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Contas Externas e Taxa de Câmbio: o que tem a ver com meus investimentos?

Por:
26/03/2019

Você já parou para pensar o quanto a taxa de câmbio afeta seus investimentos?

Possivelmente você poderá pensar: “Oras, mas eu não invisto nada lá fora” ou “eu nunca comprei dólar como investimento, no máximo para viagem’’, de forma que a cotação da moeda parece algo tão distante e menos importante quando você olha sua carteira.

Pois bem, a realidade não é bem por aí e espero que você tenha paciência para enfrentar um texto um pouco longo tratando do assunto e que as vezes pode conter algumas coisas aparentemente mais técnicas, demandando um pouquinho mais do seu esforço.

Prometo ter simplificado ao máximo esses conceitos para deixar a leitura bem agradável!

A lógica do artigo é explicar um pouco da taxa de câmbio, da sua influência dos investimentos, contar um pouco do que são as Contas Externas, da relação do câmbio com essas Contas e a situação atual dessa relação.

Por isso, continue lendo para saber mais sobre:

O que é e como é formada a taxa de câmbio

O que é e como é formada a taxa de câmbio

Peço a licença de ser um pouco extenso na explicação do que é taxa de câmbio, buscando trazer alguns leitores mais leigos para o nosso lado.

A taxa de câmbio é nada mais do que uma relação entre moedas de diversos países. Ela nos mostra quanto uma moeda de um determinado país “vale” no outro, considerando a moeda nacional.

Bem, a relação entre Real e Dólar é determinada por uma porção de coisas (um dia podemos comentar mais sobre), dentre elas as evoluções das nossas Contas Externas da qual vamos falar mais para frente.

A lógica aqui é bem simples, tem relação com aquela velha lei da oferta e demanda. Se num mercado existe muito de um determinado produto, em quantidades até superior ao número de compradores para aquele produto, seu preço tende a cair, certo?

Por outro lado, quando há menos daquele produto e vários compradores (lembre-se da greve dos caminhoneiros) o preço sobe.

Com a taxa de câmbio acontece o mesmo: quando “entram” muitos dólares na economia brasileira, o “preço” do dólar cai e assim há uma valorização da moeda nacional, de forma que o mesmo número de Reais agora compra mais Dólares. Para isso nós chamamos de valorização da moeda.

Do lado oposto, quando há saída de dólares da economia, há uma piora da relação e a moeda americana fica mais cara, desvalorizando o real brasileiro.


Impacto do câmbio no investimento

Impacto da taxa de câmbio

Mesmo sem trabalhar diretamente com esse ativo, ele pode impactar a sua vida sim, e por diversos canais. Um dos canais mais clássicos, por exemplo, é influenciando a inflação.

Atualmente a taxa de câmbio está próxima de R$/US$ 3,90, mas ela já esteve bem abaixo disso, o que denota uma desvalorização da nossa moeda nos últimos meses e anos.

A consequência imediata disso é essa tal maior pressão na inflação, pois o país importa diversos produtos para consumo interno (trigo para fazer pão, macarrão e etc, por exemplo) e que ficam mais caros quando há uma desvalorização da moeda.

Importar produtos mais caros, resulta num repasse de preços mais caros para o consumidor e numa inflação maior.

Isso ocorreu em anos recentes e obrigou o Banco Central a mexer na taxa de juro (a SELIC, veja mais sobre em “O que é a Taxa SELIC?”) para controlar melhor a inflação, o que afeta diretamente todos os investimentos do mercado, desde aqueles ligados ao CDI até a Bolsa de Valores.

Lembrando que a taxa básica de juro impacta o rendimento de praticamente todos os ativos.

No caso da Bolsa, uma alta muito forte nos juros, chegando num patamar elevado, pode atrair investimentos que estavam na renda variável para alguns de renda fixa que se beneficiam desse aumento do juro.

Há quase que uma gangorra entre investimentos em juros e em Bolsa, que pode se alterar quando há movimentações na taxa de juros. Confesso que no artigo que está linkado há explicações muito mais nobres do impacto da Selic.

Outra forma do câmbio impactar os investimentos é afetando diretamente empresas listadas em bolsa, como por exemplo aquelas que dependem muito do mercado externo para exportar (exportadoras de celulose como Suzano, por exemplo) ou importar (como é o caso de Petrobras, Embraer, Braskem e etc).

Dependendo de qual direção o câmbio vai, essas empresas são afetadas em qualquer uma das pontas que elas fazem negócio, seja importando produtos que ficaram mais caros (ou baratos) ou vendendo produtos que agora estão mais caros (ou baratos), influenciando diretamente as expectativas dos analistas de mercado em relação a empresa e, por último, impactando o preço de suas ações.

