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A velocidade das transformações digitais, acelerada pela pandemia da covid-19, criou uma cultura de urgência dentro das empresas em busca de inovação. Para trilhar esse caminho, grandes empresas têm ido às compras de startups na busca por soluções para problemas do dia a dia. Somente em 2020 foram investidos R$ 19,7 bilhões nessas aquisições, segundo dados da Associação Brasileira de Startups (Abstartups).

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Via Varejo tem buscado startups que complementem seu serviço - Foto: Arquivo

São empresas novatas com mais agilidade no desenvolvimento de produtos e com mão de obra qualificada.

Só no primeiro quadrimestre deste ano, o número de aquisições de startups cresceu 120% - um recorde para o segmento. Foram 77 negócios ante 35 em igual período do ano passado, segundo dados da plataforma de inovação Distrito.

O movimento começou a se intensificar no terceiro trimestre do ano passado, quando aumentou a corrida pela digitalização para amenizar os efeitos da crise. Para se ter ideia do apetite das empresas, o número de aquisições entre janeiro e abril deste ano foi maior que o de 2019 inteiro.

"A pandemia acelerou a transformação das empresas diante de uma mudança forte no comportamento dos consumidores. Elas entenderam que precisavam ter novos canais para atender a esse cliente", afirma o cofundador da Distrito, Gustavo Gierun.

Para ele, as aquisições de startups se mostraram o caminho mais rápido para encurtar o tempo da digitalização.

"Todos os dias temos de decidir se vamos construir as soluções ou vamos procurar fora", diz o vice-presidente de negócios do Magalu, Eduardo Galanternik.

No primeiro quadrimestre, a estratégia foi buscar no mercado: a empresa comprou cinco startups e continua com forte apetite. "Procuramos negócios que vão resolver nossos problemas nas áreas de tecnologia, logística e pagamentos", diz Galanternik, destacando que o objetivo é acompanhar os novos hábitos de clientes cada vez mais conectados.

Outras varejistas acompanharam a estratégia do Magalu. Neste ano, a venda de startups com soluções voltadas para o setor ficou em primeiro lugar no ranking de fusões e aquisições, com 14% das operações, segundo a Distrito.

Em 2020, as fintechs estavam na liderança, com 16%, e o varejo em quarto lugar, com 11%. Para Gierun, as empresas do setor entenderam que avanços na parte de serviços, operações, clientes e na cadeia logística serão essenciais para o crescimento.

O vice-presidente de inovação digital da Via (ex-Via Varejo), Helisson Lemos, concorda. O grupo tem buscado startups que incrementem seus serviços, como a compra da empresa de logística Asap Log.

Em menos de um ano, conseguiu elevar de 28% para 42% o número de entregas feitas em 24 horas e de 47% para 65%, em 48 horas. Em abril, a Via comprou a fintech Celer, que vai compor os trabalhos de outra aquisição: o banco digital BanQi, com dois milhões de clientes.

"É inimaginável fazer isso em casa na mesma velocidade." Para Lemos, a aquisição tem efeito imediato nos resultados.

A velocidade das mudanças num mundo em forte disrupção reforça o movimento de compra de startups em vez de começar um projeto do zero.

"Hoje em dia a tecnologia se torna obsoleta rapidamente. Enquanto uma empresa desenvolve uma solução, outras surgem e superam as demais", afirma o sócio da consultoria PwC, Leonardo Dell’Oso, líder da área de fusões e aquisições.

Além da urgência do digital, o cenário tem sido favorável às aquisições. Com a queda dos juros e abertura de capital na bolsa, há muito dinheiro em circulação que precisa ser alocado em algum lugar, diz o sócio-fundador da butique de fusões e aquisições Solstic Advisors, Flávio Batel.

"Só nas últimas três semanas, recebemos cinco novos mandatos de negócios que envolvem busca de soluções para empresas tradicionais”, reforça Batel.

A maioria delas tem criado áreas e fundos dedicados à busca de oportunidades no mercado, como é o caso da Tivit, Porto Seguro e a B2W, que criou o IF - Inovação e Futuro. É essa área que fica à frente das aquisições de empresas do Universo Americanas (Americanas e B2W).

De janeiro de 2020 para cá, a companhia já comprou oito startups para reforçar os serviços do grupo. A aquisição mais recente foi a Nexoos, uma plataforma que conecta tomadores de crédito com investidores.

"A estratégia é entrar em negócios de novas frequências, novas verticais e que tenham times e conhecimentos para acelerar nosso trabalho", diz o diretor do IF, Thiago Barreira.

10 novas empresas até 2025

De olho em soluções inovadoras que surgem no mundo das startups, a Tivit decidiu criar um novo departamento: o Tivit Ventures.

O objetivo é fazer cerca de 10 aquisições por ano até 2025, diz o diretor de estratégia da companhia, Eduardo Sodero, responsável pela área de fusões e aquisições. O orçamento para as compras é da ordem de R$ 400 milhões.

