Economia

É fato que os estímulos econômicos funcionam, principalmente quando se leva em conta a aparente munição infinita de governos e bancos centrais, que anunciam novos programas praticamente todas as semanas.

Mas, já podemos achar que a retomada está logo ali, virando a esquina, quando consideramos a brutal freada na economia? Para responder essa pergunta, é preciso avaliar se existe algum fundamento por trás da recente valorização dos ativos e, não menos importante, das bolsas de valores.

Esperança

Se os “banqueiros dos banqueiros”, também conhecidos como bancos centrais, estão empenhados em evitar uma nova grande depressão e os governos estão fornecendo auxílio financeiro, não bastariam alguns dados para que os agentes concluíssem que o pior ficou para trás, juntamente com os picos de contágio de vários países?

As economias reabriram, deixando a expectativa de que uma certa normalidade é possível, ainda que não haja tratamento ou vacina. Isso é particularmente verdade para o sul da Europa, que vive do turismo e que conta com o importante fluxo de receitas gerado nos meses de verão para acalmar os investidores detentores de bonds, que já temem pelo alto endividamento de países como Espanha e Itália.

Porém, apostar na recuperação por conta de um único dado, a criação de vagas nos EUA, que eventualmente pode apontar um número melhor que o esperado pelos agentes do mercado, faz sentido?

Ao contrário do mercado de trabalho no Brasil, um trabalhador norte-americano pode ser dispensado temporariamente sem que seja despedido. Dito isso, as empresas possuem flexibilidade para chamar parte de seus funcionários de volta, seguindo o que determinam as medidas de reabertura segura.

Percebe-se então que não se trata da geração de novas vagas, resultante de crescimento econômico.

Descomplicando a Bolsa de Valores

Irracionalidade

Recentemente, um vídeo elaborado pela Bloomberg, principal fonte de dados e de notícias do mercado financeiro, tentou endereçar essa questão. Ele cita quatro elementos que mostram porque os mercados financeiros estão “descolados” da economia real.

O primeiro é que um índice de bolsa não reflete a economia de um modo geral. No caso do índice norte-americano S&P 500, 5 empresas de tecnologia (as maiores beneficiárias das quarentenas mundo afora) são responsáveis por 20% do desempenho do índice.

O mesmo ocorre com o Brasil, onde o Ibovespa é bastante concentrado: o setor financeiro (que trabalhou ininterruptamente ao longo do tempo) representa pouco mais de 20% da composição do índice.

O segundo é a antecipação de uma situação futura. Os mercados se antecipam e, como não há qualquer chance de o mundo acabar amanhã, a tendência é que as coisas melhorem conforme os efeitos mais bruscos na economia são deixados para trás.

É justamente isso o que os indicadores econômicos acompanhados pelo mercado apresentarão no resto do ano. Como os dados dos próximos trimestres excluirão os meses de abril e maio da amostra, eles praticamente eliminarão o pior período.

O terceiro ponto faz referência ao que já foi citado anteriormente: a rapidez e o poder de fogo do Fed (banco central norte-americano). Na crise de 2008, de origem bancária, foi preciso a quebra de uma instituição financeira (Bear Stearns) para se dar início aos programas de liquidez.

O quarto elemento do vídeo é o fator surpresa, até para quem é do mercado financeiro. Pessoas comuns, ao verem os índices de ações subindo, estão usando as suas reservas de emergência para investir em bolsa.

Isso é particularmente verdade nos EUA, onde muitos recebem auxílio do governo em valores superiores aos seus salários. Estipulado para ser distribuído apenas até julho, ele passou a ser a forma com que milhares esperam resolver definitivamente as suas dificuldades financeiras.

Custo zero

Um custo de oportunidade baixíssimo (juro quase zero), juntamente com as plataformas de investimento, que permitem acesso em troca de valores bastante modestos, canalizaram uma enorme quantidade de recursos para as bolsas. No caso do Brasil, é a primeira vez que se enfrenta uma crise sem o refúgio da renda fixa.

Ainda assim, não se pode dizer que uma recuperação econômica mundial está próxima.

Primeiro, por conta do desemprego. O próprio presidente do Fed, em sua última coletiva de imprensa, após manter as taxas de juros inalteradas, mostrou receio ao indicar que muitos não retornarão aos seus antigos empregos.

