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‘O custo que não vemos’: Dahlia Capital fala sobre o custo social do carbono

Este custo representa o valor atual de todo o dano futuro causado pela emissão de uma tonelada de dióxido de carbono na atmosfera

Data de publicação:10/11/2021 às 07:00 -
Atualizado 6 meses atrás
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Na edição de novembro de sua carta aos investidores, a gestora Dahlia Capital destacou, uma vez mais, os eventos mundiais focados na preservação do meio ambiente e os impactos para a economia.

O documento, intitulado "o custo que não vemos", fala sobre os preços que vão além da escalada da inflação observada tanto no Brasil quanto no exterior, mas que refletem o custo social da emissão de gás carbônico e outros gases do efeito estufa na atmosfera.

Foto: envato dahlia capital
Símbolo do dióxido de carbono | Foto: Envato

A gestora destaca que há uma "grande expectativa sobre os resultados e compromissos" vindos da COP26, reunião organizada pela ONU, que acontece até esta sexta-feira, 12 de novembro, para que diversos representantes da sociedade reflitam e desenvolvam estratégias para o combate das mudanças climáticas. "Porém, há também um ceticismo sobre a viabilidade e o cumprimento das metas", comenta.

O custo das coisas

A carta começa lembrando que a maior parte dos fatores que tem levado a uma inflação mais alta no Brasil tem impactado, também, os outros países. "Rupturas em cadeias de suprimento, preços mais altos de petróleo e outras commodities e um dólar mais forte são sempre apontados como os principais fatores para a alta dos preços", afirma a gestora.

Para a Dahlia Capital uma inflação "persistentemente alta precisa ser combatida", já que ela corrói a renda dos consumidores e reduz o poder de compra das pessoas, gerando uma tendência de empobrecimento para o País ao longo do tempo.

"Há contudo um outro custo que não vemos refletidos nos preços dos produtos que consumimos. O consumo de um litro de gasolina, por exemplo, emite 2,5 quilos de gases de efeito estufa (GHG) na atmosfera. A carne bovina é a proteína que mais emite GHGs, com estimados 60 quilos de GHGs por quilo de carne", ressalta o documento.

De acordo com a gestora, em valores de mercado, esse custo decorrente da emissão de GHGs corresponderia a cerca de R$1 por litro adicional na gasolina e R$25 a mais em cada quilo da carne. Há ainda um outro cálculo mais complexo.

Custo social do carbono

A Dahlia Capital explica também sobre o custo social do carbono. "Este custo representa o valor atual de todo o dano futuro causado pela emissão de uma tonelada de dióxido de carbono na atmosfera. Um custo mais alto demandaria regulamentações mais rigorosas das emissões", afirma.

"Este é um cálculo complexo. Além de todas as incertezas sobre o crescimento econômico e populacional, o dióxido de carbono fica mais de um século na atmosfera. A taxa de desconto utilizada para trazer os impactos futuros para o valor presente (quanto menor, maior o valor presente) tem também um impacto brutal", destaca a gestora.

O documento pontua que, a partir de uma taxa de desconto real de 3%, o custo social do carbono seria de US$61 por tonelada. Reduzindo para 2%, esse número subiria para US$168. Ou seja, R$2 por litro a mais na gasolina e R$55 por quilo na carne.

"Esse alto impacto nos consumidores e nas empresas nos faz acreditar que um imposto puro sobre emissões de carbono seja politicamente pouco provável no curto prazo", considera a Dahlia. Para a gestora, um dos caminhos para a redução de emissões de carbono é o avanço de novas tecnologias.

A instituição ressalta, ainda, que, de acordo com um estudo do Bank of America, em 30 anos, cerca de US$ 150 trilhões serão investidos para zerar as emissões líquidas dos gases de efeito estufa em todo o planeta. A carta pondera que, caso esse investimento se concretize, a inflação global poderia crescer entre 1 e 3%.

Cenário macroeconômico brasileiro

Saindo um pouco da perspectiva global e olhando para o cenário doméstico, a Dahlia Capital destaca que, desde o final de junho, a bolsa caiu 17%, o dólar subiu 15% e a taxa de juros de 10 anos subiu de 9,0% para 12,4%. "Os motivos para isso são frequentemente discutidos nos jornais: o risco de racionamento de energia, a alta da inflação, o furo do teto dos gastos e a proximidade das eleições", comenta.

Apesar dos pesares, a gestora considera que "nem tudo é tão ruim quanto parece ser". O documento ressalta que muitos dos riscos vistos pelos investidores em relação ao Brasil, provavelmente, já foram precificados nos ativos brasileiros, enquanto alguns aspectos podem estar sendo ignorados.

Para a Dahlia, os juros reais negativos tiveram um impacto positivo na dívida pública do País: se há um ano, as projeções eram de um relação de 95% entre a dívida bruta e o PIB Brasileiro, hoje as estimativas giram em torno de 80%.

"A criação de gastos recorrentes é sempre uma preocupação para a disciplina fiscal do país. Contudo, o cenário de juros médios de 12,5% ao ano nos próximos 10 anos nos parece ser um remédio muito amargo. Quando deduzimos as reservas internacionais da dívida bruta brasileira, chegamos a 58% do PIB, mais em linha com outros emergentes", pontua a gestora.

O documento afirma que, embora há alguns meses as perspectivas da Dahlia Capital eram de que o Banco Central encerrasse o ciclo de aumento monetário neste ano, a recente deterioração do cenário fiscal leva os analistas a acreditarem que a taxa básica de juros, a Selic, suba até o segundo trimestre de 2022.

"Não obstante, vemos uma janela de oportunidade já se abrindo para ativos brasileiros", diz a carta. A gestora explica que a situação financeira das empresas está bastante favorável: o endividamento, em termos reais, está em níveis similares a 2014, mas com uma receita 80% mais alta. Assim, a alta da taxa de juros pode ter um impacto mais reduzido no custo financeiro das empresas, que em ciclos anteriores.

"Apesar de nem tudo no Brasil ser tão ruim quanto parece, continuamos a monitorar o cenário externo que ainda exige cautela. Como Muhammad Ali, ainda estamos esperando o melhor momento para atacar", finaliza a Dahlia Capital.

Sobre o autor
Bruna Miato
Repórter na Mais Retorno