Renda Fixa

Se você investe nas Letras Financeiras do Tesouro (LFT), certamente já conhece as vantagens oferecidas por esse ativo como liquidez e a segurança de investir em títulos oferecidos pelo próprio governo nacional.

No entanto, muitas pessoas pensam que esse é um investimento sem qualquer risco, o que não é verdade para nenhum tipo de investimento — nem mesmo para a caderneta de poupança. O Tesouro Selic pode, inclusive, apresentar rentabilidade negativa.

Isso mesmo! A sua aplicação de emergência, com viés mais conservador possível, também oferece seus riscos. Neste artigo, vamos explicar por que isso acontece e se realmente merece algum tipo de preocupação adicional.

Como funciona o Tesouro Selic (LFT)?

As Letras Financeiras do Tesouro (LFT) são chamadas atualmente de Tesouro Selic para quem investe pelo Tesouro Direto. O motivo é o seu funcionamento que, afinal, basicamente replica o desempenho da taxa básica de juros, a Taxa Selic, configurando-se em um título essencialmente pós-fixado.

Considerando esse cenário de acompanhamento da taxa de juros e também o fato de que o título é emitido por um dos credores mais confiáveis do país (o próprio governo), torna-se realmente um ativo bastante seguro e, inclusive, muito utilizado para reserva de emergência.

No entanto, algo que costuma passar despercebido, a rentabilidade da LFT não é apenas uma cópia da Taxa Selic. Há um prêmio de risco oferecido pelo governo que é acrescido à taxa básica de juros do Brasil. Ou seja, uma parte dos ganhos se baseia em uma taxa prefixada.

Você mesmo pode perceber que, ao investir no Tesouro Selic pela sua corretora, a rentabilidade é informada, por exemplo, como "Selic +0,02". Isso significa que, neste caso, teríamos o rendimento de 100% da Taxa Selic acrescido a 0,02%.

Além disso, como é comum com ativos de renda fixa, o Tesouro Selic possui uma data de vencimento — o dia em que o governo devolverá o seu dinheiro com o acréscimo dos juros. Acontece que você não precisa aguardar esse prazo: é possível negociá-lo a qualquer momento no mercado secundário, vendendo a sua LFT a outros investidores.

A questão é que, para vender o seu título, você vai se expor à clássica relação entre oferta e demanda. Ou seja, quanto vale a sua LFT no dia da negociação. Para isso, é importante entender a marcação a mercado, forma de precificar os títulos oferecidos pelo Tesouro Nacional diariamente.

O que é a marcação a mercado da LFT?

A marcação a mercado é o nome dado à precificação de um ativo em uma determinada data de negociação. Não é muito diferente do que acontece no mercado de ações, onde o papel de uma companhia pode se valorizar ou desvalorizar de acordo com o cenário econômico.

Quando falamos do Tesouro Selic, em tese, a variação é muito baixa na medida em que ele acompanha a taxa básica de juros do Brasil. Não por acaso, é considerado como o título mais seguro para investir no nosso país.

Acontece que a parte prefixada da sua rentabilidade (chamada de spread) movimenta-se de acordo com o cenário econômico. Em 2020, por exemplo, vimos o governo precisar elevar seu endividamento para combater a crise financeira. Naturalmente que isso eleva o risco fiscal do Brasil, algo que afeta os seus títulos de dívida (entre os quais está a LFT).

Sendo assim, é natural que o investidor eleve a sua exigência em relação ao spread para investir no Tesouro Selic. Se antes aceitaria um acréscimo de apenas 0,02% ou 0,03% em relação à Taxa Selic, agora pode comprar esse título público apenas se o spread subir para 0,08% ou 0,09%, por exemplo.

Ou seja, você comprou o seu Tesouro Selic a uma taxa inferior ao que o mercado negocia atualmente. Assim, caso venda o seu título antes do vencimento neste momento, terá de fazê-lo por um preço inferior ao de compra, gerando algum prejuízo. E vice-versa.

Dependendo do cenário econômico, portanto, o mercado permite que você realize dois tipos de operações com a sua LFT:

É possível ter rentabilidade negativa no Tesouro Selic?

Uma vez entendida a dinâmica de precificação da LFT, podemos enfim responder nossa pergunta central do artigo: afinal, é possível ter rentabilidade negativa no Tesouro Selic? E a resposta, como talvez você já saiba, é positiva, mas cabem ressalvas.

Tudo que vimos até aqui se aplica à venda antecipada do Tesouro Selic. Em outras palavras, as relações de ágio e deságio se verificam apenas caso você opte por antecipar o seu resgate.

Isso acontece porque, neste caso, você depende de outro investidor interessado em adquirir o seu título. Para tal, há o famoso risco de mercado, isto é, a chance de valorização ou desvalorização do ativo de acordo com o cenário econômico.

Não é um problema para aqueles que, ao contrário do resgate antecipado, mantém a sua LFT até o vencimento. Neste caso, ainda que o ativo seja marcado diariamente a mercado, essas oscilações não possuem importância. O governo irá pagar, na data de vencimento, o valor acordado.

Outro cenário que possibilitaria uma rentabilidade negativa no seu investimento nas LFTs seria caso a nossa taxa de juros fosse negativa, algo que já acontece em países desenvolvidos. No Brasil, no entanto, esse é um cenário ainda bem distante.

Ou seja, de maneira objetiva, há sim um risco de rentabilidade no Tesouro Selic, mas apenas para aqueles investidores que antecipam o resgate do investimento. E, mesmo assim, apenas em condições bem atípicas, como vivemos em 2020.

Afinal, ainda vale a pena investir no Tesouro Selic?

Ao saber que é possível ter rentabilidade negativa no Tesouro Selic, muitos investidores podem passar a se questionar se realmente vale a pena investir nessa classe de ativo.

Acredito que, apesar da sua marcação a mercado, o Tesouro Selic cumpre muito bem a sua função para aqueles que buscam por um investimento conservador e de baixo risco, em especial para a sua reserva de emergência.

Além disso, esses efeitos de expectativa são constantemente alterados. É normal que, em período de recessão, o mercado tenha um comportamento mais volátil. Em breve, a depender das notícias, o spread tende a voltar para a estabilidade, reduzindo assim o impacto na rentabilidade de curto prazo.

Vale lembrar os benefícios que mencionamos no começo do artigo: um emissor amplamente confiável (o governo) e a alta liquidez, fatores fundamentais para esse objetivo de reserva financeira. A rentabilidade, embora também seja relevante, é algo secundário neste momento.

O mais importante, na prática, é que você sempre entenda o funcionamento do ativo antes de investir nele — seja o Tesouro Selic ou qualquer outro formato de investimento. Assim, não toma esses "sustos" de ver o dinheiro se desvalorizando mesmo em ativos conservadores.

Por fim, lembre-se de que, ao abrir a sua corretora e ver a LFT com resultado negativo, esse prejuízo só é real se você vender os títulos adquiridos. Ao mantê-los, a rentabilidade segue ajustando de acordo com a Taxa Selic e não há motivo para pânico no longo prazo.

Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.


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