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Num período marcado por instabilidade política, alta da inflação e crise hidrológicas no País, além da cautela em relação ao risco fiscal e o lento encaminhamento das pautas reformistas no Congresso, os investidores brasileiros (e os estrangeiros que investem no Brasil) buscam opções de empresas mais estáveis e com bons números para ter no portfólio. Neste contexto, a Vale é praticamente um consenso entre os especialistas.

Em setembro, a mineradora foi uma das companhias a liderar as recomendações das casas de investimento, com uma perspectiva de entrega de bons resultados no médio e longo prazo, embora a companhia passe por um momento de desvalorização em suas ações. Analistas do BTG Pactual prepararam um relatório explicando as boas perspectivas para os papéis da Vale.

Foto: Reprodução vale
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De acordo com os especialistas, uma combinação de fatores contribuiu para a fraca reação da mineradora até aqui no mercado financeiro. Eles destacam, sobretudo, uma "volatilidade sem precedentes" no preço do minério de ferro pelo mundo nas últimas semanas.

Além disso, o relatório ressalta, também, os soluços operacionais observados em Carajás, o que resultou numa produção mais baixa, redução das estimativas de produção em diferentes Sistemas e "detalhes limitados sobre os dividendos".

Com isso no radar, o BTG considera que o preço das ações da Vale está "altamente subvalorizado", sendo negociadas a apenas 3,6 vezes o EBITDA (Lucro antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização, na tradução). O banco mantém a recomendação de compra para os papéis.

"Para nós, a parte mais importante da história é que a administração permanece altamente disciplinada na alocação de capital e continuará executando um modelo de negócios 'asset light', o que ainda implica que a maior parte da agenda deve girar em torno dos retornos de caixa dos acionistas", comentam os especialistas.

No relatório, os analistas afirmam, também, que a empresa deve continuar apresentando um progresso tangível na frente ESG, removendo o desconto excessivo atualmente atribuído ao preço de suas ações.

Redução das estimativas de produção

Na última semana, a Vale informou sobre as novas orientações de produção para os próximos anos, reduzindo alguns números e deixando a retomada para um volume de produção de 400 Mtpa (milhões de toneladas por ano) para um prazo indefinido.

Esse volume era projetado para 2022. No entanto, a mineradora reduziu as estimativas para 370 Mtpa para o próximo ano. As expectativas de produção da companhia até o fim de 2021 estão em 343 Mtpa.

Os analistas do BTG explicam que essa mudança em relação aos números anteriores se deve, principalmente, a um atraso no licenciamento do Sistema Norte, o que levou a uma demora maior no arranque do projeto. Dessa forma, a Vale projeta agora um volume de produção de 205 Mtpa para 2022 neste Sistema, ante 230 Mtpa projetados anteriormente.

O Sistema Sudeste também teve suas estimativas de volume de produção para 2022 reduzidas, passando de 101 Mtpa para 93 Mtpa. Os especialistas afirmam que a causa para essa queda são os desafios de disposição de rejeitos em Brucutu e Itabira, em Minas Gerais.

O único Sistema a ter suas projeções revisadas para cima foi o Sul, indo de 67 Mtpa para 69 Mtpa.

Agenda ESG da Vale

O relatório do BTG Pactual enfatiza, ainda, o compromisso da Vale com a agenda ESG, pauta importante hoje para o mercado, que busca empresas que estejam atentas aos impactos socioambientais de suas inciativas, favorecendo seus papéis.

A mineradora anunciou na última quinta-feira, 9, o briquete verde, novo produto que foi desenvolvido pela empresa ao longo de quase 20 anos. Este produto, de acordo com informações da própria companhia, pode reduzir em até 10% a emissão de gases do efeito estufa na produção de aço, além de diminuir a emissão de particulados e gases como dióxido de enxofre e óxido de nitrogênio. O briquete verde ainda dispensa o uso de água na sua produção.

O produto será inicialmente produzido nas usinas 1 e 2 de pelotização, na Unidade Tubarão (Vitória, Espírito Santo) e no Complexo de Vargem Grande (Minas Gerais). A previsão de início das operações é 2023.

"A estimativa é de que, no longo prazo, a companhia tenha capacidade para produzir acima de 50 milhões de toneladas por ano de briquete verde, o que levaria a um potencial de redução de emissão superior a 6 milhões de toneladas de carbono equivalente por ano (MtCo2e/ano) com uso da tecnologia", afirma a mineradora.

Os especialistas do BTG ressaltam que, em comparação com o processo de pelotização, a Vale vê os briquetes como 80% menos poluentes e com redução de custos em 50%.

A Vale ressalta que os projetos fazem parte de sua estratégia de zerar as emissões líquidas de carbono diretas e indiretas até 2050, com um investimento entre US$ 4 e US$ bilhões para reduzir em 33% essas emissões até 2030.

"É o maior investimento já comprometido pela indústria da mineração para o combate às mudanças climáticas. As emissões residuais serão neutralizadas por mecanismos de compensação. Todas as metas de redução de emissões da Vale estão alinhadas com a ambição do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global abaixo de 2ºC até o fim do século", finaliza a mineradora.

"Além disso, a Vale também anunciou o lançamento de uma tecnologia de concentração a seco, bem como outras iniciativas 'asset light' (a serem desenvolvidas com parceiros, ainda em estágio inicial)", afirmam os analistas do BTG.

Impactos da crise hídrica

Em relação à crise hídrica que atinge o País, elevando as possibilidades de uma crise energética, a Vale afirma que vê poucos impactos nas operações principais.

Os especialistas do BTG destacam no relatório que "a estrutura energética da mineradora é composta por 68% de autogeração, dos quais cerca de 90% vêm de fontes renováveis e quase 100% no Brasil, principalmente hidrelétrica".

Em um cenário de racionamento, a administração indicou que, no passado (2001, ano de racionamento), foi criado um mercado secundário para licenças de energia, permitindo-lhes manter as operações em funcionamento, explicam os analistas.

Se este não fosse o caso, a empresa afirma acreditar que poderia preservar suas operações principais (como minério de ferro, ferrovia e porto), fechando outras operações de alta intensidade energética, com menor contribuição no EBITDA.

Perspectivas para a Vale em outras casas de investimento

De acordo com os especialistas do Banco Safra, a Vale é uma empresa que deve continuar gerando um bom fluxo de caixa, mantendo níveis atrativos de remuneração aos acionistas mesmo com a queda recente do minério de ferro.

Embora a previsão seja otimista e os ativos da mineradora sejam considerados de qualidade e mais estáveis pelo mercado, o banco reduziu em 1 ponto percentual a participação da Vale em sua carteira mensal recomendada - de 14% para 13%.

A XP investimentos manteve a mineradora entre suas recomendações em setembro e também destaca que a desvalorização dos papéis da companhia nas últimas semanas se deve à queda acentuada do minério de ferro.

A baixa na commodity vem do aumento da tarifa de exportação de aços na China e das preocupações com os impactos econômicos da variante delta, principalmente depois da paralisação de duas semanas do porto de Ningbo no país asiático.

Apesar da possibilidade de volatilidade no curto prazo devido aos preços do minério de ferro, os analistas mantêm suas apostas no papel diante do anúncio feito pela Vale de dividendos extraordinários e forte geração de caixa.

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Repórter na Mais Retorno

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