Economia

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), sem nenhuma surpresa, definiu a Selic em 4,25% ao ano, um ajuste exatamente dentro do calibre de 0,75 ponto porcentual, que já havia sido sinalizado pelas autoridades monetárias desde a última reunião no início de maio. Esse é o nível em que a taxa básica de juros permanecerá até dia 4 de agosto, quando haverá a próxima reunião do Comitê para definição de nova Selic.

Também em comunicado, emitido logo após o término da reunião, o Comitê se mostrou conservador, indicando uma política gradualista de aumento dos juros, com novo ajuste de 0,75 ponto porcentual para agosto, o que vai elevar o juro básico da economia para 5%.

No entanto, a retirada do termo "ajuste parcial" em relação aos comunicados anteriores abre espaço para aumentos mais acentuados para a Selic nos próximos meses, de no mínimo, 0,75 ponto porcentual.

Presidente do Banco Central do Brasil (BC), Roberto Campos Neto. - Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Os diretores do Banco Central entenderam que o nível de atividade mostrou dinamismo com redução de riscos para a recuperação econômica, o que permitiu uma alta de 0,75 ponto porcentual.

Ao mesmo tempo, a inflação revela-se com mais vigor do que o esperado e, mais do que isso, com perspectivas de novas pressões com reajustes pesados na tarifa de energia elétrica, em meio às incertezas com a severa crise hídrica, de recuperação da economia, com repasse de preços industriais ao consumidor final.

Além de acompanhar esses prováveis choques inflacionários pela frente, as autoridades monetárias se dizem atentas aos efeitos da vacinação sobre os preços dos serviços. Tudo isso para dizer que o Banco Central não considera mais a alta da inflação como pontual e transitória, mas como um processo que deve se arrastar pelos próximos meses.

Assim, as medidas têm como objetivo, e principalmente, impedir que a inflação escape da meta de 3,50%, definida monetárias para 2022. Só que pelas atuais projeções de mercado, a inflação deverá ficar em 3,78%. Por unanimidade, o Comitê decidiu pelo aumento de 0,75 ponto porcentual na Selic.

Em relação ao cenário externo, os diretores ressaltaram que os estímulos fiscais e monetários em grandes economias contribuem com uma recuperação robusta da atividade econômica. Embora considerem que as medidas nesse sentido deverão continuar ainda por longo período, reconhecem que há muitas incertezas em relação dos riscos inflacionários que poderão resultar em alta dos juros, notadamente nos EUA.

Juros seguram a inflação

A Selic é a ferramenta usada pelo BC para equilibrar a inflação no País, e a gestão sobre os preços é o principal mandato da instituição.

O juro básico da economia, agora de 4,25% ao ano, é considerado baixo para impedir que os preços reduzam o ritmo de alta ou parem de subir, porque as projeções de inflação para este ano correm bem acima disso, em 5,82%. Eles precisam ficar em nível suficiente para estimular o consumidor a poupar em vez de gastar e também inibir o consumo pelo aumento do custo do crédito.

Edifício do Banco Central do Brasil em Brasília - Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

Os juros baixos estimulam a economia, mas ao mesmo tempo podem favorecer e alimentar uma alta da inflação. O principal desafio é, portanto, dosar a taxa de modo a não travar a retomada das atividades e ao mesmo tempo tornar o crédito mais caro de modo a segurar o consumo e, portanto, a alta dos preços.

A última alta da Selic ante do atual ciclo, iniciado em março deste ano , tinha acontecido em 29 de julho de 2015, quando passou de 13,75% para 14,25% ao ano. Naquela época, a situação econômica do país era de recessão e com inflação em alta. A taxa permaneceu nesse nível por mais de um ano e só começou a cair, depois que a inflação passou a perder gás.

Nesse período todo o BC imprimiu uma política monetária que permitiu o juro básico chegar à mínima histórica de 2% ao ano.

Desde março, os juros entraram em ciclo de alta, que deve continuar nos próximos meses, justamente para acompanhar mais de perto a inflação.

