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Gestão ativa x gestão passiva: qual a melhor opção?

Por:
18/01/2019

A estória se repete com bastante frequência: gestores brilhantes e equipes inteiras deixam as instituições financeiras para abrirem os seus próprios fundos. Para o banco em questão, perder um gestor implica em uma enorme quantidade de saques.

Para conter a sangria, os antigos chefes se associam aos seus ex-funcionários e passam a fazer o trabalho de distribuição dos novos fundos.

Como argumento, mostram a capilaridade da rede de agências. Para o gestor ter o mesmo benefício, precisaria gastar tempo e dinheiro visitando clientes ou colocando pessoas para essa função.

As estruturas das gestoras são, a grosso modo, o equivalente ao dream team do basquete norte-americano: pessoas com um conhecimento específico e que trabalham muito bem juntas. Portanto, tomam decisões fundamentadas com bastante agilidade.

A filosofia da casa explica qual é a estratégia e determina quem faz parte da equipe. Isso é importante para alinhar as expectativas: o dinheiro dos sócios e dos clientes estão no mesmo barco, ou melhor, no mesmo fundo.

Um exemplo do gestor que virou celebridade é Marcio Appel. Ele saiu da Safra Asset Management em 2016 e fundou a Adam Capital. Nesse curto período de tempo, levantou mais de R$ 29,2 bilhões em recursos sob sua gestão, segundo a ANBIMA.

Mas o fato de Appel ter se tornado palestrante de destaque não explica sozinho o sucesso das gestoras:

  • A queda da taxa Selic – ela estava em 14,25% ao ano quando Appel deu adeus ao Sr. Safra. Hoje ela está em 6,50%;
  • As plataformas de investimentos - já nasceram com uma estrutura aberta, oferecendo fundos administrados por terceiros com valores mínimos bastante acessíveis;
  • A Resolução nº 4.444/15 do Conselho Monetário Nacional (CMN) – deu flexibilidade para que gestores como Appel também administrem o seu fundo de previdência privada.

O alcance dos novos modelos de distribuição faz qualquer um se assustar com os números.

A XP Investimentos, plataforma bastante conhecida e que conta com Luciano Huck como o seu mais novo garoto propaganda, distribuía o equivalente a R$ 2 bilhões em fundos em 2014. Quatro anos depois, o valor total já era de R$ 70 bilhões.

Como as gestoras independentes assinam contratos de distribuição de seus fundos com mais de uma plataforma, pode-se ter uma ideia da ordem de grandeza que elas movimentam.

Nesse ambiente, ambos os lados ganham: como as plataformas abertas de investimentos possuem uma base formada de clientes e equipes dedicadas ao cadastro dos mesmos, elas efetuam parte do trabalho que seria de responsabilidade das gestoras.

Assim, os fundos conseguem cobrar uma taxa de administração menor, o que favorece essencialmente o cotista com pouco poder financeiro.

Além disso, novos modelos de negócios como os Family Offices, escritórios responsáveis pela gestão de recursos de famílias ricas, contam com especialistas do próprio mercado financeiro para fazer a curadoria dos melhores fundos.

E para saber ainda mais sobre este tema, continue lendo:

O que é gestão ativa

o que é gestão ativa

“Senhores do Universo”. Esse é o nome dado aos gestores de grandes fundos de investimentos. Além de movimentar enormes quantias de dinheiro, ganham projeção pela influência que possuem na indústria de fundos.

Na introdução do livro “Fora da Curva”, Jorge Paulo Lemann, com toda a sua modéstia, diz que vale a pena aprender com os maiores gestores retratados na obra.

Como ponto em comum, eles agem com a mesma determinação e curiosidade de um investidor novato, mesmo tendo mais de 20 anos de experiência no mercado.

Usando alguns dos exemplos dos fundos de ações de gestão ativa, baseados em análise fundamentalista, o livro mostra o que sabem sobre as empresas investidas. Entre as atribuições da equipe de analistas, podemos encontrar:

  • Disfarçar-se de consumidor para avaliar os serviços oferecidos pela empresa;
  • Comprar e usar linhas completas de produtos de um fabricante, e também de seus concorrentes, para verificar as embalagens, preços, informações do rótulo, etc;
  • Usar o e-commerce da empresa selecionada e descrever como é a experiência de compra.

