Você já parou para pensar como alguns ativos são parecidos? Mais do que isso, como os seus preços evoluem junto ao longo do tempo?

Pois é, é relativamente comum que ativos do mesmo segmento, por exemplo, caminhem mais ou menos na mesma tendência, pois são influenciados quase sempre pelas mesmas notícias e informações relevantes.

Evidentemente cada empresa terá sua particularidade e é possível que no curto prazo os movimentos sejam bem diferentes, mas as vezes ao olhar numa janela um pouco mais longa de tempo, é possível ver o andor em conjunto.

É sabendo dessa informação que alguns agentes do mercado tentam tirar proveito ($$) dessa relação, e dentre algumas estratégias temos o chamado Pair Trade.

Essa estratégia já foi parcialmente introduzida aqui no Mais Retorno, no artigo “Long & Short”, sendo que a ideia é muito parecida, mas vamos fortalecer a ideia e a força da negociação em pares.

Se puder, leia o texto linkado primeiro e depois volte aqui para fortalecer a ideia, pois lá há apresentação de conceitos como aluguel de ações que é importante para essa estratégia.

A estratégia Pair Trade

Essa estratégia se aproveita da relação entre preços de um par de ativos muito bem correlacionados. Naturalmente esses ativos não tem exatamente o mesmo preço, ou seja, o preço de A não é igual ao preço de B de forma que (A-B) é diferente de zero.

O interessante é que esse diferencial de preço costuma oscilar em torno de uma média, não se distanciando tanto dessa média por muito tempo. Para facilitar a notação vamos chamar (A-B) de C.

É importante que haja uma certa correlação entre ativos. Mas o que diabos é correlação?

Bom, vou tomar liberdade de novo para citar outro texto do Mais Retorno “O que é correlação nos investimentos e cuidados com a causalidade”, mas basicamente é uma relação estatística entre duas coisas (no caso ativos), e que mostra que há uma certa sintonia de sobe e desce dessas duas coisas.

Quando uma sobe, a outra tende a subir, ou o contrário, quando uma sobe a outra tende a descer. A correlação pode ser positiva ou negativa.

A lógica por trás da estratégia é relativamente simples: Se por um acaso a diferença C fica muito grande, há aí uma oportunidade de negócio, visto que é esperado que essa diferença retorne para sua média histórica. O que fazer então?

Caso o ativo A tenha um preço muito superior ao preço de B como é de costume, o ideal seria vender A e comprar B, e quando o diferencial C começar a convergir para a média histórica, compra-se A e vende-se B.

Ficou confuso? Explico.

Você aproveitou da informação de que a diferença entre os preços dos ativos tende a convergir para poder operar os dois ativos, de forma separada.

Você entrou vendendo A, pois acha que o preço dele iria reduzir para que a diferença pudesse convergir. Depois, quando começa a convergência, você recompra o ativo por um preço menor. Como teria vendido o ativo por um preço maior do que comprou, estaria ganhando nessa operação.

O mesmo acontece com o ativo B, mas de forma contrária, pois você entrou comprando B e, para convergir, espera o preço de B subir, entrando vendido depois, também apresentando ganho na operação.

Um caso brasileiro

Para não ficar apenas na definição teórica, podemos mostrar um caso de ativos altamente correlacionados e que estão com um diferencial de preços muito grande.

Perceba que os papeis do banco Bradesco (BBDC4) e Itaú (ITUB4) sempre caminharam bem juntos ao longo do tempo, mas que também sempre existiu uma diferença entre os preços (o tal do C).

Mais do que isso, perceba que o preço do Bradesco sempre esteve um pouquinho acima do preço do Itaú, mas essa diferença cresceu muito a partir de 2018.

Ai que está a oportunidade, se acreditarmos fortemente que essa diferença irá convergir para sua média histórica. Nesse cenário entra a ideia de vender o ativo A (no caso o Bradesco) e comprar o ativo B (o Itaú), e quando começar a convergência, fazer o contrário (recomprar A e vender B), de forma a auferir algum retorno nessa operação.

Claro, o desafio é saber quando essa convergência irá acontecer e ter estomago até lá, além de saber qual ativo que irá convergir para onde. Faz parte do negócio, se fosse fácil, todo mundo só iria ficar utilizando essa estratégia.

Além disso, a média de C, que é o que você usa para saber se a distância entre os preços está muito grande, pode não ser a melhor métrica. Há diversas sofisticações desse tipo de estratégia, em geral utiliza-se algoritmos e estatística para escolher o melhor momento de operar, mas apresentamos aqui o conceito e a estratégia mais básica.

Nesse nosso exemplo, o pair trade é do tipo fundamentalista, pois está envolvendo dois ativos do mesmo segmento, que claramente tem relações em comum.

Há também o pair trade técnico, em que você está comparando ativos alhos com ativos bugalhos, mas que possuem uma relação estatística (correlação) interessante. Um exemplo é negociar a taxa de juro e alguma ação específica. Há uma coleção de exemplos espalhados por aí, o interessante é conseguir identificar uma boa oportunidade e ganhar com a operação.

Outro exemplo que podemos dar de relação entre ativos é bem clássico, envolvendo uma medida de Risco-País, o CDS (veja sua definição aqui, também no Mais Retorno) e a taxa de câmbio (a relação Real e Dólar). Mais recentemente há uma abertura entre essa relação, onde a taxa de câmbio, que costumava seguir o risco do país, começou a criar uma “vida própria”.

A relação é a seguinte: quando o risco do país aumenta (ou seja, a chance de pagar suas dívidas fica menor), o dinheiro “foge” do país, por medo de calote. Quando o dinheiro foge do país, há menos dólares na economia e a taxa de câmbio se desvaloriza.

Por outro lado, se o risco diminui e o dinheiro entra, há mais dólares e câmbio valoriza. De forma simplista essa é a relação entre esses dois ativos.

Quando o risco-país mensurado pelo CDS começou a recuar em meados de 2016, era esperado que a taxa de câmbio apresentasse uma forte valorização, o que não aconteceu. Essa é uma relação de amizade muito longa e há uma grande possibilidade de convergência no futuro, o big deal agora é saber quando.

Conclusão

Apresentei nesse texto a estratégia de Pair Trade, que pode ser uma boa janela de oportunidade para quem consegue identificar relações de longo prazo entre ativos.

No mercado é comum esse tipo de estratégia por meio de algoritmos, que fazem operações com maior frequência, não dependendo de um longo prazo para auferir lucro de operações.

Mas também é possível que nós, meros mortais, nos aproveitemos dessa relação estatística entre ativos.

IMPORTANTE: Vale ressaltar que o cenário descrito, bem como os efeitos no Mercado Financeiro apresentados tem propósito único e exclusivamente educacionais e em nenhum momento você deve encarar qualquer parte do texto como recomendação de investimentos.