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Se você tem o hábito de acompanhar o noticiário, provavelmente viu alguma reportagem na televisão ou na internet sobre o caso que abalou as estruturas do mercado financeiro no final de janeiro de 2021: a supervalorização da Gamestop.

Sem qualquer fundamento técnico, as ações da Gamestop, uma empresa de jogos de vídeo game dos Estados Unidos, dispararam. E isso causou um enorme prejuízo para fundos de investimentos gigantescos.

Hoje, vamos explicar tudo que acontecer neste caso internacional e se existe algum tipo de impacto para o mercado brasileiro. Vamos lá!

O que foi o caso da Gamestop?

Caso você não faça ideia do que estamos comentando — seja porque não viu o noticiário financeiro recente, seja porque está lendo este artigo em um futuro mais distante —, vale uma breve explicação.

A Gamestop é uma companhia listada na Bolsa de Valores que vem sofrendo com grandes problemas em suas operações. Como tem sido comum a muitas lojas físicas do varejo, o crescimento do mercado online representa uma dificuldade adicional.

No universo dos games, as próprias marcas vêm adotando uma postura de saída do ambiente físico. Os jogos, afinal, podem ser comprados pelo próprio console, sem exigir a ida a uma loja — como é a Gamestop.

Como reflexo deste cenário, as ações da empresa despencaram de um modo significativo. Desde 2015, o valor da companhia caiu de negociações entre 40 e 50 dólares para valores abaixo de cinco dólares por ação.

Por que as ações da Gamestop subiram tanto?

Diante de uma empresa com sérias dificuldades no mercado, a queda é absolutamente natural. O que realmente surpreendeu a todos foi ver um forte movimento de alta na segunda quinzena de janeiro de 2021. No período, as ações da Gamestop subiram mais de 1.500%, passando de pouco menos de 20 dólares para o valor de quase 350 dólares em quinze dias.

O movimento, claro, não teve qualquer relação com os fundamentos da empresa. O que aconteceu foi que, em um fórum da rede social Reddit, alguns usuários combinaram de comprar as ações da empresa, algo que forçou a sua valorização.

Como as mídias sociais ganham grandes proporções atualmente, outros usuários passaram a entrar nessa iniciativa e também a comprar os ativos da Gamestop. O resultado foi esse que acabamos de mencionar: um crescimento totalmente atípico, imprevisível e sem lógica.

Quais os efeitos do caso da Gamestop?

Em relação ao que vimos no mercado financeiro americano, existem dois problemas que devem ser destacados. O primeiro deles é um pouco mais óbvio: a manipulação de mercado.

Essa é uma prática ilegal. Nenhum membro do mercado financeiro deve tomar ações que possam induzir a precificação de um ativo e, consequentemente, lucrar com esse processo em benefício próprio.

O problema é que, ao contrário dos grandes investidores, a iniciativa partiu de uma rede social sobre a qual há pouco controle dos usuários. Como saber quem realmente iniciou o processo? O autor do tópico não necessariamente começou a comprar as ações.

Outra discussão que se abriu por conta do episódio está no livre mercado. Como uma economia amplamente capitalista, os agentes do mercado financeiro americano sempre defenderam a liberdade nas negociações. Agora, diante do episódio, voltaram as perguntas sobre uma melhor regulação do mesmo.

Entre investidores individuais, a discussão gerou até mesmo ironias. Enquanto os grandes investidores (em especial fundos de investimentos) lucravam, não se incomodavam com as pequenas ações dos "sardinhas", como são chamados os pequenos investidores. O cenário em prejuízo fez com que alguns participantes do mercado mudassem o seu discurso.

Venda a descoberto: o foco do problema

Essa discussão sobre regulamentação do mercado financeiro foi levantada pelos fundos de investimentos. O motivo, claro, foi um grande prejuízo que alguns deles assumiram com o movimento de alta das ações da Gamestop.

A razão pela qual isso gerou tanta turbulência no mercado foram as operações vendidas desses fundos de investimentos. Esse é o nome dado de uma posição que inverte a lógica natural das negociações de ações.

