Mercado Financeiro

O banqueiro Joseph Safra, que era chamado de “seu José”, morreu no dia 10 de dezembro de 2020 e deixou uma fortuna de aproximadamente R$ 105 bilhões. Discreto em tudo na sua vida e contrário a riscos, Joseph Safra construiu um império no mercado brasileiro e era considerado o homem mais rico do Brasil. 

Joseph Safra sofria de mal de Parkinson e viveu até os seus últimos dias numa mansão de 11 mil metros quadrados na capital paulista. Falecido aos 82 anos, era um banqueiro à moda antiga. Conservador, discreto e de uma frieza ímpar. Joseph conduziu suas organizações com sabedoria, mesmo quando a inflação brasileira era de 80% ao mês. 

O silêncio sempre foi a marca registrada de Joseph. Dessa forma, ele continuou os negócios de seu pai e ergueu os alicerces sólidos do Grupo Safra, popularmente chamado de Banco Safra no Brasil.

Quem é Joseph Safra?

Em 1932, Joseph Safra nasceu em Beirute, no Líbano, numa família de origem judaica e com uma longa ascendência de banqueiros. Sua família financiava e fazia câmbio de ouro e moedas entre os mercadores da Ásia, África, Império Otomano e Europa. 

Aos 20 anos, Joseph deixou o Líbano, e depois de passagens pelos Estados Unidos e Argentina, chegou em São Paulo, onde já havia uma considerável colônia sírio-libanesa. Desde cedo, Joseph Safra trabalhava com seu pai no Banco Safra, fundado em 1955. Hoje, o Banco Safra é considerado o 4º maior banco privado brasileiro. 

Joseph Safra herdou de seu pai o apreço pelo conservadorismo extremo nas finanças e grande habilidade de multiplicar dinheiro. O banqueiro detestava risco e acumulou sua riqueza pensando a longo prazo. O Banco Safra é conhecido pela manutenção da liquidez nas suas operações. Até hoje, os resultados podem ser vistos. 

A fortuna deixada por Joseph Safra supera a de qualquer outro no país. No entanto, Joseph Safra foi além, ele também é considerado o banqueiro mais rico em todo mundo. Seu patrimônio é estimado em US$ 20,4 bilhões, aproximadamente 105 bilhões de reais. 

Com o passar do tempo, Joseph Safra se afastou das empresas e deixou o controle dos negócios para seus filhos. Até sua morte, ele viveu na sua mansão no bairro Morumbi, em São Paulo. 

História do Joseph Safra 

Desde o século XIX a família Safra é formada por banqueiros, todos de origem judaica halabim. Essa é uma das classes mercantis mais renomadas do Oriente Médio, com empresários e comerciantes de diferentes setores. Os primeiros do clã Safra trocavam dinheiro e forneciam crédito. 

O pai de Joseph, Jacob Safra, era sírio, da cidade de Alepo. Jacob vivia numa cidade tradicional do norte da Síria, que era um ponto de rotas e comércio entre o Ocidente e o Oriente. 

Com 23 anos, Jacob Safra foi enviado para Beirute, com o objetivo de fundar uma filial do Safra Frères & Cie, que pertencia à sua família desde o século XIX. O banco operava fazendo câmbio entre ouro e moedas de países africanos, europeus, asiáticos e com empréstimos. 

Em 1920, Jacob Safra criou um novo banco no Líbano, o Banco Jacob E. Safra. Com isso, ele ampliou as atividades no Oriente Médio e ficou famoso por converter os valores entre várias moedas rapidamente. Durante esse período, Jacob Safra casou-se com sua prima, Ester Teira Safra, e teve nove filhos, entre eles, Joseph Safra. 

Mudança para o Brasil

Com a instauração do estado de Israel em 1948, iniciou-se uma série de conflitos entre os países do Oriente Médio. Isso causou uma grande instabilidade para os judeus na região, e Jacob Safra deixou o país e partiu para a América Latina. Segundo uma entrevista do próprio Joseph Safra, o pai dele imaginou que haveria uma terceira guerra mundial e procurou um país mais tranquilo para criar sua família e viver. Com isso, ele escolheu o Brasil. 

