Outros

Olá! Seja muito bem-vindo a este novo espaço na Mais Retorno, que explicará de forma simples e direta o que ocorre com o dólar e com os principais índices de confiança.  A ideia é termos um canal direto de comunicação e gostaria de receber sugestões, críticas e opiniões. 

Há 16 anos acompanho diariamente o mercado financeiro global com o objetivo de orientar os clientes da consultoria Wagner Investimentos, que buscam informações sobre diversos ativos como bolsas (Ibovespa, S&P, Nasdaq, Dax, Shanghai e outras); juros nos Estados Unidos e no Brasil; moedas internacionais (dollar index, euro, libra esterlina e outras) e commodities (alumínio, cobre, açúcar, café e outras).

Porém, há uma preocupação em comum: o dólar no Brasil. Assim, nasceu a ideia deste espaço: passar um pouco da minha experiência a todos vocês. 

A ideia é postar todas as segundas-feiras uma análise do que ocorreu nos dias anteriores, mostrar o que fez a nossa taxa de câmbio variar, e apontar os próximos eventos que poderão interferir na nossa moeda. Além disto, comentar um pouco da história da nossa moeda nos últimos anos e analisar os índices de confiança (muito importantes para analisar o desempenho futuro da economia) e alguns insights sobre inflação. 

Dólar/real: uma longa história de desvalorização

Fazendo uma comparação entre as principais moedas globais, o dólar/real e a lira turca estão disputando o “pódio” de moeda mais desvalorizada desde o início da pandemia da Covid-19. O gráfico abaixo é bem elucidativo:

As moedas da Turquia e do Brasil sofreram desvalorização perto de 40% desde o final do ano de 2019. No momento, o dólar/real está com a medalha de “prata”, ou seja, é a segunda mais desvalorizada. Observe que as moedas da Colômbia, México e África do Sul tiveram desvalorização média de apenas 6% e a moeda do Chile se valorizou 5%, mas é importante lembrar que o peso chileno foi bem castigado pela onda de protestos no último trimestre de 2019.

Observação: o Dollar Index (DXY) é uma cesta de moedas que foi criada em março de 1973 e media a desvalorização do dólar norte-americano contra uma cesta de dez moedas, que eram: libra esterlina, yen japonês, dólar canadense, coroa sueca, franco suíço além do marco alemão, franco francês, florim neerlandês, lira italiana e franco belga. Estas cinco últimas moedas foram substituídas pelo euro em 1999. Abaixo a composição do DXY (ou dixie).

Se a moeda brasileira tivesse seguido a desvalorização média de 6% das moedas da Colômbia, México e África do Sul, a cotação deveria ser de aproximadamente R$4,30, muito abaixo dos R$5,49 do fechamento da sexta-feira, dia 23 de abril. Mas, afinal, por que o real se desvalorizou tanto e tão pouco tempo?

 Essa não é uma resposta simples para responder e iremos neste artigo e em outros explicar de forma bem detalhada os principais fatores, que antecipadamente são: perda do grau de investimento, queda da taxa de juros, permissão para as empresas manterem os dólares fora do país, instabilidade institucional, correlação com as commodities, ESG e aumento do risco país medido pelo CDS de 5 anos.

Um pouco de história

Observe no gráfico abaixo como o dólar/real a partir de meados de 2012 começou a se desvalorizar de forma mais forte e brigou com a moeda da África do Sul até início de 2018 pelo “título” de mais desvalorizada e depois levou o título! Vou citar apenas dois fatores neste momento: 

  1. Queda da taxa Selic: em agosto de 2011 iniciou-se um ciclo importante de queda da taxa Selic. Esta taxa caiu de 12,50% nesta data para 7,25% em outubro de 2012. E ocorreu outro ciclo de baixa, que começou em outubro de 2016 e terminou muito recentemente. No momento, estamos em ciclo de alta dos juros, mas é muito provável que para um patamar de juros muito abaixo da média histórica.
  2. Perda do rating de “grau de investimento” a partir de setembro de 2015 (Standard & Poor’s), fato que afastou investidores institucionais do País.

Para não prolongar muito, vou parar por aqui hoje e retomar nas próximas edições esses fatores, inclusive detalhando mais. 

Momento atual

O dólar/real está em um nível de sustentação muito importante. Se o dólar/real começar a ser negociado abaixo da cotação mínima mostrada no gráfico abaixo (R$5,42) há chances de a moeda americana cair em direção a R$5,30 e R$5,20. A linha horizontal pontilhada de cor preta é o “gatilho de reversão” do gráfico proprietário da Wagner Investimentos: abaixo dela é uma tendência de baixa e acima é uma tendência de alta, situação que observamos desde a segunda semana deste ano. 

A perda de R$5,42 (é preciso ter volume relevante abaixo deste nível por pelo menos um dia) deve fazer com que os investidores abandonem a posição comprada e prefiram vender dólares por um determinado período, fato que pode abrir uma boa oportunidade de comprar dólares mais baratos em alguns dias ou semanas. 

Vamos acompanhar! Temos eventos muito importantes nos próximos dias e destaco quatro que podem afetar esta dinâmica:

  1. Reunião do FOMC (comitê de política monetária do Fed) no dia 28 de abril, quarta-feira. Muito provavelmente os diretores do Fed manterão os juros estáveis e perto de zero e o mesmo patamar de compra de ativos;
  2. Divulgação do índice PCE (Personal Consumption Expenditures Price Index) que é a inflação analisada pelo Fed. Este índice é parecido com o nosso IPCA, mas não temos nenhum índice de inflação equivalente ao PCE no Brasil. Acima de 2%, principalmente o núcleo do índice (que retira a variação dos preços de alimentos e combustíveis), maior a chance do Fed apertar a política monetária;
  3. Reunião do Copom (comitê de política monetária do BC) no dia 05 de maio, que deverá subir a taxa Selic de 2,75% para 3,50%;
  4. Non-farm-payroll (criação de vagas de trabalho) nos Estados Unidos no dia 7 de maio. Quanto maior o número de vagas criadas, maior a chance de o Fed apertar a política monetária.

Assim, iremos acompanhar a evolução do mercado nos próximos dias. Eventualmente o dólar/real pode ter um repique para a região entre R$5,54 (linha azul, que indica o preço médio dos investidores de curto prazo), mas isto não desarma o provável movimento de queda.

Desejo a todos uma ótima semana e bons negócios!

Abraços,

José Faria Júnior

Disclaimer: este material foi elaborado com a exclusiva finalidade de apresentar conteúdo meramente indicativo, não devendo, em nenhuma hipótese, ser interpretado como um texto, relatório de acompanhamento, estudo ou análise sobre câmbio ou valores mobiliários que possam auxiliar ou influenciar no processo de decisão. As informações utilizadas para a sua elaboração foram obtidas de fontes públicas consideradas confiáveis e de boa fé, porém não há nenhuma garantia, expressa ou implícita, sobre mudanças, que não implica na obrigação de qualquer comunicação no sentido de atualização ou revisão com respeito a tal mudança. Desta forma, a Wagner Investimentos e o analista envolvido em sua elaboração não aceitam responsabilidade por qualquer perda direta ou indireta decorrente da utilização do conteúdo deste documento. 

Imagem do autor

José Raymundo de Faria Júnior é economista graduado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Administração pela Fecap. Sócio desde 2006 da Wagner Investimentos, possui as certificações financeiras CFP®️, CNPI, CGA e é Consultor de Valores Mobiliários.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Visualizar Comentários

Outros
Finanças Pessoais
Empresa
Outros
Veja mais Ver mais