Mercado Financeiro

Investimentos alternativos: uma saída para os juros baixos

Quando se fala em investimentos, é muito comum que as pessoas pensem em 2 situações: Um produto financeiro: oferecido entre a infinidade de opções disponíveis nas…

Data de publicação:11/12/2019 às 03:44 - Atualizado 4 anos atrás
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Quando se fala em investimentos, é muito comum que as pessoas pensem em 2 situações:

  1. Um produto financeiro: oferecido entre a infinidade de opções disponíveis nas “prateleiras” das corretoras;
  2. Um negócio próprio: não é segredo para ninguém que os brasileiros gostam do empreendedorismo.

Porém, o que muita gente não sabe é que existe uma alternativa que se encaixa entre esses dois mundos: aquele em que o investidor “não vê o outro lado” e aquele em que arrisca sozinho.

Trata-se dos “investimentos alternativos”, que trazem um retorno maior, desde que o investidor abra mão da liquidez. Por focarem na economia real (a que o investidor enxerga), os fundos com essa terminologia possuem uma dinâmica diferente da tradicional:

  • Os aportes envolvem valores maiores;
  • São oferecidos a investidores qualificados, profissionais ou institucionais;
  • São pouco padronizados;
  • Os investidores participam ativamente dos negócios;
  • Funcionam como instrumentos de diversificação;
  • Contam com a presença de poucos cotistas;
  • São fechados, não permitindo saques a qualquer momento.

Fundos Alternativos

Como premissa para que captem novos recursos, esses fundos buscam por aprimoramentos no ambiente de negócios como:

  • Flexibilidade: a exemplo da reforma trabalhista, já em vigor;
  • Desburocratização: como a Lei da Liberdade Econômica, aprovada mais recentemente;
  • Simplificação: semelhante à proposta de reforma tributária, que pretende unificar os impostos.

Eles normalmente possuem algumas transações no radar quando abrem para captações. A partir daí, o gestor e a sua equipe ficam responsáveis pela concretização dos negócios e o acompanhamento das atividades diárias.

Por conta disso, são pessoas que possuem um conhecimento bastante específico, seja porque trabalharam em outros fundos semelhantes, seja porque já tenham atuado no setor. Portanto, não é algo que qualquer leigo possa fazer sozinho.

Para os fundos alternativos, vale a lógica da “curva J”: o comprometimento dos recursos é feito nos primeiros anos, mediante a assinatura de um contrato. Os retornos são pagos ao longo do tempo, sendo que eles aumentam até o prazo estipulado para o encerramento do fundo.

Isso ocorre em 4 etapas, conforme a representação gráfica abaixo:

Fonte: XP Investimentos

  1. Ano 0 a Ano 3: capital semente;
  2. Ano 4 a Ano 5: negócios em estágio inicial;
  3. Ano 6 a Ano 8: crescimento;
  4. Ano 9 a Ano 10: preparação para a venda.

É com essa perspectiva em mente que os investimentos alternativos, detalhados na sequência, se estruturam.

Private Equity

Os fundos de private equity já existem há algum tempo e buscam as empresas de médio porte (conhecidas como middle market) enquanto os de venture capital, mais recentes, focam em startups e na escalabilidade da tecnologia.

Para quem faz a triagem das empresas, são nos anos de pouco crescimento econômico que surgem os melhores negócios (identificados por “safras”, tais como as dos vinhos), visto que os preços estão mais razoáveis.

Empresas desse segmento, muitas delas ainda familiares, são as mais propícias para o aperfeiçoamento da gestão, a consolidação (fusões e aquisições) e a posterior venda para um sócio estratégico ou mesmo via IPO.

A filosofia do private equity é basicamente: comprar, aperfeiçoar e vender por um preço maior.

Como vantagens trazem, além do dinheiro que não encontram no BNDES ou no mercado de capitais:

  • Melhores práticas;
  • Métricas financeiras (como o Orçamento Base Zero) e maior geração de caixa;
  • Governança, com a implementação de conselhos de administração e fiscal;
  • Oportunidades, conforme a empresa evolui em seu modelo de negócios.

Como exemplos de empresas que ganharam porte dessa forma pode-se citar as do setor educacional e o de saúde que, até pouco tempo atrás, não possuíam listagem em bolsa de valores.

Incorporação

Ao contrário dos fundos imobiliários negociados em bolsa, nesse tipo de investimento alternativo, os imóveis que fazem parte da carteira não passam de projetos.  Isso porque, no setor de construção civil, os ganhos maiores (como também os riscos) ocorrem quando os recursos são alocados nas primeiras etapas de um empreendimento.

