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Alocação de ativos: Investimento com base em metas

Por:
02/10/2019

Seguindo a série de textos que introduzem para o leitor alguns métodos de alocação de ativos, falaremos agora do método conhecido como Goal-Based Investing (GBI). Ele é bem menos formal que aquele proposto em O caso Markowitz , mas não deixa de ter uma lógica bastante interessante.

O Goal-Based Investing (GBI)

Goal Based Investing, ilustração.

O investimento baseado em metas (ou objetivos) é uma abordagem relativamente nova para o gerenciamento de recursos, enfatizando que o seu investimento tem por objetivo de atingir metas de vida especificados a priori.

Exemplos óbvios: acúmulo de recursos para a educação dos seus filhos, uma aposentadoria tranquila, aquela viagem longa de um mês no país estrangeiro e etc.

Parece óbvio, mas perceba que o objetivo aqui tem uma definição bem menos evasiva, diferente dos casos comuns de alocação em que o objetivo do investimento é buscar o maior retorno possível, bater o desempenho do mercado e assim por diante.

Em um exemplo anedotal, pense num investidor que está ansioso por se aposentar dentro de um ano e, portanto, não pode segurar uma perda de 15% em sua carteira. Se o mercado em que ele está recuar 25% neste certo ano e a carteira desse investidor cair "apenas" 15%, o fato dele ter superado o mercado em 10 pp não é bom para o seu objetivo. Não é bom para o Goal-Based Investing.

Desta forma, o nível de risco em que a carteira desse investidor será exposta está diretamente atrelada ao objetivo. Se precisa de uma boa quantia para os próximos 5 anos, provavelmente o nível de risco será maior do que aquela carteira com o foco numa aposentadoria daqui 20 ou 30 anos.

Desta forma, podemos ressaltar também que o GBI pode ajudar a reduzir o número de tomadas de decisão impulsivas e emocionais, com base nas flutuações diárias (e as vezes sem sentido) do mercado, dado que seu objetivo e meta já está muito bem estabelecido.

Para se ter noção como o mercado desse tipo de alocação cresceu, já temos empresas como a Ellevest que focam as suas estratégias de investimento baseadas em metas, adaptadas às mulheres neste caso específico.

O mais interessante é que a Ellevest desenvolveu algoritmos para gestão de patrimônio que leva em conta as flutuações na renda das mulheres ao longo do tempo, por fase de vida, além da diferença salarial por gênero. A empresa não promete superar índices como S&P 500 ou outro benchmark, mas sim trabalhar para desenvolver carteiras de investimentos específicos para cada objetivos de vida dessas mulheres, que passarão por períodos tão diferentes ao longo de sua vida.

Perceba que a situação é diferente de ter por objetivo conseguir maior retorno por unidade de risco, como se é feito tradicionalmente.

No nível mais avançado de GBI, as metas podem ser categorizadas como “para consumo” ou “para presentes”. Fora dessas categorias, seus ativos não têm outra finalidade senão financiar impostos e despesas. Portanto, cabe ao gestor ou investidor identificar o tempo de vida dessas metas e alocar intencionalmente ativos para financiar eles de forma eficientemente.

A tabela abaixo ilustra de uma forma bem simplificada e resumida as diferenças entre os métodos mais matemáticos de análise de risco para alocação e o GBI.

 Goals-based investingAlocação baseada no risco
Definição de riscoFalha em atingir o objetivo (ou uma grande % dele)Desvio padrão (volatilidade) do histórico de retornos de um dado ativo
Gestão de riscoDiversificação, hedging, seguro, perdas limitesDiversificação, hedging
Mensuração de performanceProgresso em relação à metaDesempenho relativo ao benchmark
Construção de carteiraMaior probabilidade de um resultado positivo para o cumprimento da meta, carteiras distintas para cada metaMaior retorno dado ao nível de risco, carteira única

Elaboração de Arthur Lula para Mais Retorno


Pontos relevantes do goal-based investing

Pontos relevantes do GBI, ilustração.

Nova referência de desempenho

Com o GBI, a gestão dos investimentos busca uma “meta com probabilidade de sucesso” aceitável. Isso significa que, se um indivíduo está confortável com uma probabilidade de 90% de sucesso para atingir seus objetivos, então uma carteira é estabelecida para atingir e manter essa referência de sucesso.

Claro, a carteira é fruto da análise do gestor ou investidor e obviamente pode subestimar ou superestimar essa probabilidade, dependendo da metodologia usada.

A mensuração do desempenho da carteira em relação a algum índice de mercado é uma preocupação secundária, que pode ocorrer eventualmente, pois fornece poucas informações sobre se um indivíduo está no caminho certo para atingir seus objetivos financeiros.

Protege contra os "piores casos"

Falando em probabilidade, embora as carteiras devam ser construídas para ajudar as pessoas a realizarem seus sonhos, sua gestão também deve evitar pesadelos. Essas metas de probabilidade de resultado são desenvolvidas para ajudar a evitar perdas desproporcionais que podem resultar em danos irreparáveis ​​à conquista das metas de longo prazo.

