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Economia

Economias em guerra: como funcionam na prática?

Com a invasão terrestre na Faixa de Gaza no último final de semana, deu-se início à segunda etapa de uma guerra que pode ser longa. 

Data de publicação:31/10/2023 às 21:02 -
Atualizado 4 meses atrás
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Com a invasão terrestre na Faixa de Gaza no último final de semana, deu-se início à segunda etapa de uma guerra que pode ser longa.  

Destruir a infraestrutura do Hamas, composta por um labirinto de túneis subterrâneos, e remover o grupo do poder não é uma estratégia sem riscos, considerando se tratar de uma área urbana densamente povoada além da questão dos reféns, o que reforçaria as pressões por um cessar-fogo humanitário, tal como ocorreu na mais recente Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).  

Entre ataques e períodos de trégua, até que se resolva o vácuo de liderança e se estabeleça um plano de saída, o foco é na mobilização para a guerra, impondo custos econômicos significativos.  

Economia de guerra

Uma característica de economias em guerra é o direcionamento da produção para fins bélicos, ainda que esse processo não seja automático.  

O caos se instala no começo, conforme os agentes econômicos digerem a queda no PIB que está por vir, decorrente daqueles que decidem por sair, são chamados para lutar ou até mesmo ficam para cuidar dos feridos.

Não por outro motivo, o primeiro golpe é sentido na própria moeda do país. 

Indústrias de bens de consumo são então reorganizadas, com as atividades coordenadas pelos militares.  

Os negócios funcionam com a “inteligência de guerra” que adquirem, fazendo uso dos poucos recursos disponíveis (energia, água, combustível e telecomunicações são os alvos normalmente atacados pelo inimigo).

Até mesmo nas regiões menos afetadas, filas longas e prateleiras vazias.  Afinal, as tropas precisam ser alimentadas e transportadas.  

No esforço de guerra, até mesmo as exportações são sacrificadas.

A economia de Israel

Em 2021, Tel Aviv ocupou o primeiro lugar na relação de cidades mais caras do mundo, desbancando inclusive Paris. 

A posição no ranking se deu por conta da valorização da moeda israelense, uma consequência da rápida volta à normalidade depois da pandemia, além do peso significativo de seu ecossistema de empresas de tecnologia.

Dois anos depois e com a iminência da guerra, o shekel já caiu para patamares não vistos em pelo menos dez anos, o que fez com que o banco central de Israel vendesse US$ 30 bilhões de suas reservas. 

Nesse ínterim, fazer seguro contra um calote do governo israelense tornou-se proibitivo.

Mais gastos

Isso se deve à expectativa de aumento dos gastos públicos, em um cenário onde não há consumidores para estimular a economia e muito menos turistas para trazer divisas.

Nesse sentido, é de se esperar o retorno de algumas medidas implementadas durante a pandemia, como programas de apoio a empresas, o diferimento de impostos, além do auxílio para os que foram deslocados para outras regiões.

Apesar de uma saudável relação dívida/PIB de apenas 60%, a conta vai chegar pois toda guerra tem uma data para começar, mas nenhuma para terminar. 

Menos crescimento

Convocar mais de 360 mil reservistas, ou algo em torno de 8% da força de trabalho, significa também mobilizar pessoas altamente produtivas.    Desde o início do mês, 70% das empresas mais inovadoras do país encontram dificuldades para funcionar, o que quer dizer menos oportunidades quando o conflito acabar.

No final das contas, nenhum setor escapa.  Até mesmo para as funções com pouca qualificação, a atividade econômica é prejudicada conforme a insegurança impede que palestinos, principalmente da Cisjordânia, entrem em Israel para trabalhar.  

Esse tem sido o padrão das “intifadas” (revoltas) anteriores.  Se antes havia uma previsão de crescimento de 3% do PIB, hoje já se fala em um número quase 25% menor.

A guerra econômica

Em 1994, a ONU coordenou um acordo onde Israel, Faixa de Gaza e Cisjordânia compartilhariam de um esboço de um mercado comum.  Palestinos teriam permissão para trabalhar em Israel ou nos assentamentos israelenses, o que movimentaria suas respectivas economias.

Porém, executar o plano de integração foi mais difícil, principalmente por conta das disparidades.  Atualmente, algo em torno de 25% dos palestinos da Cisjordânia conseguem emprego “do outro lado”, sendo o número infinitamente menor no caso de Gaza, que percebeu o encolhimento de sua economia. 

Ali, a guerra econômica já acontece há bastante tempo.

Entre 2007, quando o Hamas tomou o poder, e 2022, sua população empobreceu 2,5% a cada ano.  As guerras travadas nesse período (2008, 2014 e 2021) levaram embora, individualmente, o equivalente a um PIB anual.  

A economia do auxílio

Altamente dependente de algum tipo de auxílio, mais da metade da população adulta da Faixa de Gaza já vivia abaixo da linha da pobreza há dois anos atrás, de acordo com estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O dinheiro que circula na sua economia vem de outros lugares.  Além da Autoridade Palestina e de alguns países do Golfo Pérsico, escolas e hospitais são mantidos pela ONU e por outros órgãos internacionais.

A energia consumida por Gaza, fornecida por Israel, é paga pela Autoridade Palestina a partir da dedução que Israel faz de parte dos impostos sobre importações que recolhe a seu favor na Cisjordânia, onde a Autoridade Palestina possui autonomia administrativa.

O Hamas, por sua vez, mantém a sua estrutura de governo arrecadando tributos sobre tudo o que importa do Egito e da Cisjordânia, além de taxar a renda.

A única atividade econômica viável em Gaza é o setor de construção, por motivos óbvios.  

Conclusão

Com o término da Guerra Fria e a queda da União Soviética no início da década de 90, o mundo foi beneficiado com o chamado “dividendo da paz”.  

Recursos deixaram de ser gastos no front militar para alimentar as engrenagens do crescimento econômico: infraestrutura e serviços públicos.  Além disso, a possibilidade de reduzir o endividamento público ou conceder incentivos fiscais.

Três décadas depois, a corrida armamentista voltou, inflacionando os preços de armamentos e inchando os orçamentos de defesa, que agora disputam o espaço com a agenda das metas climáticas e os custos das aposentadorias de uma população global envelhecida.   

No ano passado, quando houve a invasão da Ucrânia, o país emitiu títulos (“war bonds”) para levantar dinheiro para o esforço de guerra.  Com os juros muito mais altos hoje e duas guerras acontecendo simultaneamente, quem se arriscará a compra-los? 

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.
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