Renda Variável

Engana-se quem pensa que as ações com maior valorização neste ano na Bolsa de Valores são as de empresas bem administradas, com perspectivas de bons resultados, em setores promissores da economia. Contraditoriamente, as 10 maiores altas da B3, de janeiro a 21 de junho, são ações de empresas problemáticas, envolvidas em dificuldades financeiras, questões judiciais ou de governança. Distorções no mercado de ações brasileiro.

Estudo feito pelo Yubb, um buscador online e gratuito, que mapeia todos os investimentos do mercado brasileiro, mostrou que a maior alta, de 649%, foi registrada pela Fertilizantes Heringer, que está em recuperação judicial. As demais altas também não deixam de surpreender.

Heringer está em recuperação judicial e subiu 649% neste ano, com fortes oscilações - Foto: Divulgação

Antes de mais nada, Bernardo Pascowitch, fundador do Yubb, deixa claro que o ranking não é de empresas com as melhores ações, mas com as maiores valorizações na Bolsa. “A grande maioria das empresas que está neste ranking encontra-se em recuperação judicial ou com problemas de gestão ou fiscalização, recebendo, inclusive, punições da Comissão de Valores Mobiliários (CVM)", ressalta o executivo.

PosiçãoTickerEmpresaPerformance
1FHER3Heringer648,65%
2JBDU4JB Duarte429,20%
3INEP4Grupo Inepar404,28%
4JBDU3JB Duarte401,61%
5INEP3Grupo Inepar394,59%
6VIVR3Viver322,99%
7PATI3Panatlantica274,99%
8ATMP3Atma266,96%
9NORD3Nordon Med.227,50%
10PATI4Panatlantica214,89%
Levantamento: Yubb

Para o advogado Vamilson José Costa, sócio do escritório Costa Tavares Paes e especialista em recuperação judicial, essas altas extravagantes podem ser explicadas por alguns fatores específicos de empesas que estão nesses processos quando negociadas na bolsa.

O primeiro deles, apontado por Costa, é que essas empresas já perderam muito do seu valor, e a cotação das ações às vezes virou centavos, virou poeira, como diz ele, e qualquer valorização em cima de cotações muito baixas acaba sendo potencializada.

Além disso, são papeis que perderam fortemente a liquidez, com volume baixo de negociações, quase zero, situação em que qualquer movimento de compra também empurra os preços para cima de forma acentuada.

Fatores inerentes ao mercado acionário à parte, o especialista também considera que há especulação com esses papéis, uma vez que tecnicamente não oferecem atrativos ao investidor.

Para Pascowitch “essas valorizações podem estar muito mais relacionadas a movimentos especulativos por parte de investidores que querem se aproveitar de uma empresa ou de algumas empresas que estão passando por dificuldades para gerar movimentos de hipervalorização”.

Ao mesmo tempo, as altas tendem a impressionar os desavisados, ou menos experientes, ou sem informações sobre os as empresas, que ingressaram nesse mercado há pouco tempo. Na opinião do advogado a CVM não deveria permitir a negociação desses papeis em pregões normais da Bolsa, principalmente em um momento de entrada expressiva de pessoas físicas no mercado.

“O ideal era proibir as operações com essas ações, isso é uma ameaça à poupança popular, por causa dos riscos”, defende Costa. Ele explica que os mesmos fatores que levaram à uma valorização astronômica podem provocar quedas da mesma proporção.

Volatilidade das ações

E basta verificar a volatilidade que acompanha algumas dessas ações, para entender os riscos envolvidos. A Heringer, por exemplo, custava por volta de R$ 3 no início do ano, chegou a bater R$ 46,77 no dia 11 de junho, e fechou a R$ 19,85 no pregão desta quinta-feira, 24. E isso, tudo indica, em movimentos meramente especulativos

O mesmo aconteceu com a JB Duarte, outra em recuperação judicial, que era cotada a R$ 1,37 no dia 4 de janeiro, foi para R$ 13,22 no dia 8 de junho e terminou valendo R$ 6,20 no pregão de ontem. Ainda nesse caso, Pascowitch chama a atenção que mesmo aparecendo duas vezes no ranking, a JB Duarte já foi penalizada por realizar manipulações de mercado.

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Editora do Portal Mais Retorno.

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