O regulamento de um fundo de incorporação pode contemplar os 3 formatos mais comuns:

  1. Permuta: o fundo compra o terreno e formaliza a permuta com a incorporadora. Ela, por sua vez, o pagará em uma data futura, mediante a entrega de um determinado número de unidades prontas, ou com o dinheiro obtido com a venda destas;
  2. Obras: o fundo compra as unidades de seu interesse para que sejam construídas pela incorporadora;   
  3. Sociedade de Propósito Específico (SPE): o fundo forma uma sociedade com a incorporadora. Ela desenvolve o projeto enquanto ele fornece os recursos de acordo com o cronograma de obras.

Uma vez concluída, a carteira de imóveis pode ser vendida ou mantida, para que distribua renda aos seus cotistas. Caso ela atenda a determinadas condições, poderá se transformar em um Fundo de Investimento Imobiliário (FII) efetivamente.

Mercado mais desenvolvido no exterior, ele permite aos fundos condições melhores do que a compra direta de imóveis prontos. Adicionalmente, geram liquidez para os grandes empreendimentos imobiliários, para que seus investidores possam partir para outras iniciativas.

Fundo de Investimento em Participações (FIP)

Onde estão os investimentos em infraestrutura. Eles incluem poucos projetos, dados os valores envolvidos.

Por conta disso e da natureza dos contratos de concessão, reajustados por um índice de inflação, esse tipo de FIP funciona como um título de renda fixa de longo prazo (o retorno da carteira é em função de cada um dos projetos financiados). Isso nem sempre acontece em um fundo de debêntures incentivadas, por exemplo.

Apesar de serem bastante conhecidos, eles possuem uma limitação: quando não existe oferta suficiente de debêntures no mercado, os fundos são forçados a fechar para não perderem a isenção fiscal. De acordo com a regulamentação, eles possuem um prazo de 2 anos para investirem 85% da carteira em debêntures de infraestrutura.

Isso favorece os FIPs, principalmente os que investem em linhas de transmissão e energias renováveis. Tal como as próprias debêntures incentivadas, eles também contam com isenção de Imposto de Renda (IR), tanto para os dividendos como para o ganho de capital. A diferença no retorno, após algumas décadas, pode ser brutal.

Os negócios são incorporados à estrutura dos fundos conforme começam a gerar receita. Como os projetos podem ser parcialmente ou integralmente comprados, são constituídas parcerias ou sociedades com empresas especializadas, sejam elas operacionais ou desenvolvedoras de projetos.

Special Situations

Diferentemente dos fundos de crédito privado comuns, que compram títulos de renda fixa bancários e empresariais, esses fundos são especializados em conceder crédito para empresas em “situações especiais”. Em outras palavras, empresas com problemas financeiros.

Eles levantam os recursos enquanto as consultorias de reestruturação empresarial, trabalhando em parceria, “arrumam a casa”, vendendo ativos (que valem mais quando negociados isoladamente) e organizando processos.

Os FIDCs-NPs (não padronizados), que compram as carteiras de crédito inadimplente do bancos, também se encaixam nessa classificação.  São eles que ajudam as instituições financeiras a retirar dos seus balanços os empréstimos problemáticos, de forma que novas operações de crédito possam ser realizadas.

Entre as vantagens desse tipo de fundo está a diferenciação entre as cotas, com maior ou menor risco. Os ganhos são definidos pela diferença entre o deságio no valor das dívidas e os custos de cobrança.

Conclusão

Os investimentos alternativos, pouco comuns aos investidores de varejo, ganham destaque com as taxas de juros abaixo de 5% ao ano. Eles são uma opção para quem deseja investir na economia real, sem correr todos os riscos de um negócio próprio.

Concentrados na viabilização de negócios com potencial de crescimento, eles contemplam empresas de médio porte, tecnologia, construção civil, infraestrutura e companhias com restrições momentâneas de capital, apresentando resultados superiores no longo prazo.

Obedecendo à lógica de que é preciso investir e planejar, os gestores responsáveis por administrar essas “teses promissoras” seguem a “curva J”, o que faz com que o investidor seja chamado para cumprir com as várias injeções de capital exigidas antes de ver qualquer retorno financeiro.

Como contrapartida, conta com pessoas especializadas, comprometidas e muito bem munidas em termos de recursos e informações. Usando uma analogia do mundo do basquete, um dream team do mundo empresarial.

Substituindo o resumo que normalmente é colocado ao final do texto está a tabela abaixo, para facilitar a consulta:

De um modo geral, a tendência é que todos cresçam e se popularizem, reduzindo o valor mínimo para aplicação.

Quando esse dia chegar, a classificação de investimentos alternativos certamente estará mais próxima dos chamados passion investments: ativos de pouquíssima liquidez, ganhos extraordinários e alto apelo emocional, como as obras de arte e vinhos raros (tema para um outro artigo).

 “Você pode trabalhar duro, mas se não trabalhar de forma inteligente, vai trabalhar para o resto da sua vida.”

Billions
Sobre o autor
Nohad HaratiPossui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.
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