Economia

Depois de uma longa espera, finalmente os Jogos Olímpicos de Tóquio tiveram seu início. A cerimônia de abertura, realizada na sexta-feira do último dia 23 de julho, marcou o início da competição com praticamente um ano de atraso — a data original era 24 de julho de 2020. O atraso, claro, foi mais do que justificado em razão da pandemia que afetou todo o planeta.

Uma curiosidade interessante sobre o evento é que, apesar do adiamento, não houve uma alteração no nome oficial da edição. Você mesmo perceberá que a marca "Tokyo 2020", estampada em toda identidade visual da competição, foi mantida. O processo é igual ao adotado em outro evento esportivo, a Eurocopa, que também utilizou o padrão "Euro 2020", apesar da realização apenas em 2021.

Todo esse cenário olímpico, entretanto, traz um forte interesse global para o país sede do evento que, nesta edição, é o Japão. Do ponto de vista financeiro, quais são os impactos da realização das Olimpíadas para a economia japonesa, sobretudo em um cenário atípico e com tantas incertezas como esse?

Como funciona a economia do Japão?

Desde a Segunda Guerra Mundial, disputa que teve o território japonês como um dos grandes alvos dos combates (como ignorar os bombardeios realizados nas cidades de Hiroshima e Nagasaki?), a economia japonesa modificou-se totalmente.

Com apoio financeiro dos Estados Unidos, o governo japonês passou a investir fortemente em tecnologia e na sua indústria. Esses dois setores, em conjunto com a ótima infraestrutura, estão entre os principais fatores que modificaram o patamar econômico do país asiático.

Vale lembrar que, ao contrário do Brasil, o Japão tem uma geografia que dificulta atividades como a agricultura. Desta forma, o país se vê muitas vezes a importar matéria-prima. Esse foi um dos motivos que levou o governo a focar no desenvolvimento tecnológico, algo que deu muito certo e colocou a economia local entre as maiores do mundo.

O desenvolvimento dessa linha tecnológica transformou o Japão em uma grande força exportadora, fazendo com que sua economia seja altamente dependente do mercado externo. A pandemia, portanto, trouxe um forte impacto para as receitas do país asiático — em 2020, o PIB japonês caiu aproximadamente em 5,0%.

Entre os principais produtos exportados pelos japoneses estão artigos tecnológicos, como computadores, automóveis, equipamentos, máquinas e produtos químicos, por exemplo.

Como o Japão se preparou para receber os Jogos Olímpicos?

Uma vez que a economia japonesa é altamente dependente do mercado externo — tanto na importação de matéria-prima, como na exportação dos seus produtos —, a dúvida natural que surge é: qual será o impacto econômico da realização das Olimpíadas em Tóquio?

Em primeiro lugar, é importante esclarecer que a escolha do Japão como país sede do evento é muito anterior à pandemia. O processo foi finalizado em 2013, sete anos antes da data original dos Jogos Olímpicos. Esse prazo é necessário para que as cidades-sede tenham tempo para a devida preparação estrutural.

Na oportunidade, o objetivo do governo estava em apresentar ao mundo um "novo Japão", completamente diferente daquele que foi sede da edição de 1964, que também ocorreu em território japonês.

O contexto atual, contudo, é completamente diferente. Coube então ao país uma rápida adaptação para a recepção dos atletas de todo o mundo. Entre as principais medidas adotadas estão:

  • Testagem de todos os atletas na chegada ao país asiático.
  • Os participantes não devem praticar turismo, ficando restritos ao ambiente da Vila Olímpica.
  • Convidados foram reduzidos ao máximo, inclusive os representantes das delegações na cerimônia de abertura.
  • Ônibus foram substituídos por vans, transportando apenas delegações individualmente.
  • Público reduzido a quase zero, sendo muitas modalidades disputadas sem a presença de torcedores.

O impacto financeiro dos Jogos Olímpicos mais caros da história

A questão sanitária, como vimos, foi um dos temas centrais da preparação de curto prazo para a realização da atual edição das Olimpíadas. No entanto, não há como negar o enorme prejuízo financeiro que esse cenário traz ao Japão.

