Economia

O mês de janeiro foi marcado por um temor global que infelizmente já chegou ao Brasil. Casos de um novo vírus começaram a surgir na China literalmente no final do ano passado, de forma silenciosa, mas que tiveram o potencial de atingir alarme global pela OMS (ou WHO, na sigla em inglês).

O Coronavirus começou fortemente a aparecer nos noticiários mais focados no mercado financeiro, pelos efeitos no mercado chinês, mas hoje já dominam todos os tipos de noticiários. 

Tecnicamente, como descreve a OMS, “os coronavírus (CoV) são uma grande família de vírus que causam doenças que variam do resfriado comum a doenças mais graves, como a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV)  e a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV). Um novo coronavírus (nCoV) é uma nova cepa que não foi previamente identificada em humanos”.  

A maior parte dos casos está concentrado na China (mais de 11 mil), mas já foram confirmados no Japão, Coreia, Singapura, Austrália, Índia, Estados Unidos, Canada, França, Alemanha, Itália, Rússia, Reino Unido, Brasil e diversos outros países.

Efeitos do Coronavirus nos mercados globais

Os primeiros sinais começaram a aparecer logo na volta dos feriados natalinos, com o primeiro caso sendo informado para a OMS em 31 de dezembro de 2019, mas ganhou maior alarme nas últimas semanas de janeiro com a classificação de emergência global pela mesma instituição.

Para se ter noção, os índices VIX, também conhecidos como índices do medo, chegar a subir 40,4% entre 23 e 27 de janeiro, nível global, e 23,6% no caso brasileiro, sinalizando o potencial stress que o fato causou no mercado.

A notícia afetou praticamente todos os mercados, com dias bastantes tensos nos mercados globais. As bolsas do mundo todo chegaram a perder (somadas) mais de US$ 1,5 trilhão em valor de mercado durante esse período turbulento.

O caso chinês é muito mais complexo, afetando todo o seu comércio, seu turismo, seu ambiente de negócio, com proibição de entrada em alguns países. Eles estenderam o feriado de ano-novo lunar, deixando suas bolsas fechadas por mais tempo do que o normal e também impediram o retorno de atividade por parte das empresas.

A atividade econômica do país vai ser duramente afetada por conta da paralisação. Só lembrar o que a greve dos caminhoneiros fez com a atividade brasileira naquele trimestre. 

A título de exemplo, abaixo há uma estimação de impacto do SARS no PIB de alguns países em 2003, com destaque para os asiáticos. Nesse evento, 1pp do PIB chinês foi engolido pela epidemia.

Ainda é cedo para realmente quantificar os impactos da crise atual, mas certamente irá atrapalhar muito o planejamento de crescimento por parte do governo chinês, que já estava lidando de frente com a desaceleração que o país vem vivendo (de forma planejada).

Efeitos de epidemias no Ibovespa

O Brasil obviamente não passou impune ante todo esse cenário de temor global, não só pelo risco do contágio da epidemia, mas pelos impactos na atividade econômica global. De fato, a semana encerra em 31 de janeiro foi a pior desde agosto de 2019, com queda de 3,98%. 

A situação também não foi exatamente das melhoras em outros casos de epidemia já ocorridos nesse século. O gráfico abaixo mostra a evolução do Ibovespa nas principais epidemias desde os anos 2000, considerando um período de mais ou menos 15 dias após o alarme ter tocado na OMS.

Como temos experiencias de epidemias que duraram meses, é muito difícil saber separar o que foi efeito da epidemia e o que foi efeito de outros fatores do dia-a-dia do mercado. A legenda está na ordem temporal das epidemias.

É possível ver que o Ibovespa recuou nesses períodos, mas mais intenso em alguns casos do que em outros, ficando difícil de olhar com a série histórica tão longa assim. Vamos então observar o que aconteceu em alguns casos mais emblemáticos, como o SARS, a gripe suína, aviária e o Ebola. 

Considerando o período “zero” como aqueles informados dos relatórios da OMS (e também facilmente verificável no Wikipedia), abaixo temos o que aconteceu com o Ibovespa duas semanas antes e 7 semanas depois desse período zero, sendo que 100 pontos é a nossa base.

É possível ver que, durante o período em que essas epidemias tomaram um pouco mais os noticiários, o Ibovespa não voltou ao seu patamar inicial pelo menos até a terceira semana. Apenas no caso do SARS é que tivemos uma recuperação bem melhor. Ficando praticamente 15% acima do que foi verificado no período zero, mas com casos como a gripe aviária mostrando queda acima dos 10%. 

Naturalmente não é possível apenas por essa análise inferir que o desempenho do Ibovespa foi desta forma por conta exclusivamente das epidemias, sendo que podemos ter uma porção de outros fatores que ditaram a dinâmica da bolsa nesse período (anos eleitorais, por exemplo).

O melhor dos mundos seria simular um cenário contrafactual em que não tivessem ocorridos essas epidemias e comparar com o que de fato ocorreu, podendo ter o resultado líquido desses eventos na bolsa brasileira. Esse tipo de exercício não é trivial e provavelmente daria um belo trabalho, digno de nota. 

Conclusão

O leitor que está passando por esse momento certamente já sentiu os impactos da epidemia, mas não deve se desesperar. Apesar desses movimentos mais bruscos de mercados, ele deve checar se os fundamentos dos ativos que ele investe mudaram.

Se ele está apostando em Brasil, por exemplo, faz sentido pensar que a atividade econômica brasileira vai despencar tanto com esse vírus? No estágio atual de disseminação parece pouco provável, com uma taxa de morte menor do que 3% nos casos já diagnosticados no mundo. 

Isso quer dizer que não teremos turbulência nesse curto prazo? Não e você já provavelmente já percebeu isso. 

A neblina da incerteza deve permanecer por mais semanas, impactando no volume mundial dos mercados, sobretudo quando os números ruins da atividade econômica chinesa começarem a sair. É uma boa dose de volatilidade, mas que também pode trazer muitas oportunidades.

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Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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