Assim, demos exemplos simples de como a flutuação da taxa de câmbio pode impactar seus investimentos, mesmo você tendo passado bem longe desse ativo na hora de montar sua carteira.

Espero que até aqui você já comece a olhar diferente para essa cotação quando escutar no noticiário em qual patamar o câmbio está.

Pois bem, agora vamos tentar plugar outro assunto que se relaciona com câmbio e que por conta disso, de forma indireta, vai se relacionar com seus investimentos.

Contas Externas e sua importância

Contas externas e sua importância

Se você acompanha um pouco de Economia, sabe muito bem a grande preocupação com a solvência das Contas Públicas do país. Estamos gastando muito mais do que arrecadamos e dentre os problemas principais está a tão falada Previdência Social.

O remédio amargo para esse problema é o tal do Ajuste Fiscal, que busca tornar essas contas mais equilibradas e sustentáveis, de forma a acalmar os ânimos dos investidores que emprestam dinheiro para o governo.

O mercado financeiro é pródigo em fazer boas leituras da situação econômica do país ao olhar diversos indicadores, antecipando grandes eventos que podem gerar riscos para o retorno de seus ativos, tais como crises na Atividade Econômica, nas Contas Públicas e também nas chamadas Contas Externas.

Contas Externas é um nome “bonito” para o que os economistas chamam de Balanço de Pagamentos, um local onde estão registrados tudo o que entra e sai do país, em valores monetários (dólar/US$) para o resto do mundo.

Em outras palavras, a compra e venda de mercadorias, prestação de serviços, investimentos e etc., servindo como um raio X de nossa relação com o que está fora de nossas fronteiras.

A saúde nessa conta é tão ou mais importante do que a saúde das contas públicas do país, emitindo um forte sinal de alerta para os investidores quando a situação está ruim. E acredite, o Brasil já teve muito problema com isso.

Para ficar apenas no caso mais recente, em 2014 surgiram os tais dos “Cinco Frágeis” no mercado financeiro global, que representava países que mostravam grande risco e problemas de insolvência, dentre eles o das Contas Externas.

Mais precisamente, esses países dependiam demais do investimento estrangeiro para financiar seu crescimento, ou seja, caso o mundo passasse por mais um cenário difícil e essa torneira fechasse, tais países enfrentariam grandes problemas.

Dentre esses países estavam Turquia, Brasil, Índia, África do Sul e Indonésia, que eram países que mostravam grande elevação de seu risco para os investidores, que monitoravam de perto a hora de entrar e sair dessas economias, de modo a não serem pegos de surpresa.

A situação brasileira ficou particularmente ruim depois da grande crise econômica de 2008 e essa manifestação se deu em uma das principais contas dentro dessas tais Contas Externas: a tal da Conta de Transações Correntes.

Ela mede o fluxo de entrada e saída de dinheiro do país, com destaque para três subcontas:

i) balança comercial (que computa as exportações e importações do país);

ii) balança de serviços (que computa os valores enviados e recebidos de fora para pagar transportes, seguros etc); e

iii) balança de rendas (computa toda a parte financeira do país com o exterior ao registrar as remessas e recebimento de juros e lucros, rendas e transações unilaterais).

Essas contas são apresentadas por meio de um saldo, que nada mais é do que a soma entre as entradas de dólares (vendas exportações, recebimento de lucros de empresas brasileiras la fora, pagamento de aluguel, e etc.) e a saída de dólares (pagamento de importações, pagamento de juros para o estrangeiro, pagamento de viagens, e etc.).

A soma de todas essas movimentações pode ser positiva ou negativa, e no caso brasileiro tem sido negativa (deficitária) desde 2008, o que sinaliza fortemente que sai mais recursos (em dólares) do que entra no país.

Em termos técnicos, o economista gosta de chamar dessa conta de “poupança externa”, pois mostra como o país está tendo que usar recursos de fora para poder financiar seus interesses. Ele usa essa tal poupança externa (dólares que outros países economizaram e que enviaram de alguma forma para o país) para poder tocar suas necessidades domésticas.