Desde a criação do departamento, em novembro de 2020, a companhia já comprou cinco startups, entre elas a Privally (plataforma voltadas para a adequação de empresas à lei de proteção de dados) e a DevAPI (de integração de sistemas), em abril deste ano.

"É um benefício mútuo. Ao mesmo tempo que conseguimos trazer para dentro da corporação mais inovação e novas tecnologias, as aquisições fortalecem as startups, que tendem a manter a estrutura independente", avalia o diretor.

Sodero diz que o objetivo é buscar soluções de software que facilitem a vida das empresas. O foco atual, diz ele, está em startups de cibersegurança, inteligência artificial e fintechs.

Abertura de mercados

Com duas aquisições feitas neste ano, a companhia de software Totvs protagonizou um dos maiores negócios no mundo das startups.

A empresa comprou a RD Station - plataforma de marketing digital criada em 2011 - por quase R$ 2 bilhões. "Ao longo da nossa história, fizemos mais de 45 aquisições, mas de startup foram as primeiras", diz o presidente da empresa, Dennis Herszkowicz.

Para ele, essa era a oportunidade de avançar na cadeia de valores, ir além dos softwares de gestão e abrir mercados. A outra startup adquirida foi a Tail Target, de big data (análise de dados).

O presidente da Totvs conta que tem avaliado centenas de empresas que possam se enquadrar nos objetivos do grupo, como reforçar a atividade principal de gestão e melhorar a presença em alguns setores da economia (agronegócios, indústria e serviços logísticos).

"Não adianta saber o que tem de ser feito e só executar em dois a três anos. Fazer essas aquisições significa um atalho para as oportunidades", diz o executivo.

Expansão internacional

A influência digital nas vendas de marcas famosas despertou o interesse do presidente da Alpargatas, Roberto Funari, pelas startups. A empresa comprou no início de maio a mineira Ioasys, especializada na criação de soluções digitais e desenvolvimento de aplicativos, por R$ 200 milhões.

Foi a primeira aquisição da companhia, que quer criar um ecossistema para acelerar a expansão internacional e de novos produtos. O foco da companhia hoje são os mercados americano, europeu e chinês.

"Nossa estratégia é encontrar soluções para potencializar o crescimento da Havaianas, oferecendo uma nova experiência para os usuários", diz Funari.

Segundo ele, hoje a empresa busca inovação para melhorar os serviços, para a editorialização das marcas e para eliminar problemas nos canais de vendas. Essa busca é um exercício diário em qualquer departamento da empresa, que tem a responsabilidade de trazer soluções para questões importantes da companhia.

E-commerce robusto

Desde fevereiro de 2020, a companhia de tecnologia Locaweb já fez dez aquisições de startups. Para isso, analisou mais de 1.900 empresas com soluções variadas, diz o presidente do grupo, Fernando Cirne. Segundo ele, o objetivo é "enriquecer o ecossistema de e-commerce, entrar em novos mercados e fazer a consolidação do segmento".

Mas, depois de avaliar tantos negócios, ele afirma que comprar uma empresa não é trivial. "Há muita startup boa, mas também há muitas sem gabarito", diz.

Além disso, as compras seguem critérios: as startups precisam ter um produto maduro, receitas e os fundadores têm de continuar na empresa. "Não queremos só empilhar receitas. Compramos startups que se encaixam no nosso ecossistema e que podem ser aceleradas no grupo."

Cirne destaca que a companhia tem procurado conciliar trabalhos internos com aquisições. "Se é algo que o mercado ainda não tem, há tempo para podermos desenvolver. Mas se já existe, vamos comprar e incorporar."

R$ 19,7 bi investidos em startups

O movimento de aquisições de startups por grandes empresas só tem sido possível pelo amadurecimento do chamado "ecossistema" de inovação.

De 2011 para cá, o número de startups cresceu numa média de 100% ao ano e alcançou a marca de 13,5 mil empresas, segundo a Associação Brasileira de Startups (Abstartups). Esse avanço ocorreu, sobretudo, por causa da enorme liquidez e redução das taxas de juros no mundo.

Com a queda da Selic, taxa básica de juros do País, os investidores tiveram de buscar novas formas para remunerar o capital, e os fundos de venture capital - que apostam em startups - se tornaram opção.

"De janeiro a abril, já temos investimentos da ordem de 70% do que foi destinado ao setor no ano passado (cerca de US$ 2,3 bilhões)", diz o presidente da associação, Felipe Matos.

Segundo ele, a pandemia trouxe uma nova realidade para a sociedade e criou oportunidades. A tecnologia ganhou grande presença com as necessidades das empresas para atender a população, o que impulsionou fusões e aquisições e aberturas de capital.

"Temos hoje um ecossistema que floresceu com mais investimentos. Não é um sucesso do dia para a noite", diz Daniel Chalfon, sócio da gestora de venture capital Astella Investimentos. / com Agência Estado

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