Renda Variável

As empresas do setor bancário tiveram forte perda de valor de mercado na semana entre 6 e 12 de agosto, como consequência da piora do desempenho das ações de bancos, principalmente do Banco do Brasil, na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3. 

Dados da Economatica plataforma de informações financeiras levantados com exclusividade para o portal Mais Retorno apontam que o valor de mercado dos bancos encolheu R$ 15,950 bilhões na segunda semana do mês. Foi a maior perda no período dentre os diversos segmentos de atividade com ações movimentadas na bolsa de valores.

Trata-se de um dado contábil, que oscila de acordo com o humor do mercado e de investidores. Como o segmento de bancos acumula elevado valor patrimonial, o impacto da queda das ações calculado sobre o patrimônio líquido ou o ativo total resulta também em um valor alto, explica Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos.

“Os dados de perda recente dos bancos podem ser considerados em linha com a volatilidade do mercado de capitais”, analisa. Uma perda que é reincorporada ao valor do patrimônio, na forma de valorização, com a retomada de alta das ações.

O segmento de bancos não sofreu sozinho nesse período que o cenário político e econômico gerou mais desconforto a investidores e aos gestores de mercado. O setor de serviços financeiros domésticos, em que se inclui a B3, teve uma perda de R$ 13,188 bilhões no valor de mercado das empresas; o de cervejas e refrigerantes, R$ 8,183 bilhões; o de energia elétrica, R$ 7,357 bilhões.

Especialistas veem nessas perdas uma resposta do mercado ao cenário conjuntural de muitas incertezas, políticas e econômicas, a fatores técnicos de mercado e cautela redobrada do investidor. 

As ações dos chamados bancões – Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil – são das mais líquidas da B3. Juntos, representam cerca de 15% do Índice Bovespa (Ibovespa). Ao lado de outras como as de Vale e Petrobras, ocupam espaço próximo de 45% da carteira do principal índice da B3. Papeis que por ser facilmente negociáveis trocam rápida e facilmente de mãos, sujeitos também por isso a maior volatilidade.

Para especialistas de mercado, os fatores de instabilidade vão desde as indefinições da política monetária nos Estados Unidos e o temor com o avanço da variante delta do coronavírus, no cenário externo, até ao agravamento de incertezas fiscais e políticas, no ambiente doméstico.

Outros fatores para as perdas

Dos fatores de instabilidade que pesam sobre o mercado e o setor bancário, alguns são novos, a maioria nem tanto. “Por trás de tudo está a deterioração do cenário político, em meio às incertezas ainda com a pandemia, uma combinação que atinge o setor financeiro na veia”, analisa Carlos Heitor Campani, professor pesquisador do Coppead-UFRJ.

Breno Bonami, especialista da Valor Investimentos, comenta que mercado financeiro e investidores continuam de olho nas sinalizações do Fed (Federal Reserve, banco central americano) em relação aos juros e à recompra de ativos. Ele destaca, contudo, que foi uma semana em que fatores domésticos predominaram e ditaram o rumo dos mercados.

“Não houve nada relevante, especificamente”, pontua, mas diz que aguçou as incertezas dos investidores a reforma tributária, que empacou na Câmara; a derrubada da proposta de voto impresso; o acirramento da crise política com o aumento da tensão política entre os Poderes; o aumento de preocupação com o controle das contas públicas, dentre outras fontes de intranquilidade para o mercado.

Rogério Mauad, professor do Ibmec-SP em Mercados Financeiros e Finanças Corporativas, diz que o mercado pode estar mais cauteloso prevendo um aumento da carga tributária das empresas. Especialistas avaliam que este pode ser um dos entraves, especialmente para o setor de bancos, que finalizaram uma boa temporada de resultados nos últimos balancetes e vinham em recuperação na B3.

Para especialistas, após sofrer com a pandemia em 2020, por causa da elevação da inadimplência, o segmento de bancos vinha em trajetória positiva, com a perspectiva de recuperação da economia, queda da inadimplência e expansão do crédito, com consequente aumento do lucro.

O cenário otimista para os bancos não impede que os analistas com reservas em relação ao Banco do Brasil, um banco público que, sob os olhos ressabiados do mercado, pode ser alvo de uso político/eleitoreiro, principalmente pela proximidade das eleições presidenciais de 2022. “O banco estatal sofre todas as incertezas em um momento desses”, pontua Gabriel Marzotto, sócio da Quasar e gestor do fundo Tropos.

Bancos foram melhor que Ibovespa

Leo Monteiro, analista da Ativa Investimentos, diz que o BB reage historicamente com mais volatilidade a situações políticas e a questões macroeconômicas que outros bancos. “Os três principais bancos privados (Itaú, Bradesco e Santander) performaram melhor que o Ibovespa nesta semana”, comenta Monteiro.

O professor Mauad, do Ibmec, aponta ainda os novos entrantes no mercado de crédito, como fintechs e bancos digitais, além da estreia da segunda fase do Open Banking, como fatores que reforçam a concorrência entre bancos. “Uma pressão adicional de competitividade que pode reduzir a margem de lucro dos bancos tradicionais.”

O ciclo de elevação da taxa básica de juros, a Selic, que está em 5,25% ao ano e pode fechar 2021 em 7% ou pouco mais, pelas estimativas dos analistas do mercado, é visto como favorável aos bancos, porque tende a levar a um ganho maior com spreads.

Especialistas afirmam, porém, que uma Selic muito alta também deixa de ser interessante, porque encarece o empréstimo e reduz a demanda por crédito. Principalmente em um cenário de crescimento mais lento, com a piora das condições financeiras, como ao que costuma levar em geral uma política de juros altos. Uma perspectiva que, para alguns analistas e gestores, já estaria aparecendo no radar do mercado financeiro.

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Colaborador do Portal Mais Retorno.

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