Open Nav

Como viver de renda em um cenário com juros reais negativos?

Por:
07/05/2020

Até o segundo semestre de 2016, muitos brasileiros recebiam juros reais de dois dígitos em suas aplicações correndo pouquíssimo risco. Naquela época, era possível sacar dinheiro todo o mês para pagar as despesas e, sendo comedido nas extravagâncias, efetivamente desfrutar a independência financeira.

Mas a realidade hoje é outra, em todos os sentidos. Os juros estão bem mais baixos e tudo indica que podem cair mais. Ao mesmo tempo, o dólar sobe consistentemente, pressionando o poder de compra dos recursos que deveriam oferecer uma certa garantia contra um futuro bastante incerto.

Nesse cenário, entender o contexto é tão importante quanto tomar boas decisões de investimentos.

Juros reais negativos

juros-negativos

Eles são uma novidade no Brasil, mas fazem parte da economia europeia já há algum tempo e não apenas nos países que adotam o euro.

Se os bancos centrais (excluindo-se o Fed, que possui duplo mandato) têm por finalidade garantir a estabilidade de preços, como justificar suas políticas que penalizam cada vez mais pessoas que poupam com bastante dificuldade?

Por mais poder que tenham, a verdade é que eles contam com uma “caixa de ferramentas” com poucas opções, sendo a principal delas a política monetária, que determina a taxa de juros. Isso vale para todo mundo como a ordem cronológica abaixo demonstra:

  • 2012: o Banco Nacional da Dinamarca estabelece a taxa de -0,20% ao ano;
  • 2014: o Banco Central Europeu (BCE) adota os juros negativos, fixando-os em -0,10% ao ano;
  • 2014: seguindo os passos do BCE, a autoridade monetária suíça define a taxa básica de juros da economia em -0,25% ao ano;
  • 2015: o Riskbank (banco central sueco) fixa a sua taxa em -0,10% ao ano;
  • 2016: o Banco do Japão passa a usar a mesma taxa;
  • 2016: A Hungria segue o movimento, mas opta por uma taxa de -0,05% ao ano.

Como efeito secundário dos investidores de todos esses países correndo atrás de maior rentabilidade, até um título da brasileiríssima Petrobras entrou na onda dos juros negativos. Há não mais do que 4 anos atrás, esse mesmo papel pagava 14% ao ano, em euros!

O objetivo dessas taxas ínfimas é um só: fazer os agentes financeiros emprestarem e movimentarem a economia, que cresce a um ritmo menor pelos seguintes motivos:

  • Uma população que vive mais e, portanto, poupa mais;
  • Menor taxa de natalidade;
  • Menor crescimento do gasto público, visto que os países europeus, principalmente os que usam o euro, precisam se manter obrigatoriamente dentro das regras orçamentárias do bloco.

Ainda assim, os bancos centrais se deparam com algumas surpresas. Com juros negativos, passou a ser mais vantajoso guardar dinheiro embaixo do colchão ou até dentro de um cofre.

Para combater essa prática, o BCE até deixou de imprimir notas de 500 euros, mas a Suíça, por usar a sua própria moeda (o franco suíço) enfrentou um outro problema: a explosão na venda de cofres para uso doméstico.

O que a realidade europeia nos mostra é que, mesmo nos países ricos, a política de juros negativos fez pouco para estimular a economia. As pessoas preferem simplesmente guardar o dinheiro fora do sistema financeiro, não só deixando de consumir como também reduzindo bastante os efeitos da política monetária.


Fragilidades dos juros reais

fragilidade

Os juros nominais negativos (juros abaixo de “zero”) não fazem parte da realidade brasileira mas, com a queda da Selic já no horizonte, os juros reais negativos (quando se considera os custos e os impostos das aplicações financeiras) vieram para ficar e é nos momentos de crise que as nossas fragilidades ficam mais evidentes.

Apesar das taxas dos títulos públicos de longo prazo terem subido bastante, comprá-los nesse momento pode ser um tiro no pé. O país não só deixou de avançar em importantes reformas como agora também precisa de força política para não tornar os custos temporários decorrentes do coronavírus em gastos permanentes.

Isso quer dizer que as taxas podem subir ainda mais se não houver convicção de que as contas públicas não estão se deteriorando significativamente. Lembrando que, a cada elevação dos juros, a percepção de risco aumenta e o valor do papel cai, reduzindo o montante que o investidor recebe se decide vender.

