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Criptomoedas e Criptoativos: o que são e como funcionam

Por:
15/01/2019

Ao contrário do que você pensa, não é porque o Bitcoin alcançou o valor de US$ 20.000 em 2017 ou porque a Selic está atualmente em 6,50% ao ano.

Esses argumentos funcionam como verdadeiras iscas para atrair novos investidores. O sucesso dessa estratégia está no fato dela se concentrar em um público bem específico: pessoas entre 18 e 30 anos.

Portanto, nascidas no período de estabilidade econômica a partir do Plano Real e facilmente seduzidas pelo apelo tecnológico e anárquico do mundo virtual que expõe, de forma bastante exaustiva, as estórias de ganhos fáceis.

Até a cotação estratosférica de US$ 20.000 “viralizar o instinto de manada” e fazer todos correrem para o mesmo lado, o mundo das moedas virtuais costumava habitar os pacatos fóruns de discussão de um grupo de nerds.

Nesse exato momento, enquanto as pessoas procuram pelo próximo Bitcoin no meio de uma infinidade de moedas com nomes criativos, instituições com muito dinheiro e pessoas brilhantes se debruçam sobre uma tecnologia cuja aplicação vai mudar radicalmente a forma como gastamos, guardamos e investimos.

Por isso, continue lendo para saber mais sobre:

O que é Blockchain

O que é Blockchain

Satoshi Nakamoto, um verdadeiro mito já que muitos não sabem sobre o seu paradeiro, desenvolveu em 2008 a tecnologia que serviria de base para todas as moedas virtuais que viriam na sequência.

O ano de lançamento não poderia ter sido mais propício. Esse foi o ano em que o Lehman Brothers quebrou. Na mesma proporção em que os excessos do sistema financeiro se tornavam públicos, crescia a repulsa da população com essas instituições gananciosas e seus governos coniventes.

Nesse caos, imagine o apelo de uma moeda que não é controlada por nenhum governo, fica registrada em uma plataforma fora do mercado financeiro (carteira virtual) e que pode ser transferida instantaneamente para qualquer lugar do mundo.

A genialidade de Nakamoto foi justamente criar a infraestrutura que garantisse que uma moeda pudesse funcionar a partir de um sistema seguro e, ao mesmo tempo, de acesso universal. Melhor do que gastar os preciosos neurônios criando algo “do zero”, ele improvisou com o que já existia.

Adaptando o conceito de registro contábil, onde para cada crédito existe um débito equivalente, ele implementou uma plataforma aberta conhecida como Distributed Ledger Technology (DLT). Fazendo uma tradução livre, pode-se dizer que é a tecnologia de registro distribuído.

Cada um dos registros é composto por um bloco de dados. Cada bloco é criado de forma definitiva em um dos vários computadores espalhados mundialmente. O participante que o inclui no sistema fica responsável por ele. No momento da validação de uma operação, os respectivos blocos são ordenados pelos agentes que os criaram.

Por ser imutável, cada nova operação implica na geração de um novo bloco de dados. Ele não substitui o bloco anterior, sendo adicionado na sequência.

É isso que significa o blockchain (cadeia de blocos).

O fato de ser permanente, transparente aos seus membros participantes e exigir a validação por vários agentes libera as contrapartes (credor e devedor) da dependência de uma entidade central para agrupá-los e fazer a compensação.

Além disso, essas mesmas qualidades tornam o sistema improvável a ataques cibernéticos e fraudes, visto que um hacker teria que manipular, ao mesmo tempo, todos os dados armazenados em uma rede de computadores geograficamente dispersa.

Quem garante o seu pleno funcionamento são os “mineradores”. Seu trabalho é usar o seu grande poder de computação para armazenar os blocos que são gerados e atualizados. Como recompensa, recebem moedas virtuais.


Como funciona o Blockchain 

Como funciona o blockchain

Havendo capacidade de processamento e acesso à internet, qualquer tipo de informação pode gerar uma sequência de blocos permanente e de fácil consulta. O fato de ser uma tecnologia segura, imutável e atualizada em tempo real faz com que atraia a atenção de qualquer modelo de negócios.

As possibilidades são tantas que fabricantes de placas de alto desempenho para jogos como AMD e Nvidia geram 10% do seu faturamento global fornecendo componentes para os inúmeros computadores que surgem diariamente e que executam os complexos cálculos que embasam a criptografia por trás dos blocos.

O que é criptomoeda

O que é criptomoeda

Como a primeira “cria” do blockchain foi uma moeda virtual, nada mais natural que caísse nas graças de grandes participantes do mercado financeiro. Os agentes financeiros (bancos, corretoras e seguradoras, por exemplo) já não “circulam” com o dinheiro na sua forma física há bastante tempo.

As movimentações financeiras são representadas por um registro (escritural). Por conta disso, são as instituições que possuem todo o interesse do mundo no desenvolvimento de um sistema seguro, simples e transparente de transferência de valores.

Entretanto, elas têm encontrado alguns obstáculos ao longo do caminho.

Apesar dos países terem adotado normas financeiras comuns para lidar com a crise de 2008, cada um seguiu um conceito diferente na definição do que são e de como devem funcionar as criptomoedas e os criptoativos.

Quem está tentando criar um “criptoecossistema” para o blockchain é a Suíça. Sua estrutura de leis já permite que esse ambiente seja dividido da seguinte forma:

  • Payment - é o caso das criptomoedas. Elas funcionam como um meio de pagamento;
  • Utility – se aplica ao chamado token, código que dá direito às funcionalidades de uma determinada plataforma;
  • Asset – são os criptoativos.

