Renda Variável

O setor de consumo cíclico é um dos mais abrangentes da nossa Bolsa de Valores. Existem, afinal, diversos segmentos que possuem as características desse tipo de empresa e, o que talvez facilite na análise, muitos deles são bem conhecidos do investidor.

Isso porque entre as companhias de consumo cíclico estão diversas marcas do varejo. Você mesmo já deve ter feito compras com em empresas como Lojas Renner, Magazine Luiza, Arezzo ou Lojas Americanas, por exemplo. Todas elas pertencem a esse segmento. No entanto, esse é apenas um pequeno grupo de negócios que são considerados como cíclicos.

Neste artigo, portanto, vamos abordar com detalhes esse segmento, assim como as suas principais características, vantagens e desvantagens. Assim, você pode tomar melhores decisões sobre as oportunidades de investimento no setor de consumo cíclico da Bolsa de Valores.

O que é o setor de consumo cíclico?

Com os nomes das empresas que mencionamos na introdução, talvez você já tenha uma ideia sobre a dinâmica do setor de consumo cíclico. Esse grupo de empresas é representado por uma demanda diretamente exposta ao cenário econômico. Isto é, a sua demanda e o seu desempenho estão fortemente relacionados com indicadores da economia.

Em um ambiente onde as taxas de juros sejam reduzidas ou o índice de desemprego esteja baixo, existe um incentivo ao consumo. Isso beneficia diretamente as empresas cíclicas que, de um modo geral, não possuem produtos e serviços essenciais para a população. Assim, da mesma forma, quando o cenário econômico se torna mais desafiador, as vendas tendem a reduzir na medida em são itens não necessários para os consumidores.

Em resumo, portanto, são companhias que possuem como característica a sazonalidade. Em períodos de otimismo elas vendem melhor, enquanto que em outros momentos de recessão os resultados devem diminuir. Falando do varejo, por exemplo, é bem comum que elas ofereçam resultados acima da média em datas comemorativas (como dias das mães ou Natal), mas essas vendas não se mantém ao longo do ano inteiro.

A esse comportamento de empresas do setor de consumo cíclico dá-se o nome de demanda elástica. Isso significa que, independente do preço praticado, a demanda pelos produtos pode se alterar. Não há, portanto, uma grande previsibilidade de resultados, pois eles estão expostos ao ambiente econômico e à confiança do consumidor.

Quais os indicadores econômicos que afetam as empresas cíclicas?

E quais seriam esses indicadores econômicos que tanto afetam as empresas do setor? Veja alguns exemplos abaixo do que você deve ficar de olho antes de investir em companhias cíclicas.

  • Taxa de juros: quando os juros estão altos, torna-se mais caro contrair dívida. Isso é ruim tanto para as empresas, como para o consumidor. Já se as taxas praticadas são baixas, há menor risco de endividamento e, portanto, um incentivo ao consumo.
  • Inflação: o aumento dos preços também influencia diretamente as empresas cíclicas. Em primeiro lugar, porque o crescimento de inflação pode fazer com que o Banco Central eleve as taxas de juros (que, como vimos, tem efeito negativo no segmento). Por outro lado, revela um aumento da demanda que faz com que os preços cresçam e, consequentemente, eleva o faturamento das companhias.
  • Desemprego: quando o volume de pessoas desempregadas cresce, o cenário é ruim para empresas cíclicas. Sem emprego, afinal, as pessoas perdem renda e, consequentemente, o poder de compra. Ademais, durante uma crise, os produtos do segmento são os primeiros a sofrer "cortes" no orçamento do consumidor.
  • PIB: o Produto Interno Bruto (PIB) revela o crescimento do Brasil de uma forma geral. Se as empresas do setor cíclico dependem do ambiente econômico, a verificação de um aumento desse indicador revela um cenário favorável.
  • Salário mínimo: quando o governo eleva o salário mínimo, esse é outro fator positivo ao setor cíclico, pois aumenta a renda média da população e, consequentemente, elas possuem maior poder de compra. No entanto, devemos sempre considerá-lo em conjunto com a inflação.
  • Taxa de câmbio: esse é um indicador que afeta mais empresas que atuam com importação ou exportação. Se o negócio depende de uma dessas atividades, o aumento do dólar (ou de outras moedas) pode prejudicar ou favorecer os seu resultados.

Quais são os principais segmentos do setor de consumo cíclico?

Agora que você já entendeu a dinâmica do setor de consumo cíclico, quais são as empresas que compõem esse segmento da Bolsa de Valores do Brasil? Já mencionamos o varejo, até pela maior proximidade com o investidor na sua vida cotidiana. No entanto, esse está longe de ser o único grupo de companhias deste setor.