Jacob Safra se acomodou em São Paulo em 1952. No entanto, a família Safra não viajou completa para o Brasil. O caçula, Joseph Safra, foi estudar na Inglaterra, onde concluiu o segundo grau. Após a conclusão, Joseph se mudou para os Estados Unidos e trabalhou no Bank of America. 

Após uma passagem pela Argentina, em 1962, Joseph Safra se juntou ao seu pai e irmãos no Brasil para trabalhar no banco fundado pela família cinco anos antes. Durante sua adolescência, ele ajudava o pai como mensageiro do banco, uma espécie de office boy. 

Primeiro investimento

Aos 17 anos, Joseph Safra fez seu primeiro investimento. Foi um desastre total e trouxe um aprendizado enorme. Ele acreditou que a moeda egípcia iria se valorizar e comprou um valor correspondente a 300 dólares. Infelizmente, o investimento não deu certo e banqueiro perdeu tudo. 

Em relato, Joseph contou que não dormiu direito por quase 30 dias, refletindo o que tinha feito. Dessa experiência negativa, Joseph Safra levou uma lição que aplicou em toda sua vida de banqueiro: risco não era sua expertise. 

Joseph Safra sempre foi o mais conservador dos irmãos. Ele impôs esta cultura no Banco Safra, garantindo uma imagem de solidez e blindando de todas as crises econômicas. Uma vez, um concorrente declarou ao Financial Times que Joseph Safra só emprestava dinheiro para quem não precisava. 

Por conta do seu jeito conservador, o banqueiro demorou mais tempo que a concorrência para se ajustar às inovações do mercado financeiro. Mesmo assim, ele foi vitorioso em seus empreendimentos. Ele também era proprietário do Safra National Bank, em Nova York, e do banco suíço J. Safra Sarasin.

Como o Joseph Safra ficou rico?

Apenas três filhos de Jacob Safra seguiram a profissão do pai e tocaram seus empreendimentos: Edmond, Moise e Joseph. Todos eles foram naturalizados brasileiros e se tornaram banqueiros de fama internacional. Após a morte de Jacob, em 1963, os irmãos Safra deram continuidade ao negócio e implementaram várias técnicas que já eram realizadas em mercados financeiros mais avançados, como o do Oriente Médio.

As principais inovações que os irmãos trouxeram ao país foi a utilização de letra de câmbio como forma de financiar operações e gerar rendimento para o dinheiro que estava nas contas. Atualmente, essa ferramenta é usada por diversos bancos, incluindo os digitais. Por conta do sucesso dessas técnicas e diferentes operações, o Banco Safra passou a adquirir outras empresas e instituições financeiras. 

Joseph controlou o Banco Safra de maneira minuciosa. Ele tinha um raro faro comercial e sua gestão envolvia estudo sobre riscos de negócios. Há uma piada no mercado financeiro que diz que Joseph só emprestava dinheiro para quem não precisava. Ele pedia tantas garantias para viabilizar o negócio, que seus executivos não conseguiam convencê-lo do contrário. 

Com o assassinato de Edmond, em 1999, os irmãos Moise e Joseph brigaram pela divisão da herança da família. Joseph queria comprar a parte de Moise no banco, mas eles não chegavam a um acordo. Com esse impasse, Joseph Safra tomou o maior risco da sua vida e fundou, em 2004, o J.Safra, com as mesmas características do banco da família para atender os mesmos clientes. Entre outras palavras, ele virou canibal do seu próprio império. 

A sede do novo banco era em frente do Banco Safra na Avenida Paulista e atraiu muitos executivos e clientes que trocaram o Safra original pelo novo banco de Joseph. Enquanto o banqueiro perdia dinheiro com o banco original, ele ganhava do outro lado da rua. Após dois anos de negociação e perda de patrimônio, Moise ficou com 5 bilhões de reais e o Joseph ficou no comando também do Banco Safra. Enquanto isso, o banqueiro entregou o Banco J. Safra para seu filho Alberto, que tinha apenas 24 anos na época. 

