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Economia

Inflação na Argentina atinge patamar histórico: entenda seus impactos

A inflação anual na Argentina atingiu o patamar de 71%. Entenda a crise argentina e quais os motivos que geram essa pressão inflacionária atual.

Data de publicação:22/08/2022 às 06:00 -
Atualizado 5 meses atrás
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O grande tema econômico de 2022 é um velho conhecido dos brasileiros: a inflação. No entanto, apesar de os últimos meses apresentarem uma pressão inflacionária, com o IPCA acumulado superando a casa dos 10%, outros países sul-americanos vêm sofrendo bem mais que a nossa população com o aumento dos preços.

Inflação
Inflação anual da Argentina alcança patamar histórico, entenda! | Foto: Envato

O primeiro país que pode ter vindo em mente é a Venezuela, nação que mesmo antes da pandemia da Covid-19 já enfrentava sérios problemas econômicos. Mas hoje queremos falar da Argentina, que enfrenta uma grave crise financeira a qual, inclusive, já originou até mesmo default (nome técnico para o famoso "calote" dos títulos públicos) nos seus investidores.

Como está a inflação na Argentina em 2022?

Se os dados de inflação no Brasil não são amigáveis, com forte aumento dos preços mês após mês, a situação na Argentina é ainda mais complexa. Somente em julho, por exemplo, o principal indicador inflacionário do país registrou um aumento de preços de 7,4% — o pior resultado mensal dos últimos 20 anos.

Se o número isolado já assusta (afinal, o índice mensal é praticamente o mesmo resultado anual do Brasil, país que nem de longe enfrenta uma situação econômica tranquila), é ainda pior analisar o valor acumulado dos últimos doze meses: 71,0%. E o mais preocupante para o povo argentino é que, ao menos em tese, a tendência é piorar.

Antes de projetar o futuro econômico da Argentina, entretanto, é importante que você entenda como o país chegou em uma situação tão complexa.

Por que a Argentina está em crise?

Assim como os brasileiros, o povo argentino já viu o seu país em crise por diversas vezes ao longo das últimas décadas. E o plano de fundo do atual cenário econômico desafiador tem um plano de fundo comum a países em desenvolvimento que passaram por governos populistas.

Em resumo, os efeitos negativos para a economia local passam por uma irresponsabilidade fiscal, com o governo gastando mais do que arrecada. Como não poderia deixar de ser, esse comportamento gera um aumento explosivo do endividamento nacional.

Todo esse ambiente desafiador já era claro em 2019, quando Alberto Fernández foi eleito, herdando um PIB (Produto Interno Bruto) em queda. Durante o seu mandato, ele enfrentou recessão técnica, com três dos quatro anos apresentando queda na atividade econômica argentina. Indicadores de inflação, desemprego e pobreza pioravam mês após mês.

Câmbio: os impactos da desvalorização do peso argentino

A moeda local é outro problema para o governo argentino. Ao invés de focar na estabilização do seu câmbio, os políticos optaram por uma política de expansão de gastos. No médio prazo, chegando aos dias atuais, esse contexto gerou uma depreciação do peso argentino em relação ao dólar.

Há um desequilíbrio nas reservas financeiras. Mais da metade do endividamento do país é em moeda estrangeira, fruto de acordos com o FMI (Fundo Monetário Internacional) anos atrás. Hoje, as reservas internacionais não acompanham esse percentual, gerando um grande problema para honrar compromissos financeiros.

O dólar paralelo (chamado popularmente de dólar blue) ganhou força no país. Embora ilegal, ele é negociado livremente nas ruas argentinas. E o seu preço é acima da cotação oficial, que é controlada pelo governo. Estrangeiros, por exemplo, acabam convertendo dólares em mais pesos, fator que prejudica ainda mais a inflação pelo aumento de liquidez da moeda.

Tentando controlar a inflação, o governo subiu as taxas de juros do país para a casa de 52% (como referência, o Brasil fixou a Taxa Selic em 13,75% ao ano até a última revisão deste artigo, alíquota praticamente quatro vezes menor do que a do país vizinho). Os resultados até então, no entanto, foram nulos.

Qual deve ser o futuro da economia argentina?

De forma direta e objetiva, a perspectiva econômica da Argentina é negativa, inclusive com tendência de piora do cenário atual. Analistas do mercado local estimam que a inflação pode atingir o patamar anual de 90%.

Apesar de já ser um número bem alarmante, já há previsão do aumento de custos para tarifas de serviços básicos e essenciais para a população local — casos de água, gás e energia elétrica. A inflação desses itens pode chegar até 300%, tornando a previsão para a inflação até mesmo conservadora. É bem factível que o índice anual seja ainda maior.

Há também uma enorme preocupação cambial. É provável que o peso argentino siga se desvalorizando em relação ao dólar, que é uma moeda muito utilizada pela população a ponto de criar um mercado paralelo para driblar a restrição de negociação imposta pelo governo local.

Caso essa expectativa se confirme, até mesmo mantimentos básicos podem se tornar um risco adicional. Isso porque, segundo estimativas de economistas globais, as reservas de dólares da Argentina não são suficientes para cobrir mais do que um semestre das suas importações. A economia, portanto, pode sofrer uma paralisação.

A inflação na Argentina tem solução?

Olhando sob a ótica atual, é difícil ver uma luz no final do túnel para a complexa situação econômica da Argentina. Entretanto, outros países já conseguiram se reestruturar de desafios ainda mais complexos.

Em um primeiro momento, a tendência é que o governo adote o congelamento de preços como forma de conter a pressão inflacionária. Embora seja uma prática comum nesse tipo de situação, a estratégia não resolve de fato o problema.

A Argentina tem hoje diversos desafios políticos e econômicos que precisam ser resolvidos para um futuro mais promissor. Lidar com as baixas reservas de moeda estrangeira frente a uma dívida elevada talvez seja o principal deles, juntamente com a depreciação do câmbio.

Um ponto que chama atenção é a redução dos gastos públicos, que seria o melhor caminho para começar a equilibrar o risco fiscal do país. No entanto, com a proximidade das eleições presidenciais, em 2023, é pouco provável que o atual governo faça qualquer movimento nesse sentido — a menos que a situação se torne (ainda mais) insustentável.

Sobre o autor
Stéfano Bozza
Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.

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