O problema é que quando você vai para o “mundo probabilístico”, há um intervalo de acontecimentos e esperar 80% de sucesso pode implicar, dependendo da carteira e do horizonte, em uma volatilidade grande (ex: conseguir R$ 1 mil, tendo investido R$ 500 em apenas 6 meses).

Estabelece metas contínuas de curto prazo

O GBI considera que as metas de longo prazo são atingidas quando as metas de mais curto prazo são conquistadas ao longo do tempo.

O estabelecimento de metas de curto prazo serve a dois objetivos muito importantes: a) Proporciona rápida identificação de possíveis erros, permitindo alterações no “plano de voo” para as metas; b) cria uma disciplina valiosa para manter um foco nos objetivos de longo prazo.

Goal-based investing: benefícios e limitações

Benefícios e limitações do GBI, ilustração.

O benefício do investimento baseado em metas é a possibilidade de adaptar sua estratégia de investimento para atender às suas necessidades da vida, do mundo real. O fato de termos uma (ainda generosa, comparado ao resto do mundo) aposentadoria pública pode ter feito o brasileiro médio não desenvolver planos de investimento de longo prazo, ainda que todos nós quiséssemos ter uma boa aposentadoria lá na frente.

O outro benefício GBI é um pouco mais psicológico. Na literatura, podemos buscar Nevins (2004), Brunel (2003) e Chhabra (2005), que relatam os Goal-Based Investing que são influenciadas por Finanças Comportamentais.

Essas abordagens incorporam a probabilidade de você ter um resultado negativo como uma definição de risco. Fica claro que as carteiras resultantes podem apresentar desempenho abaixo do ideal quando visualizado a partir da perspectiva das teorias consideradas mais modernas para portfólio, visto o perfil mais conservador dessas carteiras.

O ponto, segundo os autores, é que o GBI atenua o viés comportamental e fornece uma estrutura de tomadas de decisão (em tese) mais racionais, o que deve levar a melhores resultados. Thaler (1985) e Shefrin e Statman (2000) sugerem que os investidores considerem suas carteiras compostas por coleções de “contas mentais” (mental accounts), em que cada uma deve financiar uma meta, o que é frequentemente visto naqueles que aderem ao GBI.

Efeitos comportamentais interessantes são relatados. Por exemplo, se você sabe (tem a completa ciência) que está economizando dinheiro para uma casa, é menos provável que o gaste em uma roupa ou algum supérfluo.

Ainda assim, o perigo do investimento baseado em metas é que você talvez não saiba completamente quais são suas metas hoje ou então quais serão suas reais preferências amanhã. Não conseguimos prever o quanto mudaremos na próxima década e, por sua vez, isso pode ter um efeito distorcido em nossos objetivos e como planejamos nossa carteira para eles.

Por isso metas de mais longo prazo e (as vezes) mais genéricas, como o caso da aposentadoria, costumam ser melhores.

Por exemplo, agora, você pode desejar uma aposentadoria não tão robusta, mas que permita comprar um sítio no interior do seu estado. O que acontece se investir apenas o suficiente para comprar um pequeno terreno e depois mudar de ideia em 20 anos e precisar de mais dinheiro? E se o terreno não tiver valorizado tanto quanto o necessário?

É também por isso que aqueles que suportam o GBI sugerem a reavaliação das metas regularmente e alterar sua estratégia de investimento conforme apropriado.

Outro ponto negativo é a ainda escassa evidência positiva para esse tipo de gestão. Faltam exemplos e estudos de caso de sucesso, que passaram por uma rigorosa análise da comunidade financeira e da comunidade acadêmica, ou seja, todos os peer-reviews do mercado que envolvem gestão de carteira.

Como é uma gestão ainda muito artesanal, ainda há bastante incerteza em relação ao seu sucesso ou se é realmente preferível à métodos já consagrados e mundialmente reconhecidos (como as derivações que vieram do modelo teórico do Markowitz).

Conclusão

Naturalmente o leitor percebeu que essa abordagem e visão de investimento é rigorosamente diferente daqueles que buscam otimização de carteira buscando maiores retornos.

A teoria por trás do GBI sugere que os investidores se preocupam com o retorno esperado de cada carteira, que tem cada meta por trás, mas, em vez de medir o risco usando o desvio padrão dos retornos esperados (volatilidade), usam a probabilidade de não atingir o nível limite de sua mental accounts como a medida de risco.

É como se cada mental accounts tenha sua própria fronteira eficiente ou um conjunto de carteiras ideais, trocando entre o retorno esperado e a probabilidade de não atingir um nível limite “aceitável” de seu objetivo. O investimento baseado em metas tenta ser uma mudança de paradigma para os investidores em termos de gestão de carteira, ainda que careça de mais dados, estudo e evidências positivas.

De certa forma os investidores medianos já praticam (ainda que inconscientemente) um pouco de GBI, mas precisariam de uma dedicação maior, ou um suporte profissional, para afinar tudo muito bem na ponta do lápis as metas, as regras e os horizontes, para ter um planejamento financeiro de acordo com o que essa linha de gestão propõe.

Descomplicando a Bolsa de Valores

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Sobre o autor

  • Arthur Lula Mota
  • Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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