Os investimentos totais para os Jogos Olímpicos, afinal, superam a casa de quinze bilhões de dólares — e boa parte desse capital (acima de 40% do total) foi originada em dinheiro público. Apenas para dimensão do peso desses gastos, o orçamento inicial era de cerca de 7,5 bilhões de dólares, praticamente metade do que foi realizado.

O maior problema, contudo, não são apenas os valores investidos. Se houvesse retorno desse capital, poderia até ser um evento lucrativo. Não será o caso, certamente. Com rigorosas restrições para circulação do público, há perda até mesmo dos valores de ingressos vendidos. A quantia, que superava a casa dos oitocentos milhões de dólares, deve ser próxima de zero.

Em um evento esportivo "sem público", as receitas se restringem aos direitos de transmissão de televisão (cuja maior parte é destinada ao Comitê Olímpico Internacional) e aos patrocinadores do evento (que por sua vez estão demonstrando preocupação de associar as suas marcas com um evento que possui rejeição do público).

Neste contexto, o prejuízo é certo. Resta saber qual será o seu tamanho, considerando que a questão sanitária não está resolvida e, portanto, o impacto real pode ir além da questão financeira.

Como a população japonesa avalia a realização dos Jogos Olímpicos?

Apesar do foco econômico e sanitário nessa discussão sobre a realização das Olimpíadas de Tóquio, é indiscutível que a questão chega também em outros campos — como a política.

Pouco tempo antes do início dos Jogos Olímpicos, o jornal Asahi divulgou uma pesquisa que mostrou grande insatisfação do público japonês. 55% dos entrevistados se posicionaram contra a realização do evento. Além disso, 68% deles demonstraram desconfiança sobre a capacidade de controle do índice de contágio do vírus neste período.

Os bastidores também ficaram agitados no Japão. O governo local vem perdendo aprovação com um evento classificado como "risco desnecessário" por muitos especialistas. Médicos chegaram a pedir oficialmente o cancelamento do evento. Na véspera da cerimônia de abertura, um dos diretores, Kentaro Kobayashi, foi desligado do comitê por uma piada com o Holocausto feita em 1990.

E tudo isso acontece em meio a um momento de críticas ao governo japonês na condução da vacinação dos seus habitantes. As principais delas estão no atraso da aprovação das vacinas e na lentidão para importação e aplicação das doses, abaixo de outros países desenvolvidos.

O grande receio, claro, é uma explosão de casos de COVID-19 após a realização dos Jogos Olímpicos. Atletas e delegações, afinal, retornam aos seus países de treinamento. No entanto, podem deixar mutações do vírus que dificultem o controle da pandemia no Japão.

Como os investidores se comportam em um momento como esse?

Em um ambiente de incertezas, é natural que os investidores se tornem mais cautelosos em relação à renda variável. Entretanto, ainda que exista receio, o cenário não é tão volátil quanto o Brasil. O Japão, afinal, é um país desenvolvido, possui uma das principais economias globais e conta com uma moeda forte.

Uma boa forma de analisar o momento atual dos investimentos no país asiático é olhar para o Nikkei 225, um dos principais índices globais da Tokyo Stock Exchange (TSE). Esse índice é composto pelas 225 principais companhias da bolsa de valores do Japão.

Desde o início do ano, o Nikkei 225 apresenta uma pequena valorização de 2,47% (este artigo foi produzido no final de julho de 2021). Contudo, engana-se quem pensa que esse é um sinal de tranquilidade para os ativos japoneses. Desde a máxima de 30.467 pontos, atingida em fevereiro deste ano, o indicador apresenta desvalorização de 8,32%.

Há, inclusive, períodos de fortes quedas conforme os Jogos Olímpicos se aproximavam. A Bolsa de Tóquio, portanto, traz um bom termômetro dessa cautela dos investidores. Ainda há muita incerteza sobre o "pós-Olimpíadas" em termos de controle da pandemia, mas também de retomada econômica conforme o avanço da vacinação.

Neste cenário, a volatilidade deve se manter presente ao longo das próximas semanas. E não seria surpreendente verificar novas quedas conforme apareçam notícias sobre aumento do número de casos de COVID-19. O investidor deve estar ciente disso antes de qualquer aporte em empresas japonesas.

Imagem do autor

Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.

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