Então, como profundos conhecedores que são, eles podem usar 2 estratégias impossíveis de serem replicadas nos fundos de gestão passiva:

1. Como minimizar as perdas

A pior coisa que pode acontecer para um investidor é ver a rentabilidade negativa na cota do fundo onde investiu o seu dinheiro. Portanto, o trabalho do gestor é garantir os recursos que estão ali.

Dependendo do regulamento do fundo, ele não consegue neutralizar totalmente influências negativas como recessões ou instabilidades econômicas.

Por estar inserido em um ambiente bastante dinâmico, ele precisa defender a sua posição assim que surgem as primeiras nuvens escuras no horizonte. Isso porque ajustar a carteira implica em movimentar vários ativos que de certa forma interagem entre si.

Nesse caso, uma estratégia que ele pode usar é compor uma carteira de ações que pagam bons dividendos.

Por contarem com empresas maduras e muito bem estabelecidas, suas cotações sofrem menos, o que faz com que o gestor não precise vender quando os preços não lhe favorecem.

2. Como aumentar os ganhos

Em um ambiente econômico favorável como o atual, empresas com bons projetos e fundos de private equity que precisam vender as suas participações via bolsa de valores colocam na fila as ofertas públicas de ações que vão ganhar as ruas.

Na gestão ativa, não é só a proporção de ações dentro da carteira total do fundo que conta, mas quão conservador ou arrojado o gestor será na escolha dos seus papéis.

O desafio é transitar bem entre as estratégias, visto que os ciclos econômicos são inerentes a fatores políticos e interações globais que ocorrem entre os países.

Quanto mais líquidos forem os seus ativos, mais fácil é a sua execução. Por outro lado, o gestor abre mão dos papéis que oferecem oportunidades de ganhos maiores, como os lançados nas ofertas públicas, visto que são mais difíceis de liquidar quando o mercado muda de lado.


O que é gestão passiva

O que é Gestão passiva

Em setembro de 2018, o volume administrado por meio de instrumentos de gestão passiva no mundo alcançou o equivalente a US$ 5,12 trilhões.

Os Exchange Traded Funds (ETFs), fundos cujo único objetivo é seguir um determinado índice, já competem de igual para igual com os fundos tradicionais no exterior. Eles foram criados há apenas 30 anos.

Os seguintes motivos mostram porque os fundos de gestão ativa perderam tanto prestígio:

O que um investidor comum não entende é que, por mais preparado que o gestor seja, ele não está isento de ter um ano ruim quando o crescimento econômico é bastante lento. Nessas circunstâncias, poucos conseguem superar os seus referenciais, tais como definidos nos mandatos de seus fundos.

Porém, foram as baixas taxas de juros praticadas a partir de 2008 que fizeram com que muitos investidores se sentissem incomodados com os custos; ou seja, as taxas cobradas.

Essa é a grande vantagem do ETF: ele envolve poucos custos. O gestor só precisa seguir a proporção do índice e fazer o rebalanceamento a cada atualização. Ao longo de uma década, os ETFs baratos pegaram carona na grande valorização dos índices.

Com tantos agentes atentos às nuvens que estão se formando na economia global, tais como as altas adicionais de taxas de juros no Estados Unidos e as limitações do crescimento chinês amparado em crédito fácil, poucos ousam prever o que aconteceria com um ETF diante de uma queda acentuada.

Afinal, se os fundos ativos perderam espaço, quem vai colocar as primeiras ordens de compra para trazer um mínimo de racionalidade de volta ao mercado?

Diante de uma reversão das políticas que foram adotadas em 2008, os índices internacionais devolverão boa parte dos ganhos. Para o investidor que só os viu crescer durante tanto tempo, ele ainda estará preocupado apenas com a taxa de administração?

Enquanto atraem os investidores digitais que ainda estão entrando, outros ETFs com novas classes de ativos estão sendo criados.

