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As ações de empresas de consumo estão baratas e em destaque nos últimos pregões, mas até onde vai o otimismo?

Inflação persistente, recessão global, risco fiscal podem afetar o desempenho dos papeis

Data de publicação:05/08/2022 às 13:20 -
Atualizado 13 dias atrás
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A forte valorização das ações de empresas voltadas ao consumo doméstico, como varejo e construção, têm sustentado o Ibovespa e foi responsável pela valorização nesta quinta-feira, 4 de agosto. O principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (B3) fechou com alta de 2,04%, em 105.892 pontos, após bater 106.161 pontos, no melhor momento do pregão.

Nas operações de hoje papeis de Magalu (-4,19%) e Via (-2,17) apresenta, queda, no entanto, em movimento de realização de lucros. Já a Renner sobe 1,10%, às 13h.

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Foto: Divulgação

Especialistas atribuem a arrancada dos papeis das empresas de consumo ao otimismo dos investidores com a sinalização do Banco Central (BC) de que a elevação de 0,50 ponto porcentual na Selic, para 13,75% ao ano, pode ter sido a última do ciclo de aperto monetário.

A indicação foi dada no comunicado após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na quarta-feira, 3. Nele, o colegiado do BC não se comprometeu com nova elevação da taxa, embora tenha deixado explícito que vai avaliar a necessidade de um “ajuste residual” de “menor magnitude” na próxima reunião, em setembro.

Ações muito sensíveis aos juros

As empresas do setor de consumo, sobretudo de varejo, “são muito sensíveis ao movimento dos juros”, analisa Wagner Varejão, especialista da Valor Investimentos. É um segmento que costuma ter um valuation caro e reage rapidamente às expectativas com os juros: se o juro sobe, a empresa passa a valer menos a valor presente e, se cai, passa a valer mais. É essa visão que tem predominado nos últimos dias.

Foi essa expectativa que, de acordo com o especialista, despertou otimismo nos investidores com as ações de varejo. Para Varejão, o comunicado mais duro do Copom, ao sinalizar que pode subir pouco mais o juro, indica que o BC não está leniente com a inflação. “Isso é bom para o varejo, ver o Banco Central comprometido com o controle da inflação.”

O especialista diz que o importante é um cenário que, mais à frente, aponte para a queda da inflação e dos juros. E o forte recuo dos juros futuros nos últimos dias  indica que os agentes econômicos estão confiando na política monetária mais dura que o BC vem adotando.

A queda da curva de juros futuros, principalmente nos contratos DI de prazos mais longos, 2025 e 2029, traduz a credibilidade que o mercado expressa na política de juros do BC, comenta Varejão. “É isso que anima o varejo e leva otimismo ao investidor com as ações do setor de varejo e consumo de forma geral.”

Andreas Ferreira, analista da Mantaro Capital, afirma que a maior parte das ações de empresas de varejo, especialmente as de alto crescimento, já havia sofrido com a elevação das taxas de juro e da inflação. E muitas delas estão bem descontadas, com o valuation também em patamar bem atrativo.

“E nesse contexto, de melhora também do cenário macro, que a desaceleração recente da inflação e a queda dos juros futuros deram alento ao setor e levaram à alta das ações de consumo e varejo.”

Até onde vai o otimismo

O otimismo com as ações de varejo se espraia pelo mercado e impulsiona o Ibovespa, mas os especialistas não arriscam uma aposta nesse movimento como tendência. “O mercado está muito barato, os valuations estão muito descontados e, por isso, deve ocorrer um ajuste”, acredita Varejão. “O que não dá para saber é quando isso deverá acontecer.”

O especialista afirma que, diante disso, “o momento é bem interessante para a compra de ações como investimento de longo prazo, acima de dois anos”, até como forma de diversificação da carteira.

O analista da Mantaro Capital afirma que existem muitas incertezas no cenário macro, “mas o que dá para dizer é que existem bons ativos com preços muito atrativos”. Como exemplo de ações de empresas do setor, ele cita a Renner, a Arezzo e a Localiza. “É um bom momento para comprar ativos do setor de varejo, que no médio e longo prazo deverão ser boas oportunidades”, acredita Ferreira.

Leonardo Rufino, sócio e gestor da Mantaro Capital, diz que a bolsa de valores “é um dos mercados mais baratos que já vi”. Otimista, ele aposta no fôlego das bolsas, apesar das incertezas. “O cenário externo é mais complicado, mas, olhando para o País, a bolsa está muito barata”, avalia.

Rufino diz que, passada a eleição presidencial, se reduz uma incerteza, independentemente do resultado, e a piora da política fiscal é histórica em época de eleição. Um desarranjo nas contas públicas que cabe ao novo governo consertar. Outro ponto positivo, aponta, é que o Banco Central parece ter chegado ao fim do ciclo de aperto da política monetária.

Para Varejão, especialista da Valor Investimentos, os riscos que podem atrapalhar a bolsa são uma possível recessão da economia global. “É um cenário em que as bolsas internacionais podem corrigir com mais força, com impacto na bolsa doméstica”, avalia. “Principalmente via commodities, como minério de ferro e petróleo, movimento que tende a bater forte na bolsa.”

Varejão afirma que os indicadores domésticos, como emprego e atividade, em recuperação, estão bons. “No cenário interno, os riscos são políticos”, aponta, seja pelo acirramento de tensão da disputa presidencial, seja pelo aumento de gastos públicos, com ações mais populistas dos candidatos.

Sobre o autor
Tom Morooka
Colaborador do Portal Mais Retorno.