Finanças Pessoais

Dias atrás, uma notícia envolvendo um suposto esquema de pirâmide financeira chamou minha atenção. Segundo a reportagem, durante uma live de um cantor sertanejo, foi exibida a propaganda de um site de investimento estrangeiro, que prometia rentabilidade de 5% ao dia, por meio de operações com criptomoedas. Os interessados mandariam o dinheiro para a tal empresa, que iria manter a quantia sob custódia por um período não revelado.

Não se sabe ainda quantos internautas acreditaram na história daquele retorno tentador. Mas, dado o grande histórico de vítimas de golpes financeiros no Brasil, é hora de lembrar por que episódios como esse ainda se repetem.

Se o assunto é onde investir o dinheiro, se há dúvida, não faça

Na literatura de finanças comportamentais, pessoas que se iludem com a promessa de um ganho alto e rápido, sem fazer o mínimo de esforço, sofrem de uma anomalia chamada de overconfidence ou excesso de confiança. Esse viés cognitivo diminui a capacidade dos investidores quando vão avaliar os riscos e a probabilidade de um evento acontecer. 

Alguns estudos constataram, inclusive, que os homens seriam mais excessivamente confiantes do que as mulheres, na hora de aplicar o dinheiro.

Quem sofre desse mal tende a superestimar seu conhecimento num determinado tema, seja porque criou uma teoria sem fundamento acadêmico, seja porque se autodenomina uma pessoa “de sorte” ou dotada de poderes sobrenaturais capazes de livrá-lo do fracasso. 

Arrisco a dizer que esse comportamento foi vivido por muitos investidores na Bolsa de Valores, no ano passado. Quando a pandemia foi anunciada, entre fevereiro e março de 2020, o pregão registrou uma forte queda nas primeiras semanas, após a avalanche de notícias atestando a gravidade da contaminação.

Veio o segundo semestre, quando alguns ativos começaram a se valorizar, sem que o cenário global da Covid-19 estivesse efetivamente melhor. Pelo contrário: o número de mortos disparava e nenhuma vacina havia sido criada. Confirmando a teoria comportamental, os investidores superconfiantes entraram em cena no pregão da B3, comprando tudo o que viam pela frente, por enxergarem uma grande oportunidade pela frente.

Na década de 80, o professor da Universidade de Estocolmo Ola Svenson, PhD em Decision Research, cunhou o termo “superioridade ilusória”, após apresentar um estudo em que 93% dos motoristas norte-americanos se classificavam como melhores do que a média dos condutores. Se quase todos acham que são ótimos, quem seriam os medianos?

Vinte anos depois, outro estudioso sobre viés cognitivo apresentou uma nova teoria, conhecida como "viés de confirmação" (Raymond Nickerson, 1998). Nesta situação, o excesso de confiança faz com que as pessoas busquem apenas evidências parciais para confirmar a sua crença pré-existente.

Saibam que o autoengano é um grande inimigo da preservação do patrimônio. Felizmente, essa anomalia tem cura: basta aceitar que não somos tão inteligentes quanto julgamos ser. Ou no mínimo, entender que ninguém pode ser bom em tudo.

Não há problema nenhum o fato de os produtores do show sertanejo desconhecerem as falsas promessas do universo de investimentos. Exatamente por isso, eles deveriam ter evitado que os fãs do cantor se submetessem a esse risco.

Se há dúvida, não faça. Principalmente, nos momentos em que precisará decidir onde investir o seu dinheiro. Considere pedir ajuda a quem conhece mais daquele assunto do que você.

*Este artigo não expressa necessariamente a opinião do portal Mais Retorno

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Luciano Boudjoukian França (CFP®️) economista pela FEA-USP, Pós-Graduado em Finanças, Mestre em Economia pelo Insper e sócio da Avantgarde Asset Management.

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