, detêm mais do que dois terços do market share.

Dessa forma, a atual situação para esses players é "muito confortável", diz a professora. "Eles estão com alta demanda, os preços disparam pela oferta menor e, consequentemente, o lucro deles também. Então, não há uma grande movimentação para investir em ampliação dos espaços."

Com essas perspectivas no radar, a especialista considera que, numa visão mais pessimista, o preço do frete marítimo só deve começar a cair em 2023, mesmo que permaneça longe dos patamares de 2019 por algum tempo ainda. Contudo, Miriam ressalta que a situação depende, também, dos desdobramentos da pandemia, que pode levar a um novo fechamento generalizado nos portos, alimentando o caos logístico e encarecendo ainda mais o preço do frete.

Como o preço do frete marítimo influencia o Brasil?

O impacto da inflação no frete marítimo pelo mundo é sentido de diferentes formas em território nacional. A primeira delas é com a dificuldade de exportação de produtos das empresas de pequeno e médio porte.

"Tem alguns contratos nesse negócio de locação de contêiner que são prioritários. Então, nesse momento de falta de espaço, os empresários pequenos, que não têm uma assiduidade nos contratos de locação, ficam literalmente a ver navios", afirma Miriam. Ela explica que, se antes esses empresários precisavam se programar com uma semana de antecedência para exportar seus produtos, esse tempo agora pode variar de um até três meses.

Partindo da ideia de que a exportação é uma importante fonte de receita para essas companhias, a retomada econômica mais acentuada, bem como a movimentação dos fluxos financeiros acabam sendo prejudicados.

Simultaneamente, as empresas maiores, com produtores de grande porte, ao perceber que a demanda internacional pelos produtos brasileiros (principalmente commodities) está aumentando cada vez mais, preferem exportar seus produtos para ganhar em dólares do que trabalhar com eles internamente.

Com os produtores nacionais e internacionais priorizando os países que mais consomem (e mais pagam pelos produtos), como é o caso dos EUA, o Brasil passou a enfrentar também um problema de falta de fornecimento de matérias-primas, destaca a especialista.

Para contornar esse desabastecimento, as empresas brasileiras tiveram de passar a buscar outros fornecedores no cenário interno. "No entanto, esse processo é demorado", ressalta Miriam, explicando que essa situação diminui a oferta de diversos produtos internamente, num momento em que a demanda voltou a crescer.

Assim, os materiais que vem de fora chegam mais caros tanto por uma procura maior a nível global, quanto pelo encarecimento do processo logístico com o frete marítimo. Enquanto isso, os produtos das próprias indústrias brasileiras também sobem, justamente por essa alta no valor que o processo de produção sofre, o que influencia, por fim, no aumento da inflação no País. "São as peças de dominó caindo e derrubando uma a outra", diz a professora.

Cenário brasileiro

"Soma-se a isso tudo o caos de logística que a gente tem aqui no Brasil. Fazer negócio no Brasil e distribuir os produtos pelo país não é nada fácil", afirma a especialista. Para ela, há questões importantes a serem resolvidas dentro do País.

Historicamente, o Brasil optou por uma predominância do modal rodoviário para o transporte, opção mais cara e menos segura. De acordo com Miriam, o investimento em ferrovias, "que ainda é muito tímido", deveria ser pauta prioritária para o governo de forma a proporcionar um escoamento mais eficiente da produção nacional pelo País e pela América do Sul. "Não dá para ser um país competitivo sem esse tipo de investimento em infraestrutura."

Tal qual o esforço pela implementação de melhores formas de transportar os produtos brasileiros, a professora ressalta que falta ao Brasil uma "maior complexidade econômica".

Por ser um grande produtor de commodities, os maiores produtores brasileiros não conseguem atribuir preço aos seus produtos porque as commodities são precificadas pelas bolsas de valores mundo a fora.

"Usando o exemplo do café, o exportador brasileiro dá o preço para sua saca de acordo com o mercado. Chegando na Alemanha ou na Suíça, por exemplo, eles trabalham com o café, transformando em capsulas para máquinas e agregando valor a commodity. Quem vai precificar esse produto, neste caso, não é nenhuma bolsa, mas sim a empresa", finaliza Miriam, afirmando que essas são pautas que devem estar no radar em 2022, ano eleitoral.

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Repórter na Mais Retorno

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