Ou seja, ao invés de comprar um ativo e aguardar valorização, o investidor pode alugar os papéis e primeiro vendê-los. Assim, caso eles apresentem uma baixa nos seus preços, a operação pode ser fechada com lucro na medida em que a "compra" de volta do ativo é por um preço menor do que a venda.

O problema é que, neste tipo de operação, não há um limite de perdas. Se você compra ações da Gamestop e a empresa quebra, os papéis vão a zero e a perda é de 100% do investimento. Na venda a descoberto, a ação pode crescer infinitamente e, portanto, não há limite para o prejuízo.

Foi exatamente o que ocorreu a alguns importantes fundos de investimentos dos Estados Unidos. Eles apostavam em uma queda das ações da Gamestop. Com a alta imprevisível, foram obrigados a recomprar os papéis e assumir um prejuízo gigantesco.

Além de ser um efeito contra a lógica dos fundamentos da companhia, o processo se deu com alta volatilidade. Isto é, de uma forma intensa e veloz. Não houve, desta forma, como se proteger.

A Bolsa de Valores é um jogo?

O episódio envolvendo as ações da Gamestop também retomou uma discussão comum aqui no Brasil: seria a Bolsa de Valores um jogo especulativo? Um cassino para os ricos? É tudo questão de sorte ou azar?

A verdade é que tudo isso é apenas um discurso exagerado, levantado geralmente por pessoas leigas que desejam aproveitar o "calor do momento" para participar de um assunto em alta no mundo.

A primeira coisa que deve ser considerada é que, sim, há certa imprevisibilidade no comportamento humano. No entanto, isso vale para qualquer área da vida. E movimentos como esses, com uma tentativa de manipular preços, não duram muito tempo no mercado financeiro.

A prova disso é a própria Gamestop. Após um pico de quase 350 dólares no dia 27 de janeiro, a ação já voltou a ser negociada na faixa de 50 e 60 dólares no começo de fevereiro. E a tendência é de que retorne para o valor inicial em breve.

O que você precisa entender é que movimentos especulativos acontecem a todo o tempo. No entanto, a precificação precisa conversar com a realidade das empresas. No fim do dia, o que realmente importa é a sua capacidade de gerar lucros.

No longo prazo, portanto, os fundamentos se sobrepõem sobre a especulação. E, para o investidor que atua comprando ações e aguardando sua valorização, esses movimentos de curto prazo possuem pouca importância.

Gamestop e o Brasil: quais os impactos para o nosso mercado?

No Brasil, a notícia do caso da Gamestop trouxe mais do que simples questionamentos sobre o funcionamento da Bolsa de Valores. Houve, inclusive, uma tentativa de repetir o movimento com as ações da seguradora IRB Brasil.

A companhia passa pelo que chamamos por aqui de "tempestade perfeita", isto é, quando muitas notícias ruins se acumulam. Primeiro, surgiram questionamento sobre fraudes contábeis. Em um segundo momento, viram Warren Buffett, um dos maiores investidores de todos os tempos, negar a notícia de que seria acionista da empresa.

Tudo isso fez ruir a confiança do mercado pela gestão, levando o valor do papéis, antes negociados acima de 30 reais por ação, para menos de sete reais ao longo de 2020. 

Pensando no que houve com a Gamestop, alguns investidores tentaram replicar o movimento de alta com a IRB Brasil. É verdade que houve uma valorização de 17,5%, mas nem de longe se viu algo próximo do que ocorreu na Bolsa de Valores americana.

Além disso, o preço da IRB Brasil voltou a cair nos dias seguintes, reforçando o que mencionamos anteriormente: a especulação não se sustenta no longo prazo se os resultados da companhia não justificarem o movimento.

Portanto, o que podemos aprender sobre tudo que aconteceu com a Gamestop é que a especulação faz parte do mercado financeiro, mas ela afeta muito pouco quem investe com foco no longo prazo e observando os fundamentos da empresa. O risco é consideravelmente maior para os adeptos da venda a descoberto, exigindo um conhecimento muito amplo sobre as consequências de um eventual erro estratégico.

Imagem do autor

Formado em Administração pela PUC-SP. Trabalhou em empresas do segmento financeiro (Itaú BBA) e varejo (BRMALLS) até 2016, quando iniciou a jornada de produção de conteúdo para a internet com foco em finanças.

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