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Saiba como especular com o tesouro direto em 2019

Por:
26/02/2019

Já fizemos um texto aqui em que destacamos que não são só os preços de renda variável ou de ações que oscilam, os preços dos títulos também variam.

Sim, esses mesmos títulos que são adquiridos no Tesouro Direto.

Quando falamos que renda fixa é um investimento seguro, isto leva em conta que o investidor carregue o título até seu vencimento, de forma que ele deverá pagar o retorno da taxa de juros acordada.

No entanto, no meio tempo entre a compra do título e seu vencimento, seu preço oscila bastante e é possível ter ganhos (e perdas) com esse processo.

No texto de hoje, descrevo um cenário em que se pode especular com o Tesouro e aferir esses ganhos.

Por isso, continue lendo para saber mais sobre:

Mecanismo básico de preço de títulos públicos

Mecanismo básico de preço de títulos públicos

Primeiramente, para entender todo o resto do texto, é importante entendermos que:

  1. Os preços dos títulos também flutuam no mercado secundário, isso não é uma particularidade de renda variável; e
  2. É possível realizar venda antecipada e aproveitar essa variação de preço. O preço de um título segue a fórmula padrão e básica de juros compostos:

Onde:

M= Montante (também conhecido como Valor Futuro ou Valor de Face), ou seja, o valor disponível no vencimento da aplicação;
C= Capital (também conhecido como Valor Presente) ou o dinheiro investido na data da compra do título;
i= a taxa de juros;
n= período até o vencimento do título.

Desses quatro parâmetros, 2 são dados: o M e o n.

O montante (M) é sempre definido e tem um valor predeterminado que o título deverá ter no final do período. Em geral, esse valor é R$ 1.000,00.

O prazo do título (n), se altera apenas conforme o tempo passa.

Assim, os parâmetros que flutuam são o capital e a taxa de juros.

Como estamos interessados no preço do título, vamos rearranjar a fórmula para isolar o C:

Daí, conseguimos extrair uma relação importante e que vai nortear nossa discussão hoje.

Por exemplo, suponha um título em que o montante seja de R$1.000,00, o prazo de dez anos e a taxa de juros negociada seja de 10% ao ano.

Calculando o preço desse título hoje, teremos C=1.000,00/(1+10%)^10. Ou seja, nessas condições o preço (C) será de R$ 385,54.

Agora imagine que a taxa de juros caia para digamos 5%. Recalculando: C=1.000,00/(1+5%)^10, o novo resultado será R$ 613.91.

Apenas para exemplificar com números a relação inversa que falamos e que será importante ter em mente: quando a taxa de juros cai, o preço do título aumenta.


Como o cenário atual influencia o Tesouro Direto

Como o cenário atual influencia o Tesouro Direto

A atual discussão econômica não é outra, senão a reforma da previdência.

Passamos por um problema fiscal gigantesco, no qual desde 2015 temos déficits primários recorrentes e a perspectiva é que ainda teremos isso nesse ano.

E o déficit da previdência é gigantesco!

É claro que apenas essa medida não resolverá todos os problemas, mas ataca uma fonte grande de nosso déficit fiscal.

Mas o que isso tem a ver com a oscilação da taxa de juros?

Bem, vou ter de recorrer às minhas aulas de economia novamente e vou tentar ser o mais simples possível.

Precisamos entender duas coisas:

i) a dinâmica que a parte de finanças públicas tem na inflação; e

ii) que a taxa de juros é o controle primário que o Banco Central tem para controlar a inflação.

Sobre o primeiro ponto, uma das causas que grandes economistas usam para explicar o porquê temos inflação crônica é o descontrole fiscal que o país tem. Ou seja, com uma situação fiscal desequilibrada, a inflação tende a acelerar.

O segundo ponto é que o controle primário de inflação é feito através da taxa básica de juros. Quando a inflação sobe, o Banco Central eleva a taxa Selic e vice-versa.

Portanto, um cenário de aprovação da reforma da previdência e consequente endereçamento de grande parte dos problemas fiscais, nos levaria a um ambiente de inflação mais controlado.

Assim, a necessidade de utilizar a ferramenta de elevação de taxa de juros para controle da inflação seria muito menos necessária no futuro.