Cautela e solidez

O lema do Banco Safra é uma frase dita e repetida várias vezes pelo pai de Joseph:

Se escolher navegar os mares do sistema bancário, construa seu banco como construiria seu barco: sólido para enfrentar, com segurança, qualquer tempestade”.

Com essa herança, Joseph Safra sempre foi muito cauteloso e teve uma vida repleta de vitórias nos seus negócios. Para ele, manter a solidez e a reputação do Banco Safra era a alma da instituição. 

Ele sempre cultivou uma boa relação com seus funcionários. Presenteava as esposas dos seus executivos com joias, como forma de desculpá-lo pelas horas extras que o banqueiro exigia de seus colaboradores. 

Ao longo de toda sua vida profissional, ele concedeu poucas entrevistas. Todas as informações disponíveis sobre o Grupo Safra vinham apenas por meio de comunicados oficiais, aquisições ou balanços. 

Em 2006, Joseph estava para completar 70 anos e começou a colocar em prática seu plano de sucessão dos negócios para seus filhos. Com sua mulher, Vicky Sarfati, o banqueiro teve quatro filhos: Alberto, David, Esther e Jacob. Apenas Esther não seguiu os passos da família. Ela é diretora da escola judaica Beit Yaacov. Em 2008, seus filhos assumiram o Banco Safra. 

Atualmente, o banco conta com 132 agências físicas em todo Brasil, com aproximadamente R$ 200 bilhões em ativos. O Banco Safra administra grandes fortunas e atua como banco de investimento, emprestando para empresas de médio e grande porte.

Negócios do Joseph Safra

Embora conservador, Joseph Safra sempre foi um banqueiro com faro para bons negócios. Em 2012, ele adquiriu o banco suíço Sarasin por mais de um bilhão de dólares. Esse foi um passo muito importante para o grupo Safra se expandir internacionalmente, dobrando o volume dos recursos sob a sua administração. 

Em 2014, ele comprou a empresa americana Chiquita Brands Internacional, uma das maiores produtoras de bananas do mundo. No mesmo ano, o banqueiro comprou o famoso edifício londrino “Gherkin”, no coração financeiro da capital inglesa.

Além disso, Joseph Safra também era proprietário do edifício Tower Bridge Corporate, localizado em São Paulo e do banco nova iorquino Safra National Bank. Estima-se que a família Safra possui aproximadamente 150 imóveis em todo mundo, sendo muitos desses de luxo.

Paixões do Joseph Safra

Discreto na sua vida pessoal e nos negócios, Joseph Safra também era reconhecido no mundo da filantropia. Ele e sua família doaram parte de sua fortuna para projetos na medicina, na arte e na comunidade judaica. 

Joseph Safra não gostava de computadores e utilizava o telefone como principal instrumento de trabalho. Nele, ele articulava negócios em diferentes línguas. Joseph falava inglês, português, espanhol, árabe, francês, hebraico e italiano. Ele tinha verdadeira paixão por livros raros, tornando-se um dos maiores colecionadores de obras no Brasil. Ele também adorava a culinária francesa. Sua outra paixão era o Corinthians, em que Joseph levava seus filhos para o estádio para ver o timão. 

Na cultura, Joseph Safra adquiriu esculturas de Auguste Rodin, Camile Claude e Aristide Maillol, e doou para a Pinacoteca de São Paulo. O banqueiro criou o Instituto J. Safra, que patrocina eventos e exposições de artistas brasileiros. 

O banqueiro também fazia doações para escolas judaicas e sinagogas. Além disso, ele comprou o manuscrito da Teoria da Relatividade original de Albert Einstein e doou para o Museu de Jerusalém.

Durante a pandemia da Covid-19, o Banco Safra doou aproximadamente 40 milhões de reais para hospitais e santas casas. 

Nos últimos anos, Joseph Safra morava com sua mulher, Vicky, na Suíça e sofria do mal de Parkinson. Ele foi enterrado no cemitério do Butantã, em São Paulo, e deixou um legado com muitos ensinamentos.

Imagem do autor

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Mercado Financeiro
Mercado Financeiro
Mercado Financeiro
Mercado Financeiro
Veja mais Ver mais