Logo Mais Retorno
Empresa

Ingerência na política de preços e pressão do governo para distribuição de dividendos mais altos fazem Petrobras cair

Como maior acionista, distribuição antecipada de dividendos reforça o caixa público

Data de publicação:29/10/2021 às 13:09 -
Atualizado 7 meses atrás
Compartilhe:
  • Facebook
  • Linkedin
  • Twitter Mais Retorno
  • Telegram Mais Retorno
  • WhatsApp Mais Retorno
  • Email Mais Retorno

Por que os papéis de Petrobras caem na B3 um dia depois de a empresa divulgar bons balanços, e surpreender com um lucro de R$ 10 bilhões acima das projeções de mercado?

No pregão desta sexta-feira, 29, as ações ordinárias da petroleira, PETR3, e as preferenciais, PETR4, estiveram entre as maiores quedas da Bolsa e registraram uma desvalorização de 6,49% e 5,90%, respectivamente.

Foto: Reprodução
Fachada da Petrobras | Foto: Amanda Ravelli

A resposta, está ligada à afirmação do presidente Bolsonaro, nesta quinta-feira, em sua live semanal, que a companhia deve ter um "viés social" e que "tem que ser uma empresa que dê um lucro não muito alto como tem dado". Entendida como ingerência na política de preços, as ações da empresa negociadas na bolsa de Nova York, negociadas em ADRs, chegaram a cair mais de 4%.

Nos últimos dias o presidente vem se referindo à empresa como um problema a ser resolvido. Na última quarta-feira, 27, ele falou, em entrevista à RedeTV, que pediu um estudo sobre a possível privatização da Petrobras para Paulo Guedes, ministro da Economia, mas ressaltou que o processo não é simples. O presidente criticou, mais uma vez, a sua política de preços, afirmando que é preciso acabar com o monopólio da estatal para reduzir o preço dos combustíveis.

Com os constantes reajustes, que levaram a gasolina e o diesel (além de outros combustíveis) a um dos patamares mais elevados da história, o presidente vem recebendo duras críticas de uma de suas principais bases de apoio: os caminhoneiros, que ameaçam fazer mais uma greve em protesto ao aumento de preço. Segundo os analistas, esse é um dos pontos mais sensíveis para o governo, atualmente.

Pressão sobre os dividendos

Segundo o analista da Valor Investimentos e especializado em Petrobras, Felipe Leão, a queda está ligada também à interferência do governo sobre a estatal para atender a sua necessidade de fazer caixa.

Nesta quinta-feira, a companhia anunciou a antecipação de remuneração a seus acionistas, referente ao exercício de 2021, no valor de R$ 2,43 por ação, o que corresponde a um dividend yeld (relação entre valor do dividendo sobre o preço atual da ação) em torno de 8,5%, explica o analista.

Precisando de fontes de financiamento e sendo o maior acionista da empresa, esse foi um dos caminhos encontrados pelo governo, ao pressionar a petroleira a distribuir proventos mais gordos, para obter essa fatia adicional de recursos.

Esses valores, segundo o analista, serão pagos em dezembro, juntamente com a parcela já aprovada em agosto, perfazendo um total de R$ 42 bilhões, o que resulta em R$ 3,25 brutos por ação, tanto para ações preferenciais como ordinárias em circulação.

Política de preços será mantida

O diretor de Comercialização e Logística da Petrobras, Cláudio Mastella, afastou nesta sexta-feira qualquer dúvida em relação à política de preços de combustíveis da estatal, ao ser perguntado por analistas qual a atual situação dessa política e se pode ser modificada. "Seguimos com firmeza a política de preços, com base técnica e independente", afirmou, durante apresentação do resultado do terceiro trimestre da companhia, quando lucrou R$ 31 bilhões.

Mastella também afastou qualquer possível falta de combustível no mercado em novembro, apesar de ter recebido pedido de um fornecimento maior que já avisou que não irá atender.

"A gente não viu nenhum evento que identificasse aumento na demanda interna para novembro. Temos dezenas de clientes e cada um com sua visão do mercado. Mas não vemos novembro justificando nenhuma aumento relevante de demanda", informou o diretor.

Balanço trimestral

O lucro da empresa no 3º trimestre do ano ficou em de R$ 31,14 bilhões, com esse resultado que superou com larga margem os R$ 21,4 bilhões das expectativas de mercado, foi possível reverter o prejuízo em igual período do ano passado.

A forte alta do petróleo no mercado internacional, elevando também os preços dos combustíveis no Brasil, e a retomada do consumo de gasolina e diesel estão as principais justificativas para os bons resultados. Nesse mesmo sentido, a estatal contou com um dinheiro extra, de US$ 2,9 bilhões, que entrou com o acordo firmado com sócios chineses no pré-sal no campo de Búzios, na Bacia de Santos, e alguns benefícios tributários.

O lucro contraria as intenções do presidente da República, Jair Bolsonaro, que, na véspera, em sua live semanal, disse que a Petrobras "tem que ser empresa que dê lucro não muito alto, como tem dado". A empresa tem sido alvo de ataques do presidente, por conta dos reajustes dos combustíveis.

Com tantos fatores positivos, a empresa conseguiu reduzir ainda mais sua dívida bruta a US$ 59,5 bilhões, que praticamente bateu a meta de US$ 60 bilhões estipulada para o fim do ano. A dívida líquida ficou em US$ 48,13 bilhões.

Sobre o autor
Regina Pitoscia
Editora do Portal Mais Retorno.