A economia dos EUA gira em torno do consumo e os benefícios distribuídos pelo governo possuem uma data para acabar. Se postergados, desestimularão a busca por emprego, gerando danos permanentes à força de trabalho, visto que ela perde qualificação. Todavia, se retirados rapidamente, impossibilitarão que as pessoas gastem, retardando a recuperação.

No que diz respeito ao Brasil, são necessárias reformas para gerar mais crescimento e endereçar o ajuste fiscal, levando-se em conta os gastos públicos para enfrentar a pandemia.

Para ilustrar melhor o que isso representa, no momento atual, o que a relação dívida/PIB (equivalente ao endividamento do governo) mostra é o seguinte: um numerador que cresce muito (programas de combate à crise) para um denominador que pouco se altera (mesmo sem a pandemia, nos últimos anos, o crescimento ficou ao redor de 1%).

O país reabriu a economia sem condições de testar amplamente a população. Na ausência de informações mais precisas, a única certeza que fica é que, independentemente da ocorrência de novos surtos, governo, empresas e pessoas já estão mais endividados, o que leva a um desempenho econômico sofrível no futuro.

Bolha de ativos

Por conta de tudo o que foi exposto até aqui, não se pode descartar a possibilidade de bolha de ativos. Haveria então uma exuberância decorrente de medidas que, tal como se faz em uma unidade de pronto atendimento, garantem os sinais vitais para que um paciente (nesse caso, a economia global) possa ser tratado.

O que não ficou claro para todo mundo é que a sobrevivência econômica precede qualquer medida de política monetária (juros). Recalibrar a economia não é algo trivial: 10 em cada 10 banqueiros centrais afirmam categoricamente que só é possível identificar uma bolha depois que ela já estourou, dado o nível de inovação tecnológica e financeira.

Para quem não quer ser pego de surpresa, já com poucas perspectivas e carregando mais dívidas, eis aqui o que pode ajudar a evitar problemas maiores.

Essencial

A reserva de emergência que não rende nada? Isso mesmo. No linguajar da indústria de fundos, é o que se chama de “caixa”. Pior do que ter dinheiro sem renda é não ter dinheiro, ponto! Fundos simples, que investem em títulos Tesouro Selic, e possuem taxa de administração zero, permitem resgates no mesmo dia.

Concluída essa etapa, a indústria de fundos brasileira é bastante desenvolvida. É ali onde pode-se encontrar alternativas que não estão disponíveis diretamente para a pessoa física. Fundos com estratégias de gestão local ou internacional são facilmente encontrados na própria plataforma do Mais Retorno, que já se tornou uma fonte de pesquisa bastante conhecida.

Ainda assim, se o objetivo for complementar o portfólio com ações, valem aquelas cujas atividades são consideradas essenciais como energia, alimentação, comércio eletrônico e serviços financeiros. Mais do que imaginar que elas poderiam ser “ferramentas de day trade”, o intuito aqui é receber inclusive os dividendos, com retornos acima da Selic de 2,25%.

Conclusão

“Reanimar o paciente” é o que todas as autoridades mundiais ainda estão fazendo. Isso é em função do aprendizado adquirido durante a crise de 2008.

O efeito colateral é o descolamento do mundo financeiro do mundo real. Por conta de suas peculiaridades, boa parte dos índices de bolsa mundo afora já se recuperou, mesmo em um contexto onde existem muitas dúvidas (novas ondas de contágio) e dívidas (necessidade de mais programas de apoio), retardando qualquer chance de rápido crescimento econômico.

Nesse ínterim, um dinheiro extra e uma conta digital alimentam a esperança de quem quer ganhar dinheiro e manter as contas em dia. Até os mais precavidos seguiram nessa direção, dada a falta de alternativas para os que não se enquadram como investidores qualificados ou profissionais.

Corrigir quaisquer excessos é o que todo mundo deveria fazer, mantendo a reserva de emergência, explorando a diversificação via indústria de fundos e montando uma carteira de ações bem selecionada.

Essa exuberância, onde os preços testam limites cada vez mais altos, pode acabar a qualquer momento, como todos do mercado financeiro sabem muito bem:

“Quando alguém vê o vizinho ficando mais rico, começa a evolução natural da bolha. Bastam três coisas para a sua formação: os inovadores, os imitadores e os idiotas.”

Warren Buffett

Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.


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