Automóveis e motocicletas

O primeiro grupo de empresas cíclicas são aquelas que atuam com a produção de peças para automóveis e motocicletas. Elas pertencem a esse grupo por uma razão simples: a sua produção está diretamente relacionada com a venda desses itens para o consumidor final. Desta forma, temos uma demanda elástica.

Empresas de automóveis e motocicletas na B3

  • Iochpe Maxion (MYPK3)
  • Metal Leve (LEVE3)
  • Plascar (PLAS3)

Comércio

O segundo grupo de empresas cíclicas é representando pelo comércio. Essas companhias são bem conhecidas pelo investidor na medida em que, em muitos casos, ele já foi em algum momento também um cliente e consumidor das marcas. Datas sazonais possuem um impacto elevado para as empresas deste grupo.

Dentro do comércio, as companhias podem passar por uma nova divisão sendo classificadas em itens eletrônicos, vestuário e itens diversos. Na lista abaixo, é provável que você já conheça boa parte das marcas desta categoria já que algumas empresas compõem o grupo das "queridinhas" do investidor brasileiro — como Lojas Rennes, Magazine Luiza e Via Varejo, por exemplo.

Empresas de comércio na B3

  • Allied (ALLD3)
  • Arezzo (ARZZ3)
  • B2W Digital (BTOW3)
  • C&A (CEAB3)
  • Centauro (CNTO3)
  • Enjoei (ENJU3)
  • Grazziotin (CGRA3, CGRA4)
  • Grupo Soma (SOMA3)
  • Guararapes (GUAR3)
  • Hypera (HYPE3)
  • Lojas Americanas (LAME3, LAME4)
  • Lojas Renner (LREN3)
  • Magazine Luiza (MGLU3)
  • Marisa (AMAR3)
  • Petz (PETZ3)
  • Restoque (LLIS3)
  • Via Varejo (VVAR3)
  • Whirlpool (WHRL3, WHRL4)

Construção Civil

Um dos setores com maior sazonalidade da Bolsa de Valores (bem acima do próprio varejo) é a construção civil. Aqui, afinal, temos uma atividade com altíssima exposição ao cenário econômico na medida em que as taxas de juros elevadas dificultam o acesso ao financiamento por parte do consumidor. A inflação também afeta bastante na medida em que pode influenciar o custo de produtos e serviços.

Além disso, os resultados das empresas do setor tendem a variar bastante. Isso porque o lançamento de imóveis é feito muitas vezes em períodos muito distantes do início da construção. Assim, as obras podem ser finalizadas em um cenário econômico totalmente diferente daquele em que foram projetadas — afetando diretamente a comercialização do ativo.

Empresas de construção civil na B3

  • Construtora Adolpho Lindenberg (CALI3, CALI4)
  • CR2 Empreendimentos (CRDE3)
  • Cury (CURY3)
  • Cyrella (CYRE3)
  • Direcional Engenharia (DIRR3)
  • Even (EVEN3)
  • EZTEC (EZTC3)
  • Gafisa (GFSA3)
  • Grupo Mitre (MTRE3)
  • Helbor (HBOR3)
  • JHSF (JHSF3)
  • João Fortes Engenharia (JFEN3)
  • Lavvi (LAVV3)
  • Melnick (MELK3)
  • Moura Dubeux (MDNE3)
  • MRV (MRVE3)
  • PDG (PDGR3)
  • Rodobens (RDNI3)
  • Rossi Residencial (RSID3)
  • Tecnisa (TCSA3)
  • Tenda (TEND3)
  • Trisul (TRIS3)
  • Viver (VIVR3)

Diversos

O segmento diversos é equivalente à classificação "outros". Aqui, a B3 agrupa duas atividades específicas: a locação de veículos e programas de fidelidade. No caso das locadoras (como Localiza ou Movida) há forte exposição ao aumento de taxas de juros já que o aluguel do veículo fica mais caro e afasta o consumidor. Podemos contemplar também os restaurantes que, atualmente, possuem apenas duas empresas listadas.

Empresas diversas na B3

  • Burger King Brasil (BKBR3)
  • International Meal Company - IMC (MEAL3)
  • Localiza (RENT3)
  • Movida (MOVI3)
  • Smiles (SMLS3)
  • Unidas (LCAM3)

Educacional

O setor educacional é um pouco mais resiliente, pois é importante no desenvolvimento profissional. No entanto, o segmento não deixa de estar exposto ao cenário econômico. Com maior desemprego, as pessoas deixam de conseguir pagar as mensalidades. Além disso, no caso de novos alunos, há maior receio de assumir compromisso financeiro em período de recessão.

