Economia

A economia turca atravessa uma instabilidade econômica há dois anos. Em 2.021, a inflação acelerou no país e os movimentos recentes do presidente Recep Tayyip Erdogan agravaram o contexto de crise econômica. Em março, a inflação anual da Turquia ficou acima de 16%, margem que o país não alcançava desde a metade de 2019. No mesmo período, a lira turca (moeda local) passou pela maior desvalorização dos últimos oito meses devido à troca na presidência do Banco Central daquele país.

Turquia
Porto e baixa da cidade de Maputo, Moçambique. Foto: António Silva/Agência Lusa

Esse cenário chama a atenção dos investidores que atuam nos mercados emergentes para um país que, historicamente, tem uma das maiores taxas de juros do mundo. A alta nas taxas de juros, a queda na moeda local e os próximos passos do governo da Turquia são fatores determinantes para as tomadas de decisões do mercado financeiro. 

Para entender o cenário da economia da Turquia hoje, é preciso buscar quando e como começou a crise no país. Por ser um mercado emergente, os reflexos desta instabilidade também afetam o Brasil.

O que está acontecendo

A Turquia passa por uma crise fiscal, monetária e de inflação desde 2018. A inflação disparou, a lira perdeu valor e o Banco Central tem aumentado a taxa básica de juros sucessivamente para tentar conter a escalada de câmbio e de inflação. Em um dos últimos movimentos, no dia 18 de março, o BC elevou de 17% para 19% os juros turcos, o que fez o presidente Erdogan trocar Naci Agbal por Sahap Kavcioglu no comando do Banco - a terceira mudança no órgão nos últimos dois anos. 

Com isso, o mercado reagiu de forma negativa: a lira turca desvalorizou 20% frente ao dólar e a bolsa caiu mais de 8%, ativando dois circuit breakers (mecanismo que interrompe a negociação do mercado por determinado tempo em períodos de extrema volatilidade) no mercado turco. 

A troca no Banco Central ocorre para forçar a queda nas taxas de juros, compromisso que o presidente reforçou na quarta-feira (7). O objetivo do governo é baixar a inflação para um dígito e a taxa de juros para menos de 10%. No começo de 2021, a inflação no país acelerou mais do que previsto. Em fevereiro subiu 15,6% e em março 16,19%. O agora ex-presidente do Banco Central adotou uma política austera com relação aos juros e conseguiu apreciar o valor da lira.

Para os investidores, a mudança na presidência do banco em meio a uma alta na inflação já representa uma queda na confiança e o motivo pela troca reforça o fluxo de saída de capitais da Turquia. Para a população turca, o cenário também foi de alta. Segundo a agência de estatística do país, TurkStat, o índice de preços ao consumidor (IPC) turco subiu 0,91% em fevereiro e 1,08% em março. 

Qual o reflexo no Brasil

O mercado brasileiro, assim como o turco, é considerado emergente. Em linhas gerais, mercados emergentes são caracterizados:

Pela ótica do mercado, o Brasil e a Turquia tem uma economia e um comportamento político que se assemelham. Por menores que sejam as relações comerciais, ambos usam a alta taxa de juros para controlar a inflação, o que preocupa os investidores por conta das dívidas altas dos dois países. A Turquia tem uma dívida externa de cerca de US$435,1 bilhões, sendo grande parte do setor privado. 

Outro aspecto da demissão do presidente do BC turco que causa preocupação é pelo momento que o Brasil atravessa. No mês de março a taxa Selic também sofreu aumento, o que espelha a relação entre as reações das duas economias e faz com que a troca de Erdogan cause volatilidade no mercado brasileiro.  

Histórico

Nos anos 2000 a Turquia passou por uma aceleração de sua economia e um crescimento inédito para o país. Somado a isso, a inflação, que terminou os anos 90 acima de 60%, chegou a reduzir e se estabilizar na faixa de 8 a 10%. Recep Tayyip Erdogan foi primeiro-ministro do país de 2003 a 2014 e desde então é o presidente da república. Nesse período o país se aproxima do Ocidente e passa a pleitear uma cadeira entre as maiores economias do mundo.  

Desde 2010, a lira turca vem desvalorizando frente ao dólar e o ano de 2018 é chave para a economia do país. A crise que afetou a Turquia tem origem em dois fatores. O primeiro deles é a relação com os Estados Unidos, que começou a se desgastar muito depois da prisão do norte-americano Andrew Brunson, que vive na Turquia desde 1993. Ele foi detido em outubro de 2016, acusado pelo governo turco de fazer parte de uma rede considerada terrorista em território turco. 

O presidente Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos três meses depois e aprofundou a crise turca com a duplicação das tarifas sobre o aço e o alumínio do país (de 20% para 50% no mercado americano). Isso desvalorizou a lira. Em resposta, Erdogan aumentou as tarifas sobre produtos norte-americanos de forma bruta: os automóveis passam a ter uma tarifa de 120% e as bebidas alcoólicas 140%. 

O segundo fator que explica a crise na Turquia é o alto endividamento das empresas do país, que chegou a 170% do PIB. O presidente não retraiu a economia e deu um estímulo para as empresas de US$34 bilhões em agosto de 2018, ano a lira chega a valer 8,8 na cotação com o dólar e a inflação atinge a marca de 25%. 

Em outubro de 2018, o Banco Central sobe a taxa de juros para 24% e consegue segurar a inflação. O governo oferece liquidez para os bancos, pequenas e médias empresas e a lira consegue dar um respiro, chegando a 5,33 em novembro de 2018. As altas taxas de juros se mantêm em 2019 e a situação permanece em um aparente controle até outubro de 2020, quando a inflação volta a subir de forma acelerada. Naci Agbal assumiu o banco em novembro e, nos quatro meses que esteve no comando, subiu a taxa básica de juros de 12% para 19%, sendo o aumento de 200 pontos em março de 2021 a gota d’água para Erdogan. 

Neste período, um estudo da JP Morgan apontou que 80% dos investidores não acreditavam na reversão desse quadro para a Turquia. 

Mas a maior ameaça à economia turca ainda pode ser a dívida externa. Os bancos e o setor privado são os maiores devedores e, tendo em vista o volume em relação ao PIB, há consideráveis chances de inadimplência.

Investimentos no país

Apesar da elevação na taxa, o presidente Tayyip Erdogan se comprometeu a tentar baixar a inflação sem juros altos. Isso causa incertezas com relação aos investimentos na Turquia. Se por um lado a saída mais prática para conter a inflação, que terminou março acima de 16%, é o aumento dos juros, Erdogan não parece disposto a usar o método convencional proposto pelo Banco Central. 

A mudança no comando do banco para Sahap Kavcioglu, ex-membro Partido da Justiça e Desenvolvimento (o mesmo do presidente) e alinhado à política monetária de Erdogan, sinaliza para a queda nas taxas de juros. A instabilidade econômica que a Turquia atravessa, reforçada pelo contexto de pandemia, também não dá bons sinais para os investidores. O alto risco e a forte volatilidade da lira caracterizam hoje o mercado financeiro da Turquia.

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