É por isso que já vimos uma redução importante das taxas futuras de juro, postas na curva DI. Lembre-se que existem derivativos para “apostar” em como será a taxa de juros no futuro.

Dei toda essa volta, mas agora vou retomar a relação básica que vimos no começo: queda de taxa de juros, significa aumento dos preços dos títulos.

Assim, um cenário de aprovação da reforma da previdência poderia a turbinar os preços dos títulos.

A aprovação da Reforma da Previdência e o Tesouro Direto

Reforma da previdência e o tesouro direto

Como você pode notar, tudo isso é muito dependente da aprovação de uma reforma importante, que é a previdenciária.

Agora, é preciso entrar um pouco na parte política, que é o que deve determinar se esse cenário ocorreria ou não.

Por ser uma mudança profunda, a reforma previdenciária é enviada ao congresso como um Proposta de Emenda Constitucional (PEC). Esse tipo de projeto, como o nome diz, altera as leis que regem o nosso país, ou seja, a constituição.

Acho que por aí já podemos perceber o quão importante é essa medida.

Assim, por tamanha relevância, PECs exigem o que chamamos de maioria qualificada para ser aprovada. Isso é, não basta ter maioria absoluta (mais da metade) no congresso para aprovar uma PEC.

Ela exige a autorização de uma parte maior do congresso: 3/5 dos congressistas precisam autorizar uma PEC.

Isso significa que para aprovar tal mudança, 308 dos 513 deputados precisam votar a favor e no senado, 49 dos 81 senadores também precisam ir na mesma direção.

Acho que deu para perceber a dificuldade né?

Mas, embora seja difícil, também não é impossível.

Afinal, se voltarmos pouco tempo atrás, essa reforma esteve próxima de ser aprovada já no governo Temer. Ocorreu que o escândalo da JBS acabou não permitindo que isso acontecesse.

Assim, o debate sobre a importância desse tema já está muito consolidado. Mesmo deputados de oposição já admitem a necessidade dessa reforma.

Ou seja, o nosso problema fiscal chegou a tal tamanho, que existe um consenso que precisamos fazer algo.

No entanto, é importante que a reforma aprovada seja “dura” para de fato resolver o problema.

O governo enviou uma reforma bastante robusta, mas sabemos que o congresso sempre dilui um pouco as medidas que chegam lá.

Portanto, na hipótese de uma reforma suficiente sendo aprovada, podemos ver novamente um rally nas taxas de juro e, consequentemente, uma alta nos preços dos títulos públicos e privados.

E o inverso é verdadeiro: um atraso ou mudança crítica na reforma da previdência, poderia fazer com que os juros voltassem a subir, derrubando o preço dos títulos.

Política sempre é imprevisível e existem grandes riscos envolvidos nessa lógica. Por isso é importante saber o que está fazendo e ter convicção das consequências de cada tomada de decisão.

Conclusão

Os preços dos títulos variam conforme variam as taxas de juros. A venda antecipada é uma forma de se ganhar dinheiro “especulando” com títulos públicos.

Hoje temos um ambiente em que a queda (ou alta) das taxas de juros pode causar a elevação (ou queda) dos preços dos títulos. Isso seria possível com a aprovação (ou não) de uma reforma da previdência robusta em que grande parte de nossos problemas fiscais seriam resolvidos.

A política, assim, desempenhará um papel relevante para os mercados. É por isso que o acompanhamento dos jornais é feito de perto por gestores hoje em dia.

Vale ressaltar que esse texto tem propósito exclusivamente educacional, ao demonstrar na prática como o cenário econômico e político influenciam no preço dos títulos, gerando ganhos através de negociações de títulos públicos no mercado secundário.

Esse texto não é uma recomendação e a tomada de decisões deve ser de responsabilidade única e exclusiva do investidor.

Se ficou com alguma dúvida adicional ou quer contribuir mais com o assunto, comente abaixo!

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Sobre o autor

  • Vinicius Alves
  • Economista, atuou no departamento econômico de empresas de sell side no mercado financeiro. Já foi Top-5 de projeção de inflação de curto prazo do BC.

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10 Comentários

  • Avatar Cortijo disse:

    Excelente artigo!
    Estou cogitando especular no Tesouro IPCA. A grande dúvida é o que fazer com o lucro obtido da venda.
    Já que atualmente existe a escassez de bons CDBs, reaplicar esse lucro no Tesouro SELIC seria uma boa opção?