Entretanto, esse modelo pode estar chegando ao fim.

As bolsas de valores no exterior estão perdendo a sua relevância como fontes de captação de recursos. O motivo é muito simples de entender: os negócios com as melhores perspectivas de crescimento pertencem às empresas da chamada “nova economia”.

São as que funcionam por meio do compartilhamento de recursos e ativos, sem detê-los diretamente. É o caso do Uber e do Airbnb.

Como são empresas que possuem interesse em manter o controle sobre as suas informações e se sentem desobrigadas a entregar resultados rápidos ao mercado, buscam outras formas de levantar dinheiro.

Pessoas do próprio setor de tecnologia e empresas estabelecidas, fundos especializados como os de Venture Capital e Family Offices são os lugares por onde os fundadores passam a cada nova rodada de investimento.

Uma rápida visita a um dos vários escritórios de coworking (escritórios com infraestrutura compartilhada) mostra um pouco do que é o Corporate Venturing: empresas tradicionais e consolidadas provendo recursos e mentoria para negócios disruptivos.

Os fundos de Venture Capital e os Family Offices também não ficam para trás.

Apenas nos EUA, o setor de Venture Capital já investiu o equivalente a R$ 84,2 bilhões em novos negócios.

No caso dos Family Offices, a revista inglesa The Economist publicou, em uma reportagem de capa, que eles já são responsáveis pela gestão de US$ 4 trilhões, o que representa 6% do valor de tudo que é transacionado nas bolsas de valores ao redor do mundo.

O resultado disso é que o universo de empresas para se investir via bolsa ficou menor.

Adicionalmente, os vários escândalos contábeis que quebraram grandes companhias abertas no passado (caso Enron, por exemplo) encareceram os custos de abertura de capital e conformidade para as futuras candidatas à listagem em bolsa.

Tudo em função das leis que foram criadas justamente para proteger o pequeno investidor, aquele que corre o maior risco quando coloca o seu dinheiro em empresas conhecidas como start-ups.

A nova base de investidores, por outro lado, é mais experiente e paciente.

Um fundo de Venture Capital pode esperar por alguns anos antes de levar uma empresa à bolsa. Os Family Offices, por sua vez, investem os recursos que passarão para a geração seguinte, tendo como objetivo o longo prazo e não o próximo trimestre.

Isso permite que as próprias empresas que estão captando os recursos comprem diretamente outras de seu interesse.

Nos poucos IPOs de empresas de tecnologia que aconteceram no mercado americano, como o da chinesa Alibaba, apesar dos valores recordes captados, a estrutura de governança não era das melhores.

Ou seja, uma empresa que tem todas as condições de entrar na relação de algum ETF, visto que captou US$ 25 bilhões na sua abertura, prejudica o seu maior interessado: o pequeno investidor.

Conclusão

No Brasil, a área de gestão de fundos é aquela que segue o que sempre defendeu Charles Darwin: apenas os mais aptos sobrevivem. Assim, temos uma indústria única, capaz de defender os recursos dos investidores como ninguém. Para um gringo virar gestor aqui, ele apanha bastante.

Com a evolução do nosso sistema financeiro, novos instrumentos foram criados, permitindo um amplo leque de opções para atender a várias estratégias de investimentos. Não é difícil de perceber como as nossas alternativas de fundos aumentaram: basta olhar a farta quantidade de categorias que temos para investir.

Ainda assim, um ETF pode ser uma forma bastante simples e barata de obter acesso ao mercado internacional.

Entretanto, por mais vantajosa que seja essa estrutura em termos de liquidez e custos, é importante lembrar das suas limitações visto o aumento das taxas de juros no mercado americano e a reduzida quantidade de empresas que ainda abrem o seu capital por meio das bolsas de valores.

“A coisa mais importante em termos do seu círculo de competência não é o tamanho da área em que você atua, mas com que precisão você define o seu perímetro.”
Warren Buffet

Confie no círculo de competência do seu gestor. Ele sabe o que faz.

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Sobre o autor

  • Nohad Harati
  • Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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