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Ouro e crises: uma relação para a vida

Por:
26/05/2020

Uma das mais antigas e clássicas reservas de valor, o ouro, acaba voltando para a moda a cada nova crise que aparece no radar.

Apesar de parecer muito mais distante no nosso dia a dia hoje, principalmente no Brasil, ele ainda tem um papel fundamental nas carteiras dos investidores e gestores mais experientes.

Pois é, uma das maiores razões para investidores considerarem ouro em suas carteiras é por ele ser uma proteção clássica contra a inflação. A inflação corrói o poder de compra da moeda, mas o ouro tem conseguido ao longo das décadas preservar esse poder.

O ouro também é uma commodity, ou seja, pode servir de matéria-prima para algumas indústrias. Seu preço tem bastante influência da oferta (que é finita) e demanda desses segmentos, mas o seu histórico de reserva de valor modificou ao longo das décadas o seu caráter dentro da classe de ativo.

Você já escutou alguém falar em comprar alguns grãos para se proteger de alguma adversidade no mercado? Mesmo na forma física? Usualmente não né. Aliás, é bem raro recomendar exposição a esse tipo específico de commodities quando estamos falando de composição de carteira para um investidor tradicional.

A própria característica do material abre essa diferença. No limite, você poderia guardar um colar de ouro por décadas e preservar seu valor. Certamente essa realidade é diferente com o caso da soja ou do milho, por exemplo.

Outro ponto de divergência é que as demais commodities tendem a ter forte queda nos preços em momentos de crise, justamente sinalizando a queda do consumo mundial. Já o ouro tende a ir no sentido contrário, não raro se valorizando bastante durante as inúmeras crises que o mercado passa.

Como estamos em mais uma delas, não podemos deixar passar em branco a oportunidade de colocar esse ativo na mesa.

O ouro em crises

Existem poucos ativos mais descorrelacionados do que o ouro. Tempo ruim é com ele mesmo. Alguns alegam que o Bitcoin pode se tornar o ouro de amanhã, mas essa conjectura fica para uma outra conversa.

Abaixo podemos ver como seu preço foi evoluindo desde a metade do século passado. A cada nova crise, um novo ciclo de alta se inicia, variando de maior ou menor intensidade.

Seu pico foi atingindo justamente após a crise global de 2008 e a crise da dívida dos Estados europeus em 2012. Já em 2020 é um dos poucos ativos com dois dígitos de retorno positivo.

Já acumula cerca de 13,9% desde o início de janeiro e começa inclusive a se aproximar do seu pico verificado ao fim de 2011. Isso em dólar, pois se convertido em reais o rendimento está quase em 50% no ano.

Outro ponto importante que faz com que o ouro chame atenção é justamente seu comportamento em relação aos juros longos americanos, um dos ativos mais importantes do mercado.

Apenas a título de comparação, a correlação entre o preço do ouro e o juro longo de 10 anos dos bonds americanos é de -0,76 considerando os dados diários de 2017 até a metade de maio de 2020. Em outras palavras, são ativos fortemente inversamente relacionados (como o gráfico sugere).

Encontrar ativos desse tipo é essencial para a carteira de qualquer investidor. Dessa forma, sempre que a curva de juros americana começarem a declinar, como estamos assistindo desde 2018, a tendência é justamente o preço do ouro ir no sentido contrário.

Pois é, não por acaso o preço do ouro tem avançado mesmo antes do próprio coronavirus “chegar”.

Por mais que você não consiga traçar muito bem um cenário para a tendência do ouro, talvez a alternativa seja traçar justamente para o bond americano, baseado aí nas expectativas de mercado quanto as principais variáveis macroeconômicas que ditam esse ativo.

Inflação, atividade econômica e situação fiscal costumam ser um bom começo de conjectura dos Estados Unidos. Feito isso você consegue ter uma noção melhor do que vai acontecer com o ouro sem necessariamente traçar um cenário direto para ele.

Pois é, eu sei, não é fácil fazer tudo isso. Já é difícil acompanhar o cenário Brasil, imagina ainda ter que ampliar seu leque para os Estados Unidos.

Descomplicando a Bolsa de Valores

Se expondo ao ouro no Brasil

Existem várias formas de se expor ao ouro por aqui, desde utilizar contratos futuros até a sua forma física mesmo. Confesso que não são as alternativas mais adequadas para a maior parcela dos investidores. Nessas horas surgem as vantagens de se ter fundos de investimentos “especializados” em ouro.

Por exemplo, abaixo temos a comparação da rentabilidade acumulada desde 2013 de dois dos principais fundos de ouro aqui do mercado brasileiro. Claro, além do Órama e do fundo da Caixa (ambos no gráfico), existem vários outros deles, como os fundos da XP, BTG, BB, Itaú, Vitreo e etc.