Empresas educacionais na B3

  • Ânima (ANIM3)
  • Bahema Educação (BAHI3)
  • Cogna (COGN3)
  • Cruzeiro do Sul Educacional (CSED3)
  • Ser Educacional (SEER3)
  • Yduqs (YDUQ3)

Tecidos, calçados e vestuário

Muito parecido com o comércio, esse segmento agrupa outras empresas do varejo brasileiro. Possuem a mesma exposição ao cenário econômico na medida em que, assim como outras categorias do setor cíclico, oferecem um produto que não é essencial ou necessário para a vida do consumidor brasileiro. Também agrupa produtores de tecidos que, naturalmente, são fornecedores do próprio varejo.

Empresas de calçados, tecidos e vestuário na B3

  • Alpargatas (ALPA3, ALPA4)
  • Cambuci (CAMB3, CAMB4)
  • Companhia Industrial Cataguases (CATA3, CATA4)
  • Conteminas (CTNM3, CTNM4)
  • Cedro Têxtil (CEDO3, CEDO4)
  • Dohler (DOHL3, DOHL4)
  • Encorpar (ECPR3, ECPR4)
  • Grendene (GRND3)
  • Hering (HGTX3)
  • Karsten (CTKA3, CTKA4)
  • Mundial (MNDL3)
  • Pettenati (PTNT3, PTNT4)
  • Renauxview (TXRX3, TXRX4)
  • Santanense (CTSA3, CTSA4, CTSA8)
  • Springs (SGPS3)
  • Technos (TECN3)
  • Teka (TEKA3, TEKA4)
  • Track & Field (TFCO4)
  • Vivara (VIVA3)
  • Vulcabras (VULC3)

Viagens e lazer

Por fim, ainda temos o segmento viagens e lazer que estão entre as atividades de maior perda nas receitas em crises pelo seu fator recreativo. Essas atividades, afinal, são utilizadas apenas quando há sobra de capital dos brasileiros. Se há perda de emprego ou redução da confiança na economia, são serviços que são cortados. Portanto, são negócios extremamente cíclicos.

Empresas de viagens e lazer na B3

  • Bicicletas Monark (BMKS3)
  • CVC Brasil (CVCB3)
  • Estrela (ESTR3, ESTR4)
  • São Paulo Turismo (AHEB3, AHEB5, AHEB6)
  • SmartFit (SMFT3)
  • Statkraft (STKF3)
  • Tec Toy (TOYB3, TOYB4)
  • Time For Fun (SHOW3)

Vale a pena investir em empresas do setor cíclico?

Como vimos ao longo do artigo, existem muitas empresas de diferentes segmentos que compõem o setor cíclico na B3. No entanto, elas possuem uma característica em comum que é a dependência do cenário econômico brasileiro. Desta forma, elas possuem uma boa atratividade em um ambiente de crescimento e otimismo.

Por outro lado, em período de recessão, são negócios que tendem a performar mal. Desta forma, como investidor, é essencial ter uma avaliação sobre o próximo ciclo econômico, assim como perspectivas futuras para o segmento — algo que envolve tanto as tendências tecnológicas (crescimento do e-commerce, por exemplo), como a competição do mercado com o aumento de concorrência ou a disputa pela participação de mercado (market share).

Ao mesmo tempo, ao investir em empresas cíclicas, você deve ter consciência de que se trata de um produto (ou serviço) não essencial. É um cenário diferente de farmácias ou empresas de energia que, mesmo durante crises, mantém suas demandas. Portanto, não deixe de ponderar todos os riscos para a companhia antes de comprar ações do setor.

Outro cuidado é para não cometer o clássico erro de comprar quando as notícias são otimistas demais e vender no meio das crises. Por vezes, o mercado exagera na penalização de ações cíclicas ao ver alguns resultados. O curto prazo nem sempre reflete a realidade de uma empresa. Assim, ao usar uma lógica inversa, você pode ter ótimas companhias a preços atrativos em crises, podendo surfar na recuperação do ambiente brasileiro.

Finalmente, reforçamos a importância de manter uma carteira diversificada para mitigar os riscos para o seu portfólio. Desta forma, você consegue equilibrar diferentes setores e contar com uma boa gestão para sua carteira, aproveitando o que há de melhor em diferentes cenários econômicos.

Vale lembrar a importância também de trilhar o caminho sabendo que tipo de investidor (a) você é, para assim definir se está disposto à correr mais riscos ou não. Pensando nisso temos um teste de perfil exclusivo e 100% gratuito para você. Clique aqui para acessar.

Imagem do autor

Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.

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