Leia a íntegra do comunicado do Comitê de Política Monetária:

"Em sua 239ª reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 4,25% a.a.

A atualização do cenário básico do Copom pode ser descrita com as seguintes observações:

No cenário externo, estímulos fiscais e monetários em alguns países desenvolvidos promovem uma recuperação robusta da atividade econômica. Devido à presença de ociosidade, a comunicação dos principais bancos centrais sugere que os estímulos monetários terão longa duração. Contudo, a incerteza segue elevada e uma nova rodada de questionamentos dos mercados a respeito dos riscos inflacionários nessas economias pode tornar o ambiente desafiador para países emergentes;
Em relação à atividade econômica brasileira, apesar da intensidade da segunda onda da pandemia, os indicadores recentes continuam mostrando evolução mais positiva do que o esperado, implicando revisões relevantes nas projeções de crescimento. Os riscos para a recuperação econômica reduziram-se significativamente;
A persistência da pressão inflacionária revela-se maior que o esperado, sobretudo entre os bens industriais. Adicionalmente, a lentidão da normalização nas condições de oferta, a resiliência da demanda e implicações da deterioração do cenário hídrico sobre as tarifas de energia elétrica contribuem para manter a inflação elevada no curto prazo, a despeito da recente apreciação do Real. O Comitê segue atento à evolução desses choques e seus potenciais efeitos secundários, assim como ao comportamento dos preços de serviços conforme os efeitos da vacinação sobre a economia se tornam mais significativos;

As diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação;
As expectativas de inflação para 2021, 2022 e 2023 apuradas pela pesquisa Focus encontram-se em torno de 5,8%, 3,8% e 3,25%, respectivamente; e

No cenário básico, com trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus e taxa de câmbio partindo de USD/BRL 5,05*, e evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC), as projeções de inflação do Copom situam-se em torno de 5,8% para 2021 e 3,5% para 2022. Esse cenário supõe trajetória de juros que se eleva para 6,25% a.a. neste ano e para 6,50% a.a. em 2022. Nesse cenário, as projeções para a inflação de preços administrados são de 9,7% para 2021 e 5,1% para 2022. Adota-se uma hipótese neutra para a bandeira tarifária de energia elétrica, que se mantém em "vermelha patamar 1" em dezembro de cada ano-calendário.
O Comitê ressalta que, em seu cenário básico para a inflação, permanecem fatores de risco em ambas as direções.

Por um lado, uma possível reversão, ainda que parcial, do aumento recente nos preços das commodities internacionais em moeda local produziria trajetória de inflação abaixo do cenário básico.

Por outro lado, novos prolongamentos das políticas fiscais de resposta à pandemia que pressionem a demanda agregada e piorem a trajetória fiscal podem elevar os prêmios de risco do país. Apesar da melhora recente nos indicadores de sustentabilidade da dívida pública, o risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária.

O Copom reitera que perseverar no processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para permitir a recuperação sustentável da economia. O Comitê ressalta, ainda, que questionamentos sobre a continuidade das reformas e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia.

Considerando o cenário básico, o balanço de riscos e o amplo conjunto de informações disponíveis, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual, para 4,25% a.a. O Comitê entende que essa decisão reflete seu cenário básico e um balanço de riscos de variância maior do que a usual para a inflação prospectiva e é compatível com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante, que inclui o ano-calendário de 2022. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

Neste momento, o cenário básico do Copom indica ser apropriada a normalização da taxa de juros para patamar considerado neutro. Esse ajuste é necessário para mitigar a disseminação dos atuais choques temporários sobre a inflação. O Comitê enfatiza, novamente, que não há compromisso com essa posição e que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação.

Para a próxima reunião, o Comitê antevê a continuação do processo de normalização monetária com outro ajuste da mesma magnitude. Contudo, uma deterioração das expectativas de inflação para o horizonte relevante pode exigir uma redução mais tempestiva dos estímulos monetários. O Comitê ressalta que essa avaliação também dependerá da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e de como esses fatores afetam as projeções de inflação."

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Editora do Portal Mais Retorno.

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