  • Avatar Victor disse:

    Bom dia! Primeiramente parabéns pelo texto!
    Atualmente tenho alguns títulos do tesouro IPCA com vencimento em 2035 comprados entre 2014 e 2018. Com as mudanças nos valores destes títulos em decorrência da taxa de juros obtive um ganho em torno de 55% caso eu faça a venda antecipada.
    Meu intuito é renda para aposentadoria na data de vencimento, seria vantajoso eu realizar a venda destes títulos e recomprar ainda que tenham uma taxa de rendimento mais baixa atualmente (+- 1,8% ao ano menor do que quando comprei)? Ou eu teria que realocar esse valor em algum outro investimento? Quais seriam opções plausíveis?

    Desde já agradeço!

    • Oi Victor!

      Tudo vai depender exatamente das suas expectativas em relação ao futuro mesmo. Se, por exemplo, você considerar que os juros não vão cair mais e vão se manter estáveis por algum tempo, talvez seja um bom negócio realizar esse lucro e realocar os recursos em ativos de renda variável como ações ou fundos multimercado, por exemplo. Mas claro, isso se você também tiver uma visão positiva em relação à evolução do mercado de ações.

      No fim se resume a isso: você tem títulos em carteira de longo prazo com uma boa taxa real de juros. Vale a pena trocar se você considerar que vai antecipar essa diferença de juros que vai receber ao longo do tempo e vai reaplicar em algo que renda mais que a Selic de hoje.

      Grande abraço e bons investimentos!

  • Bom dia,

    Embora eu já tenha entendido que o preço a mercado pode ser maior que o linear contratado eu tenho uma duvida se vale a pena antecipar a venda. Primeiro porque atualmente não há títulos públicos com juros muito atraentes inclusive há expectativa de queda. Gostaria que comentasse estes dois pontos. Há a possibilidade de queda de juros hj em 6,5% e então este título valorizaria ainda mais e sobre a falta de opções na renda fixa que se equiparem ao contratado anteriormente. Teria que pegar o dinheiro e arriscar na renda variável?
    Obrigado e parabéns pelo blog

    • Olá Renato, ótimas perguntas!

      Em relação à queda do titulo, você não estaria perdendo nada vendendo ele agora, pois estaria antecipando um ganho futuro que ele teria. Ou seja, melhor colocar o ganho no bolso agora do que eventualmente o juro futuro subir e perder esse ganho excedente que está tendo agora.

      Com isso também já vem a resposta do porque resgatar agora em um momento de juro baixo, sendo que você não vai encontrar títulos de renda fixa em taxas compatíveis. A ideia é que você pode aplicar em títulos pos-fixados (mais seguros) aguardando uma eventual oportunidade de compra melhor de RF no futuro ou realmente entrar em renda variável que é onde tende a ter uma performance maior no momento de juros baixos.

      É claro que, se a perspectiva é de novas quedas na taxa de juros, vale a pena esperar isso se concretizar e realizar esse movimento depois mesmo. Mas, caso essa expectativa se altere, aí o movimento volta a fazer sentido agora.

      Se ainda não estiver claro, sinta-se à vontade para perguntar pra gente.

      Grande abraço e bons investimentos!

  • Avatar Marcos Veríssimo Alves disse:

    Olá,

    Gostei muitíssimo do texto. Finalmente um texto “for dummies” como eu, que (ainda) não entendo tanto de economia.

    Uma pergunta “dummy”: a mesma relação de taxa/preço (alta da taxa = baixa de preço e vice-versa) também se aplica às taxas e preços de negociação dos títulos? Tenho a impressão que essa também é uma relação importante para poder decidir quando comprar e vender um título. Peço desculpas se a resposta já está no próprio texto, mas acabei não percebendo se está ou não.

    Grande trabalho, parabéns.

    Um abraço,

    Marcos

  • Avatar Ernesto azevedo filho disse:

    Bom dia,

    O texto ainda que bem desenvolvido nos traz um erro primário, quando diz que precisariam de 41 votos no Senado para aprovação da PEC.
    São 81 senadores, e 3/5 são, portanto, 49 votos a favor da PEC.