Economia

Enquanto o Brasil passa pelo pior momento da pandemia de covid-19, com recorde de mortes e casos de infecção pela doença, o agravamento do quadro econômico se manifesta por meio do aumento de dívidas, da inadimplência e da inflação. 

O comprometimento da renda das famílias com dívidas bancárias atingiu 31,1%, pico da série histórica, de acordo com dados do Banco Central. O número indica a fatia do salário utilizada para pagamento de juros e amortizações em operações de crédito. 

Comprometimento de renda com dívidas com banco bate recorde durante a pandemia

Menos de R$ 70 em cada R$ 100 são alocados nas demais despesas. O endividamento das famílias também atingiu seu maior nível e já consome 56,4% dos rendimentos totais. Para a especialista em crédito da Tendências Consultoria Integrada Isabel Tavares, o crescimento da pressão sobre o orçamento familiar se deve ao fim de boa parte dos auxílios responsáveis pela manutenção da renda durante o ano passado. "Houve medidas na área de crédito e o auxílio emergencial, que sustentou a massa de renda. Em 2021, sem as medidas emergenciais, já se esperava uma reversão". 

Apesar do aumento das dívidas, a taxa de inadimplência das famílias é de 4,1% e a das empresas, de 1,6%, ainda de acordo com dados do BC, que considera o nível das taxas controlado por enquanto. Estes números levam em conta o crédito livre, que não contabiliza financiamentos por meio do BNDES e da poupança, como o crédito imobiliário. 

Apesar de controlada, a situação inspira cuidados. O BC só considera inadimplência atrasos de mais de 90 dias. O indicador teve quedas no segundo trimestre de 2020, depois que os bancos promoveram renegociações de dívidas e concederam carência para o pagamento de prestações. Os atrasos voltaram a crescer em 2021. Em fevereiro, a chamada pré-inadimplência - período de 15 a 90 dias sem cumprimento de contrato - chegaram a 3,65% entre as famílias e a 1,69% entre as empresas. Os percentuais em dezembro eram de  3,24% e 1,52%, respectivamente.

De e acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) as renegociações somam R$ 971,5 bilhões entre março e dezembro de 2020. O valor das parcelas suspensas é de R$ 146,7 bilhões. Sem a dispensa da obrigação de realizar provisões para perdas ao renegociar débitos, concedida pelo governo no ano passado, os bancos podem ser forçados a cobrar essa fatura em 2021. 

Somado a este quadro, há os recentes aumentos da inflação. O IGP-M, índice da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que mede o movimento dos preços dos aluguéis, acumula alta de 31% nos doze meses até março deste ano. O IPCA, índice oficial de inflação, teve alta acumulada 61% neste mesmo período. O movimento inspirou a elevação da taxa Selic de 2% para 2,75% pelo Comitê de Política Monetária (Copom). 

A medida, embora auxilie no combate à inflação, dificulta a vida de quem precisa se livrar das dívidas. 

Renda cai em meio ao aumento de preços

A massa de rendimento do trabalho no trimestre encerrado em janeiro de 2021 foi de R$ 211,4 bilhões, valor quase 7% inferior ao do mesmo período do ano anterior, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Para o economista da MCM Consultores Mauro Schneider, a situação da economia em 2021 não é necessariamente pior na comparação com o ano anterior. Ele ressalta, no entanto, que o governo tem margem de manobra mais estreita no Orçamento para promover medidas de auxílio. "Com as famílias ocorre a mesma coisa. Quem estava em boa condição tinha reservas no ano passado. Mas parte desses recursos também foi consumida".

Ele não descarta a possibilidade de auxílio emergencial robusto, apesar de a dívida bruta do Brasil representar quase 90% do PIB. "Tudo depende da vontade política em questões ligadas a gastos públicos. Olhando os números no detalhe, seria possível gastar mais em auxílios se o governo realocasse verbas hoje em destinos questionáveis".

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