Finanças Pessoais

Por mais que nenhum investidor de renda variável confesse seu péssimo hábito de comprar ações na alta e vender na baixa, isso é o que mais acontece no dia a dia da Bolsa de Valores. A situação de perder dinheiro, sem a menor noção do prejuízo, é tão crítica que tal fenômeno virou tema de estudo na chamada Finanças Comportamentais.

Hábito de jogar dinheiro pela janela
O hábito de comprar na alta e vender na baixa é mais comum do que se pensa - Foto: Dylan Gills/Unsplash

A própria disciplina de Finanças Comportamentais surgiu da necessidade de discutir a relação entre a razão e os sentimentos (de pânico ou euforia) desenvolvidos pelo investidor no momento de operar no mercado. O objetivo era descobrir por que a maioria das pessoas não consegue manter a disciplina e objetividade, mesmo sabendo do grande risco de obter prejuízo?

Uma das respostas estaria relacionada com a infância desses investidores que, na ausência das aulas de Educação Financeira, não aprenderam a lidar bem com os seus ganhos. Se nos dias de hoje, vemos crianças guardando o dinheiro que eventualmente recebem da família a fim de comprar algo de maior valor no futuro, no século passado, a mesma quantia era consumida em menos de 24 horas. Afinal, a criança, no passado, encarava o recebimento do dinheiro como algo “inesperado” e, por isso, tudo bem se ele fosse gasto com qualquer bobagem inútil.

Presos à armadilha do inconsciente, muitos indivíduos repetem até hoje esse raciocínio. No mercado de capitais, tomam decisões muito arriscadas, sobretudo quando o valor gasto naquela operação veio de um lucro “inesperado” recebido anteriormente.

Mas isso não acontece apenas no Brasil. Há estudos em diversas partes do mundo que comprovam a influência da emoção no mercado de ações. Em Hong Kong, pesquisadores relacionaram o comportamento de quem aposta nas loterias e com o daqueles que operam na Bolsa de Taiwan. A conclusão foi impressionante: nos dias em que a loteria oferecia um prêmio acumulado e muito alto, a volatilidade e o número de negócios na Bolsa de Valores diminuíam. Esse efeito era mais frequente ainda nos preços das ações preferidas pelos investidores individuais do país, as small caps, que giram bastante no mercado, por vezes, com altos retornos.

Quando notaram que o entusiasmo da compra do bilhete lotérico substituía diretamente a emoção de operar na Bolsa, os pesquisadores deduziram que muitos investidores, ao tomar essas iniciativas, olham unicamente para os retornos passados. No caso da loteria, eles se imaginam no lugar dos ganhadores de apostas anteriores. Já no mercado de capitais, vai importar somente o histórico de valorização do ativo.

Está claro que esse processo simplificado de decisão não é razoável para quem quer ganhar dinheiro. No caso dos fundos de investimento, a pessoa física também pode se perder na emoção ao fazer uma escolha apenas enxergando o produto que teve o melhor desempenho até o momento. Uma saída para quem sofre deste mal seriam os fundos que usam processos sistemáticos para construção do portfólio. Outra ação para blindar o descontrole emocional estaria na alta diversificação dos investimentos.

A questão é que poucas pessoas conseguem fazer essa autocrítica e continuam tratando o investimento como uma diversão semelhante à expectativa de ganhar na Mega-Sena. Ora, fazer um investimento não é um modo de se divertir, mas sim um trabalho.

Se você quer parar de brincar com seu dinheiro, mantenha-se bastante informado sobre os produtos escolhidos e procure um profissional para ajudá-lo a manter o equilíbrio durante um período de baixo retorno. Aprender sobre investimento pode ser divertido, mas o processo em si deve ser feito de forma bastante séria.

*As opiniões contidas nesse artigo são do autor do texto e não necessariamente refletem a opinião do Mais Retorno.

Imagem do autor

Luciano Boudjoukian França (CFP®️) economista pela FEA-USP, Pós-Graduado em Finanças, Mestre em Economia pelo Insper e sócio da Avantgarde Asset Management.

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