O ponto é que esses fundos são mais recentes e os dois ilustrados nos dão uma visão de um prazo mais longo. Ainda que não seja seu benchmark oficial, o CDI costuma ser o ponto de partida para comparação de qualquer investimento, sendo uma aproximação do nosso ativo livre de risco.

Veja como não foi fácil superar o rendimento do CDI por parte dos fundos de ouro. Isso quer dizer que ele é ruim?

Não. Na verdade, nesse caso nem faz muito sentido ficar olhando o retorno de cada classe de ativo da sua carteira individualmente.

O ouro vem para aumentar a diversificação da sua carteira e servir como proteção também, não tendo objetivo único de te fazer rico ou de superar com folga qualquer benchmark. Ele pode servir como um paraquedas, a maioria das vezes é melhor nem precisar contar com ele.

Para quem tiver mais curiosidade, há um estudo bastante interessante chamado “Gold - Fundamental Drivers and Asset Allocation”, que além de mostrar as variáveis que fundamentam o preço do ouro, ainda examina o papel do ouro na alocação de ativos e mostra que ele aumenta significativamente a relação de risco-retorno em uma carteira com ações, títulos e cash.

Quer dizer que é só sair comprando uma parcela de ouro para sua carteira e tá tudo certo?

Óbvio que não. O fato dele ser usado como hedge não quer dizer que ele é um ativo altamente seguro. Pelo contrário, ele tem uma volatilidade bastante elevada, inclusive.

A questão é mais profunda. Você precisa olhar sua carteira como um todo (considerando renda variável, renda fixa, moedas, ativos imobiliários etc.) e verificar se a adição de um ativo como o ouro vai aumentar ou reduzir a volatilidade da sua carteira.

Sim, por mais que ele seja volátil, caso tenha algum ativo bastante negativamente correlacionado com ele, você pode inclusive reduzir a volatilidade da sua carteira ao incluí-lo.

Estranho né? Pois é, esse é o poder da diversificação e correlação. As vezes adicionar um ativo individualmente volátil pode reduzir a volatilidade da carteira de uma forma geral.

Hora de comprar ouro?

Devo comprar ouro agora? Devo compra dólar? É o tipo de pergunta que sempre aparece em momentos de incerteza no mercado. Fique tranquilo, se você está nessa agora, não é o primeiro e provavelmente não será o último.

A gente sempre vê o ativo individualmente, sendo bem mais difícil pensando nele como parte de uma carteira e tendo sua função como tal. Há um preço por se pensar nele como alternativa sempre em momentos de stress, onde exatamente a maioria também está no mesmo barco.

Por outro lado, há diversos gestores de carteira que recomendam sempre ter uma parcela da sua carteira alocada nesse tipo de ativo. As recomendações costumam variar de 5% até 10%, dependendo do seu perfil e da sua composição atual, mas em geral nunca mais do que isso.

Talvez isso tire um pouco da sua performance naquele bull market maravilhoso, mas te poupa também o trabalho de ter que correr para ele tão logo uma crise ou uma situação global bastante adversa apareça.

Nessas horas, com sua parcela de ouro valorizando é possível inclusive reduzir sua posição nele e alocar em outros ativos que possivelmente estarão com preços mais “atrativos”.

Talvez a pergunta mais ideal a se fazer é: é hora de rebalancear a minha carteira?

Conclusão

A maior parte dos investidores brasileiros ainda está começando a sua jornada no mundo financeiro, onde sempre esteve muito presente em ativos com baixo risco, mas numa época em que os juros eram suficientemente altos para o acúmulo de patrimônio ao longo dos anos, né?

Agora a tendência do jogo mudou e todos nós estamos desafiados a começar a estudar melhor nossa carteira, a descer do conforto do juro alto e procurar novas classes de ativos para inclusive controlar o risco adicional que provavelmente iremos correr.

Com uma leva enorme de novos investidores “entrando na bolsa” nos últimos meses, é preciso que o máximo de classes de ativos seja apresentado para eles. O ponto é justamente compreender que não existe apenas “bolsa brasileira” ou “juros” como alternativas para sua carteira.

É aqui que surgem novas realidades (de ativos já muito antigos) como o ouro ou o próprio dólar. É uma pena que eles começam a surgir como alternativa apenas durante momentos de crise, mas talvez seja a única forma de “chamar atenção” de mais de 1 milhão de pessoas que começaram a cuidar melhor do seu dinheiro nos últimos anos.

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Sobre o autor

  • Arthur Lula Mota
  • Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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