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América Latina
Economia

Transição energética: oportunidade para a América Latina?

Maior integração da região é única forma de desenvolver infraestrutura necessária

Data de publicação:12/07/2022 às 05:00 -
Atualizado 3 meses atrás
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A última década não foi muito promissora para as economias latinas. Com uma taxa de crescimento de 2,2% em média, a América Latina mal acompanhou o seu crescimento populacional, se distanciando do resto do mundo.

Comum a todos os países, a falta de habilidade política para aprovar reformas e fazer a economia deslanchar, o que inevitavelmente levou a medidas populistas. É fato que menos oportunidades de trabalho exacerbam ainda mais a informalidade e a desigualdade, reforçando a já baixa produtividade da América Latina.

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Fora das grandes cadeias de valor, América Latina depende da exportação de commodities - Foto: Reprodução

Fora das grandes cadeias de valor, está distante de onde as coisas acontecem, desestimulando a competição. Distorções de mercado são o resultado do trabalho de grupos de interesse, minando qualquer ímpeto de inovação ou de investimento em novas tecnologias. Nesse ambiente, não há meios para se qualificar a mão de obra.

Não por outro motivo, a importância das commodities nas exportações latinas e, mesmo nos países considerados como cases de sucesso, o exemplo de como a sua natureza cíclica pode trazer problemas.

Chile

Os protestos no Chile, que começaram antes da pandemia (2019), refletiam o descontentamento da população com as soluções privadas para áreas básicas como educação e aposentadoria, amparadas por uma constituição redigida sob a influência do neoliberalismo dos anos 80, durante o governo Pinochet.

Visando evitar o caos no país, propôs-se a redação de uma nova constituição, cujo texto receberia contribuições de vários grupos da sociedade. Três anos depois, o resultado é o documento a ser votado em setembro, com 388 artigos e muitas inconsistências.

Entre elas, um banco central que deverá cumprir o seu mandato de estabilidade de preços, juntamente com a proteção dos empregos e do meio ambiente. Igualmente contraditória ao crescimento econômico está a seção que concede aos sindicatos poder decisório nas empresas, além do direito à greve em assuntos não relacionados diretamente ao trabalho.

Uma ampla rede de benefícios sociais, idealizada para cuidar dos chilenos desde o momento em que nascem e que, teoricamente, resolveria as limitações das empresas privadas também foi contemplada, ainda que sem nenhuma indicação de como será custeada.

Essa lacuna talvez seja por conta de uma mudança de valores.

Valores ESG

Mais da metade das reservas de lítio, mineral crítico para a fabricação de baterias, está na Argentina, no Chile e na Bolívia. No que diz respeito à sua produção para comercialização, o Chile fica em segundo lugar enquanto a Argentina, em quarto lugar.

Por mais que possam haver preocupações com riquezas naturais localizadas em economias instáveis (“commodity curse”), a consciência ambiental nas comunidades locais é forte, o que dificulta a aprovação de projetos de mineração. 

No caso da exploração de lítio especificamente, ela consome muita água, o que traz à luz dos fatos a necessidade de se dosar o uso de um recurso impactado tanto pela atividade de extração mineral como pelas mudanças climáticas.

Em nível de governo, faltam órgãos e agentes munidos de informações detalhadas sobre os impactos reais e potenciais de uma nova mina, impedindo assim a coordenação com os demais departamentos para que qualquer projeto possa seguir adiante.

Inevitavelmente, o dinheiro para esse tipo de mapeamento acaba vindo de outras fontes. 

China

Entre os anos 2000 e 2014, o modelo de desenvolvimento da China levou ao chamado “superciclo de commodities”.  Hoje, os chineses não só compram da região como também a exploram de forma bastante ativa, tomando o lugar que antes era dos norte-americanos.

Sem se sentirem intimidados com a instabilidade econômica, investem em projetos de longo prazo, principalmente nos setores de petróleo, mineração e infraestrutura.  Dada a possibilidade de haver reservas desconhecidas, é por meio desse tipo de parceria que governos conseguem identificar as suas riquezas. 

Porém, esse arranjo tem causado transtornos.  É bastante comum situações em que autoridades locais cedem no que diz respeito à contratação de mão de obra chinesa, haja vista a dificuldade para se encontrar pessoas qualificadas tanto para a exploração como para a produção, além de fazerem vista grossa para alguns lapsos na questão ambiental.

Mercosul

Desenvolver a indústria capaz de transformar minerais como o lítio em componentes exigiria turbinar o Mercosul, que perdeu a sua importância com o avanço do agronegócio. 

Diferentemente da Europa, muito dependente do gás natural e que no momento precisa desligar parte de sua capacidade produtiva após as altas sucessivas nos preços de energia, fontes renováveis são abundantes no continente.

Isso permitiria a produção de baterias em larga escala, gerando maior valor agregado por meio da implementação de tecnologias de ponta, o que beneficiaria tremendamente as exportações latinas ao reduzir sua exposição ao ciclo “boom-bust” das commodities.

Adicionalmente, uma segunda onda de crescimento estaria garantida via o processo de reciclagem. Considerando um período entre 10 e 20 anos, em que esses e outros minerais se tornariam mais comuns em bens de consumo, a “economia circular” cuidaria do encaminhamento dessa matéria prima para o processo produtivo.

Conclusão

Longe de regiões de conflito, a América Latina á apontada como parte da solução para a transição energética.

Para que isso se torne realidade, a cooperação entre agentes públicos e privados é fundamental dada a natureza cíclica do mercado de commodities. Em vez de tirar projetos do papel apenas quando os preços estão altos, deve haver a convergência da sustentabilidade com a atividade de mineração.

Independentemente de que parte da cadeia em que se está, é ingênuo imaginar que algumas minas poderão resolver a questão climática. Uma maior integração da região é a única forma de se desenvolver a infraestrutura que conectará os vários participantes desse novo ecossistema.

Já em relação às populações latinas, considerando a ampla demanda prevista para cumprir as metas globais de descarbonização (superior a 40 vezes no caso do lítio, segundo a Agência Internacional de Energia), trata-se da melhor forma de se endereçar, de forma fiscal e socialmente responsável, os problemas crônicos de baixo crescimento e de desigualdade.

Persistir em uma agenda de reformas e na transparência é o caminho.  Com o cenário internacional mais adverso e a polarização interna, isso parece ser um ideal cada vez mais distante.

Sobre o autor
Nohad Harati
Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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