Um exemplo das aplicações práticas em larga escala é a USC, moeda virtual que faz a compensação de valores entre os grandes bancos como UBS, Credit Suisse e HSBC.

Outros países do G-20 estão colocando seus banqueiros centrais para entender como as moedas virtuais podem facilitar o mapeamento das transações globais de forma mais transparente. Nesse sentido, a plataforma da Interbank Information Network já agrupa 100 instituições financeiras para o registro de transferências internacionais.

Operações bastante comuns, dado que as pessoas se deslocam com mais facilidade pelo mundo, essa tecnologia já agrega às funções de enviar e receber dinheiro de clientes as informações exigidas pelas autoridades para identificar operações fraudulentas e/ou ilegais.

Com a atualização em tempo real oferecida pelo blockchain, é fácil de imaginar o seu impacto na vida das pessoas. Hoje, uma transferência via SWIFT, sistema de mensageria usado nos bancos, pode levar até 5 dias úteis.

De forma semelhante e olhando alguns anos à frente, é fácil de imaginar essa mesma remessa sendo usada para pagar a carga de energia de um carro elétrico alugado do outro lado do mundo.

Como investir em criptomoeda

Como investir em criptomoeda

As bolsas de valores também estão experimentando: a Nasdaq, bolsa que negocia ações de empresas de tecnologia nos Estados Unidos, criou uma plataforma para as empresas que ainda não estão prontas para abrir o seu capital.

Por meio de um ambiente de testes, ela verificou na prática como pode registrar de forma segura, transparente e rápida operações que possuem uma natureza estritamente privada.

Indicando que se trata de um processo sem volta, associou-se à Microsoft para fomentar uma infraestrutura baseada em DLT com o objetivo de ligar todos os agentes participantes do mercado financeiro. Além de disponibilizar uma ferramenta onde todos os negócios são vistos, informa em tempo real as atualizações de normas e regulamentações.

Outros projetos ao redor do mundo mostram o que vem pela frente.

No Canadá, o banco central e a bolsa de Toronto se uniram para testar a plataforma que faz a compensação e a liquidação do mercado acionário.

Essa iniciativa consiste em registrar, em um DLT, as operações onde as ações são trocadas por dinheiro e vice-versa.

Na Austrália, a bolsa de valores local (ASX) usará um DLT para registro, compensação e liquidação de ações a partir do ano 2021.

Essas inovações não se limitam à renda variável. Conhecido pelo seu dinamismo e pela sua capacidade de impor novas tendências, o Banco Mundial lançou o seu primeiro criptoativo de renda fixa. Carinhosamente chamado de bond-i, o seu lançamento na Austrália viabilizou uma captação de US$ 110 milhões.

Engana-se quem acha que tudo isso está muito distante da realidade dos brasileiros.

Na categoria de criptomoeda, já temos um Projeto de Lei (PL 2.303/15) que pretende regulamentar não só as moedas virtuais como também as milhas acumuladas de passagens aéreas como formas de pagamento.

Já para os criptoativos, a CVM tem planos de testar um modelo de registro único do investidor. Isso tem o intuito de facilitar a sua identificação pois cada corretora gera o seu próprio código, o que pode causar duplicidade de registros.

Mercado de Criptomoedas e criptoativos

Mercado de criptomoedas e criptoativos

Ao invés de uma oferta pública de ações (IPO), já é possível participar de uma oferta inicial de moedas (ICO) por meio de um modelo que o investidor já conhece bem:

  • Emissor: ao invés de lançar ações, os responsáveis pelo desenvolvimento de uma plataforma em blockchain lançam a sua própria moeda (token);
  • Local de negociação: as transações ocorrem diretamente na plataforma ou em uma bolsa específica para a negociação de tokens;
  • Documentação: o famoso white paper, bem mais enxuto que o prospecto, informa o que está em jogo;
  • Expectativa de ganhos: no lugar dos dividendos e de qualquer ganho de capital, o investidor pode usar a plataforma (utility) ou se tornar acionista do negócio/projeto (asset).

Esse mercado pouco conhecido e que capta dinheiro com white papers de não mais do que 20 páginas movimentou US$ 13 bilhões apenas nos primeiros 5 meses do ano passado.

Por mais que culpem as baixas taxas de juros ao redor do mundo, é fato que essas ofertas servirão de referência para financiar projetos inovadores que logo farão parte da sua rotina como a usina de geração solar que abastecerá o seu prédio ou até mesmo o registro do seu histórico médico na relação de pacientes de uma rede de hospitais.

Conclusão

A tecnologia do blockchain já é considerada a “nova internet”. Todos os setores do planeta estão testando-a para melhorar os seus modelos de negócios, visto que se trata de uma plataforma aberta e transparente que oferece segurança, rapidez e atualização em tempo real de informações críticas.

O mercado financeiro está bastante avançado nesse sentido. Iniciativas para aperfeiçoar a movimentação de valores locais e internacionais, além do registro e da negociação de novos ativos de renda fixa e variável como formas de gerar negócios promissores, estão entre as principais prioridades de instituições e governos.

Quando ambos chegarem a um denominador comum, mudarão permanentemente as nossas vidas:

“A tecnologia move o mundo”.
Steve Jobs

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Sobre o autor

  • Nohad Harati
  • Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.

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