Economia

Em um cenário de inflação mais acelerada, que resultou em elevação de 0,75 ponto porcentual da Selic na última reunião do Comitê de Política Monetária, o mercado financeiro trabalha com a hipótese de ajustes mais acentuados dos juros pelo Banco Central. Possibilidade já aberta e expressa em comunicado do Copom diante da perspectiva de nova e prolongada alta de preços.

Analistas da XP Investimentos consideram até que o Banco Central (BC) terá de se acostumar com a ideia de um IPCA mais alto do que a meta de 3,5% para 2022. Isso porque para 2021 não há mais o que fazer, o mercado dá como favas contadas uma inflação não apenas acima da meta, mas também do teto.

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Sede do Banco Central em Brasília - Foto: Agência Brasil/Marcello Casal Jr.

Em um relatório com projeções para a economia brasileira nos próximos trimestres, a XP espera que o IPCA de 2021 fique em 6,2%, bem acima do teto da meta para o ano, de 5,25%. Já para 2022, a projeção é de uma inflação de 3,8%, o que supera o centro da meta de 3,5%, mas que ainda se situa em nível mais acomodado e abaixo do teto, de 5%.

Por conta dessa inflação mais vigorosa, a expectativa é de que o Banco Central puxe a Selic ao nível de 6,5% até o final de 2021, e mantenha esse mesmo nível no próximo ano como estratégia para reduzir as pressões sobre os preços. Segundo os analistas, a arrancada da inflação vem sendo provocada e poderá ser alimentada pela reabertura da economia, com os reajustes represados pela pandemia sendo repassados ao consumidor final.

Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital Markets, considera que a inflação de 2021 "já está praticamente dada em torno dos 6%". Por isso, as decisões do Copom em suas próximas reuniões têm como objetivo controlar a escalada dos preços para o próximo ano. Ela explica que uma medida adotada pelo BC vai impactar a economia brasileira em intervalo de 6 a 9 meses depois.

A equipe econômica da CM projeta uma inflação de 4% para 2022, justificada pela retomada do setor de serviços no próximo semestre, com a vacinação e um arrefecimento nas medidas de restrição. "Os preços desse setor estão praticamente reprimidos desde o começo da pandemia, podem passar por reajustes, contribuindo para a inflação mais elevada para 2022", explica Carla.

Com essas mesmas perspectivas trabalha a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack. Além de projetar um IPCA próximo dos 6% para 2021 e de 4% para 2022, ela concorda com a previsão da XP de elevação da taxa Selic a 6,5% ao ano. Segundo Camila, o BC deve chegar nesse patamar de juros até dezembro para mantê-lo no próximo ano.

De acordo com especialistas, o que tem contribuído em boa dose com a elevação dos preços é a valorização das commodities no mercado internacional em conjunto com o início de retomada da economia.

A economista da Veedha explica que, durante a primeira onda da pandemia, os preços estavam mais controlados pela baixa demanda. "Já com a economia mais aquecida, assim que houve uma janela para o repasse de preços, ele veio de uma vez", afirma.

Simultaneamente, o que segurou a inflação nos últimos meses para os analistas da XP, foi a valorização do real frente ao dólar. Preços de insumos e produtos importados exerceram menos pressão sobre o IPCA.

Cenário de incertezas

A XP ressalta que o atual cenário macroeconômico brasileiro é de incertezas. Os riscos fiscais estruturais, como um orçamento engessado, dívida elevada, juros altos e, até mesmo, o cenário eleitoral do próximo ano, também podem influenciar de forma negativa a dívida pública, a inflação, a taxa de juros e os investimentos estrangeiros no Brasil.

Camila concorda e acredita que o cenário interno seja o maior risco para a economia brasileira. Quando menciona a taxa de câmbio, a economista não consegue projetar o dólar cotado em menos de R$ 5 para o médio e longo prazo. Isso ocorre justamente pela indefinição dos cenários político e econômico. Os especialistas da XP esperam que a moeda americana esteja no patamar de R$ 5,10 até o fim de 2022.

Carla Argenta considera ainda que as políticas monetárias nos Estados Unidos poderão influenciar o mercado brasileiro. O futuro dos juros no país é incerto e, segundo ela, o Fed pode adiantar o aumento das taxas para antes do previsto em 2023. Se isso acontecer, o Banco Central teria de elevar a Selic para equilibrar o mercado e não perder o investimento estrangeiro nos títulos públicos brasileiros.

Recuperação econômica

Os últimos números do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro surpreenderam o mercado positivamente. "O setor agropecuário tem uma relevância importante na composição do PIB, mas o seu crescimento já era previsível. O que realmente surpreendeu foi ver que a economia não foi tão abalada e que o setor de serviços (que compõem pouco mais de 60% do PIB) não sofreu tanto quanto na primeira onda de covid-19", afirma Camila.

No relatório da XP, as projeções são de 5,2% de crescimento do PIB para 2021 e 2,0% para 2022.

No entanto, Carla Argenta e a equipe econômica da CM Capital se mostram um pouco mais conservadores com esses dados. Suas estimativas são de um crescimento de 4,0% para a economia brasileira em 2021, enquanto o próximo ano teria um aumento de 2,5%.

A economista considera que um maior crescimento no PIB ocorrerá "de forma mais espalhada entre os anos". Ou seja, diferente do que projetam os especialistas da XP, Carla acredita que a recuperação econômica no Brasil será um pouco mais lenta no segundo semestre de 2021, ganhando força em 2022.

Carla finaliza explicando que, muitas vezes, a retomada em crises econômicas acontece de forma errática. Enquanto o PIB apresentou alta de 1,2% no primeiro trimestre em relação ao quarto trimestre de 2020, o consumo das famílias recuou 1,7% comparado ao mesmo período. Dessa forma, pode ser que o desempenho dos indicadores econômicos nos próximos trimestres não seja tão positivo, sem conseguir atingir as expectativas do mercado.

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Repórter na Mais Retorno

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