Finanças Pessoais

A regra do mercado de capitais é clara: comprar na baixa, vender na alta. Apesar de parecer óbvia, essa sentença está entre as mais complexas lições de Educação Financeira para os investidores que operam na Bolsa de Valores. Isso porque não existe um percentual mágico para afirmar, com exatidão, quando o preço de um ativo está “alto” ou “baixo” o suficiente para abandoná-lo ou adquiri-lo. Planilhas de Excel, cálculos, comparações, análises e projeções com bases estatísticas das mais diversas formas costumam passar perto da cifra real, mas só quando bem-feitas.

O problema é que todos esses cálculos são ignorados nas decisões impulsionadas pela emoção. Quem nunca optou pela alegria de vender uma ação que bateu R$ 15, somente pelo fato de tê-la comprado por R$ 10 no ano passado. Do mesmo modo, é bastante comum as pessoas carregarem um ativo cujo preço vem caindo só porque, meses atrás, ele valia R$ 25 e seu valor já beira os R$ 20. É como se achássemos que uma justiça sobrenatural vai nos premiar pela insistência de permanecer naquela posição. Ou seja: não funciona.

Mercado: Bolsa oscila entre perdas e ganhos; dólar cai
Atitude do investidor é mais para evitar perda do que para obter ganho

Mais uma vez, a área de Finanças Comportamentais tem um nome e uma explicação para comportamentos irracionais citados acima. Chama-se Efeito Disposição e compreende a maior propensão de os indivíduos se desfazerem dos ativos assim que eles aumentam de valor, ante a decisão de vender aqueles cujo preço vem caindo no pregão.

A descoberta desse curioso, mas constante, comportamento no mercado foi feita em 1985, por dois economistas pioneiros em Behavioral Finance, Hersh Shefrin e Meir Statman. Eles identificaram que as pessoas preferem a sensação do orgulho de terem feito “um bom negócio” a assumirem o arrependimento por terem apostado num ativo em queda.

Faz sentido gostar mais de comemorar uma vitória do que passar a tarde limpando o leite derramado. Mas pensar deste modo é seguir um atalho para um prejuízo na carteira. Primeiro porque, se o lucro festejado foi motivado apenas pela euforia de vender por um valor maior, provavelmente esse investidor perdeu a chance de lucrar mais, nas hipóteses de o preço continuar subindo nos próximos meses. Em segundo lugar, quanto mais a pessoa física demora para ajustar sua carteira, eliminando ativos que não fazem sentido, maior será o dano com uma desvalorização acumulada. 

Antes da descoberta do Efeito Disposição, pesquisadores da Psicologia Cognitiva já falavam da Teoria da Perspectiva. Segundo ela, mesmo diante de probabilidades iguais para alcançar um mesmo resultado, as pessoas tomam decisões mais para evitar uma perda do que tentando obter um ganho. Nesse sentido, a dor de perder R$ 500 seria maior do que o prazer de ganhar R$ 500.

Por conta desse comportamento, muitos ativos estão mal precificados no mercado, não apenas no Brasil, mas em todas as bolsas do mundo. Imaginem a surpresa de descobrir quantas vezes, no último ano, uma ação da B3 interrompeu sua trajetória de alta, mesmo após a companhia emissora ter divulgado excelentes resultados no balanço trimestral.

Ora, por que é tão difícil aceitar que são maiores as chances de um ativo que teve bom desempenho nos últimos seis meses manter essa excelente performance no semestre seguinte, do mesmo modo que as ações com mau desempenho no último semestre tendem seguir ladeira abaixo nos próximos seis meses? De fato, as emoções não perdoam investidores impulsivos.

Analisando esse tema, descobri um estudo mais recente, de 2014, que adicionou um curioso viés no Efeito Disposição: quando um indivíduo faz a gestão do dinheiro da sua família, a relutância para perceber as perdas e consertar o estrago aumenta em 2,18 vezes em relação à resiliência dos gestores de recursos de estranhos. Sem o peso da responsabilidade de ter de prestar contas para os parentes, os investidores de desconhecidos tendem a se desfazer dos papeis desvalorizados mais rapidamente, sobretudo em momentos de pânico do mercado.

Essas teorias lhe soam familiar? Se a resposta for positiva, é hora de analisar qual fato costuma causar um impacto emocional maior no seu dia a dia: a perda financeira ou o ganho de capital? Se a dor do erro parece machucar mais do que o conforto do ganho, talvez você seja um investidor que anda escondendo as perdas que certos ativos vêm causando há meses no seu patrimônio.

Não se preocupe. Assuma o prejuízo e prepare-se para os próximos ganhos. Estamos aqui para ajudá-lo nessa empreitada.


*Este artigo não expressa necessariamente a opinião do portal Mais Retorno

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Luciano Boudjoukian França (CFP®️) economista pela FEA-USP, Pós-Graduado em Finanças, Mestre em Economia pelo Insper e sócio da Avantgarde Asset Management.

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