O gráfico acima mostra que não só a conta começou a ser negativa desde 2008 como o déficit foi crescente até 2015 e isso reflete alguns motivos:

  1. Estávamos importando mais do que exportando, mas não necessariamente em volume. O que isso quer dizer? Nós até poderíamos estar exportando em volume (kg) mais do que antes, mas o preço daquilo que mandávamos para fora caiu muito. O que domina as exportações brasileira são as chamadas commodities, sobretudo agrícolas, e o preço delas despencou a partir de 2011. Por outro lado, o tipo de produto que importamos (bens de capital, por exemplo) não mostrou queda do preço, fazendo com que essa relação de entrada e saída de dinheiro ficasse menos positiva para o país;
  2. Maior contratação de serviços externos, e aqui podemos destacar o forte volume de aluguel de equipamentos e principalmente as viagens. Sim, as nossas viagens (tanto domésticas como de negócios) contam na balança como forma de envio de recursos para fora e como você se lembra, houve um boom de viagens internacionais por parte dos turistas brasileiros nos últimos anos;
  3. Envio de renda para fora por conta dos lucros e rendimentos de empresas e investimentos feito por estrangeiros no país. Como você sabe, o país tinha uma das maiores taxas de juros do mundo, o que atraia investidores internacionais para cá e em algum momento essa renda teria que sair do país, certo? Além disso, houve muito investimento físico aqui, na construção de filias ou compra de empresas já instaladas por parte de investidores de outros países.

Tudo isso pode ser resumido e verificado no gráfico abaixo, que mostra justamente a abertura dessas Transações Correntes que mostramos acima.

A situação mudou de 2015 para cá, mas não se engane, os motivos não foram bons. Existem duas formas de resolver um déficit, um pelo lado da receita e outro pelo lado da despesa.

O lado do corte da despesa é sempre o mais doloroso, embora necessário, e o país passou por isso. Na verdade, o ajuste foi feito na base das lágrimas pois reflete efeitos da crise econômica que passamos. Um dos impactos da crise é a queda de renda, certo?

A economia entra em recessão e a renda nacional cai, o que reduz o nosso poder para comprar produtos estrangeiros, ou seja, reduz as importações e tira uma pressão da Balança Comercial (veja como o saldo dela começou a crescer a partir de 2016).

Além disso, a crise econômica diminui o lucro das empresas e, portanto, enviamos menos lucro para fora, além de abrir a possibilidade de redução da taxa de juro (estamos hoje com o menor juro da história) para tentar estimular a economia, o que também reduz a remessa de pegamento de juros para fora.

Por fim, a queda dessa renda doméstica também reduz o aluguel de equipamentos e principalmente o nosso volume de viagem, que ficou mais difícil desde então.

Tudo bem, você já entendeu que passamos por resultados bem ruins nessa tal de Contas Externas, mas como então não estamos num caos ainda maior?

Isso não ocorre pelo fato de eu ter contado apenas metade da história, visto que as Contas Externas não se resumem apenas nas Transações Correntes.

Há também a chamada Conta Financeira, que tem a função de registrar importantes subcontas que tratam de investimentos que o país recebe, sendo que a notícia boa é: estamos bem superavitários nessas contas.

O gráfico abaixo mostra essa situação, revelando que o volume de dinheiro que entra para comprar títulos e ações é maior do que aquele que sai, resultando em maior volume de dólares na economia.

Mas o grande destaque mesmo é o alto volume de investimentos diretos no país e que refletem a entrada de investidores não especulativos, mas que vieram para construir uma filial de empresa aqui ou então compraram alguma empresa brasileira, sinalizando forte interesse no mercado doméstico.

A ideia é essa, investimento direto reflete dinheiro entrando no país buscando coisas produtivas, como empresas, negócios e etc.

E por que isso importa? Bem, são exatamente esses volumes enormes de dólares que entram na economia para financiar o déficit que vimos na outra conta.

De fato, nós costumamos olhar o resultado dessas duas contas como fração do PIB (em % do PIB) e o gráfico abaixo mostra essa relação.

Veja como esses investimentos diretos no país eram suficientes para cobrir o rombo das contas externas, mas isso aconteceu apenas até o fim de 2013 e ligou um forte alerta vermelho em 2014 quando não se mostrou mais suficientes.

Em outras palavras, tínhamos uma conta tão negativa que nem as remessas de investimento eram capazes de cobrir o déficit, fazendo com que o volume de saída de dólares na economia brasileira fosse enorme.

É importante ressaltar que não estou mostrando todas as contas que formam o tal do Balanço de Pagamentos, mas as mais relevantes. Esse acontecimento trouxe fatos importantes para a taxa de câmbio brasileira e vamos explicar na próxima seção.

Tudo bem, mas qual seu interesse nisso tudo? Como disse anteriormente, as Contas Externas têm uma relação com a taxa de câmbio, que por sua vez tem relação com seus investimentos.