Alternativas dos juros reais

alternativas

No que diz respeito ao mercado brasileiro, seja em títulos privados ou em ações, o investidor precisa alocar parte dos seus recursos nos setores que continuaram funcionando durante a quarentena, ou seja, já passaram pela eficiência da digitalização de seus processos:

  • Comércio eletrônico (operações de e-commerce e marketplaces);
  • Papel e celulose (produtos de higiene pessoal descartáveis e embalagens para entregas);
  • Financeiro e meios de pagamento;
  • Entretenimento e educação online;
  • Alimentos.

E que, durante o período de confinamento, ganharam novos clientes:

  • Pessoas de meia idade e poder aquisitivo que tinham dificuldade com a tecnologia;
  • Pessoas beneficiadas com contas digitais, criadas para distribuir recursos de programas assistenciais, e que passaram a fazer compras por meios eletrônicos.

Essas são as empresas com maiores chances de enfrentarem o desconhecido e inclusive ganharem market share. Afinal, não é só você, leitor, que está pesquisando preços mais baratos na internet para economizar. Todas elas estão cientes disso, de forma que estão aperfeiçoando inclusive a análise dos dados de compra. Isso justifica a participação delas nos portfólios, seja diretamente, seja via fundos.

Mesmo assim, o investidor não pode se furtar da diversificação internacional. É fato que as economias desenvolvidas possuem muito mais recursos para salvarem as suas economias. Por mais que se endividem, sempre encontram compradores para os seus papéis.

Consequentemente, as taxas de juros sobem pouco e atividade econômica retoma mais rapidamente. Nesse sentido, os investimentos internacionais oferecem ganhos, seja pela valorização dos ativos, seja pela valorização do câmbio, dado que é possível escolher a opção sem trava cambial.

Desse modo, as opções recaem sobre os fundos internacionais e os Certificados de Operações Estruturadas (COEs) oferecidos pelas principais plataformas de investimento. Escolher entre um e outro depende essencialmente de quão confortável o investidor se sente investindo em papéis de outros países.

No caso dos fundos internacionais, eles são diversificados e oferecem liquidez quase imediata. Os COEs, por sua vez, exigem prazo para o vencimento (3 a 5 anos em média), adotam ativos bem específicos e garantem o principal investido.

Além disso, existem ainda os fundos de ações que alocam parte da carteira em Brazilian Depositary Receipts (BDRs). Eles são os recibos de empresas estrangeiras negociados na bolsa local. Por boa parte deles ser destinada a investidores com patrimônio financeiro acima de R$ 1 milhão, nem todos conseguem investir diretamente.

Conclusão

O sonho de viver de renda ficou bastante difícil. Apesar de ainda não termos taxas nominais no campo negativo, novas quedas dos juros reais e o câmbio desfavorável pressionam o poder de compra de quem depende exclusivamente de suas reservas.

Fatores como mudanças demográficas e governos com restrições fiscais deixaram a cargo de bancos centrais mundo afora usarem o único instrumento que possuem, mesmo que “pesando a mão”: a política monetária.

Taxas básicas baixas forçam os agentes econômicos a emprestarem dinheiro para consumo e investimentos, fundamentais para o crescimento. O problema é que esse expediente, sem a respectiva alavanca fiscal, causa alguns transtornos como o “entesouramento” onde as pessoas guardam cada vez mais.

Esconder debaixo do colchão ou no cofre pode funcionar na Europa, mas isso seria desastroso no Brasil.  A começar pela inflação (maior), sem nos esquecer de algumas de nossas fragilidades como reformas importantes que se perderam dentro da máquina burocrática de Brasília e a ausência de um governo como o da Alemanha para nos impor austeridade.

O aumento das taxas dos títulos públicos contempla o que já é conhecido em termos dos efeitos econômicos da pandemia, mas ainda não precifica o quanto determinadas características do país podem prejudicar a retomada.

Por conta disso, o melhor mesmo é apostar na resiliência e no preparo dos setores que serviram a todos nós enquanto confinados, de forma que conseguimos nos cuidar, nos alimentar e nos entreter pesquisando as melhores ofertas com poucos cliques.

Os países desenvolvidos vão reagir mais rapidamente, o que torna fundamental olhar para outras economias na hora de fazer os recursos crescerem. O leque à disposição do investidor é bastante amplo e depende mais de seu perfil, seus objetivos e suas preferências pessoais.

Fundos internacionais, operações estruturadas e ações de empresas estrangeiras se valem da força das grandes multinacionais, independentemente de as fronteiras estarem fechadas.

“Primeiro sobreviva; deixe para ganhar dinheiro depois.”

George Soros

Avalie esse texto e nos ajude a melhorar cada vez mais.

Leia também:

Sobre o autor

  • Nohad Harati
  • Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

Deixe seu comentário aqui

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Deixe seu e-mail e receba conteúdos antes de todo mundo.

100.000 investidores já fizeram isso!