A relação entre a Taxa de Câmbio e Contas Externas

A relação entre a taxa de câmbio e contas externas

Aqui o assunto começa a ficar um pouco mais complicado. A relação entre elas vem tanto de uma sólida base teórica já bem consolidada na Ciência Econômica quanto de evidências estatísticas. Vamos focar apenas na parte teórica, que é bem intuitiva.

Como dito anteriormente, o fato de as Contas Externas estarem deficitárias significa que tem mais dinheiro (em dólar) saindo do país do que os que estão entrando e a consequência é que o dólar fica mais caro.

Esse movimento não é exatamente instantâneo, mas é uma relação de mais longo prazo. Quando as Transações Correntes começam a ficar sistematicamente negativas, há uma forte pressão no mercado de moedas, fazendo com que o preço do real brasileiro caia perante ao dólar.

O gráfico abaixo mostra que demorou um bom tempo para o câmbio se desvalorizar mesmo com as transações correntes ficando bastante negativas, até o ponto em que o mercado entendeu que a situação era muito mais grave do que eles pensavam e o risco do Brasil não conseguir ter dólares para pagar suas coisas era muito grande.

Um exemplo grave dessa situação (muito grave na verdade) é o caso Argentino, em que após uma forte dolarização da economia e uma fuga de capitais por causa da crise, o país não consegue mais dólares, encarecendo toda sua negociação com o resto do mundo e aumentando a desconfiança em relação a saúde daquela economia.

Se esse exemplo não fez sentido para você, não tem problema, fica tranquilo pois ele não interfere na nossa narrativa até aqui.

É muito perigoso descuidar das contas externas e o mercado consegue sentir o cheiro de sangue na água.

Quando o preço das commodities (grãos, metal e outras coisas que exportamos) começou a despencar a partir de 2011, foi como um sinal de fumaça para o mercado de que a já situação ruim das contas externas iria começar a ficar ainda piorar (pela queda do volume de exportações) e a partir dali a taxa de câmbio só foi para cima, enquanto o saldo das contas externas só iam mais para baixo.

E o hoje?

E o hoje

Tudo bem, a história foi longa até aqui, mas e atualmente, como esse assunto todo pode me ajudar?

Após a forte recessão que o país passou e a redução desse déficit, como já explicado na outra seção, houve uma menor pressão na taxa de câmbio, que começou a se estabilizar e ficar num patamar entre R$/US$ 3,70 – 4,00.

A melhora da nossa situação financeira com o resto do mundo é de suma importância para uma estabilização da taxa de câmbio, o que gera diversos efeitos positivas na economia.

Essa estabilização recente do déficit nas Contas Externas deve permanecer por mais algum tempo o que sinaliza que a taxa de câmbio não irá mais oscilar por ESSE motivo (pode oscilar por outros).

Isso é bastante importante ao pensar em seus investimentos, pois saber que uma forte pressão que desvalorizaria a moeda não existe mais pelos próximos anos nos dá um bom horizonte de planejamento financeiro, pensando em inflação, juros e etc.

Aí você se pergunta: tudo bem, então a taxa de câmbio não vai se mexer mais de forma intensa nos próximos meses?

Calma, também não é nem tanto ao mar, nem tanto ao céu.

É que a taxa de câmbio não responde só essas contas (em geral elas pesam muito mais no longo prazo), sendo que no curto prazo o que acaba determinando são notícias políticas internas e externas, o que faz com que o risco do país suba ou desça, dependendo da notícia.

Mas essa é uma conversa para outro momento.

O que importa saber agora é que a taxa de câmbio não sofrerá mais nos próximos anos com o elevado déficit das Contas Externas e isso é importante para seus investimentos.

Você talvez nem sabia da existência dessa conta, mas agora espero que preste mais atenção nela daqui uns 5 anos, que ela pode estar com uma cara bem diferente.

Conclusão

A saúde das Contas Externas é tão importante quanto a saúde das Contas Públicas de um país, e o Brasil passou por apuros no passado e mais recentemente em 2014, no qual o déficit na conta de Transações Correntes estava crescendo de forma desgovernada.

Os resultados dessa conta, tanto positivos quanto negativos, afetam diretamente a taxa de câmbio, principalmente num prazo mais longo.

Atualmente, com o menor volume de déficit, há uma pressão bem menor para a desvalorização da moeda brasileira, estabilizando a relação de troca entre o dólar e a nossa moeda.

Esse fato é importante para os investimentos, pois afeta a expectativa de diversas variáveis importantes, mais diretamente a própria taxa de câmbio, o risco, a inflação e, por consequência, a taxa de juros.

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Sobre o autor

  • Arthur Lula Mota
  • Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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