Economia

Finalmente entramos em 2020, após um fantástico ano de rendimentos para aqueles que se aventuraram na bolsa de valores. Foram quase 32% acumulados ao longo desses 12 meses de nova gestão do país, completando o quarto ano seguido de rendimento (bastante) positivo, para alegria de todos nós, segundo o Ibovespa.

Desde o fim de 2015, a bolsa brasileira já acumula incríveis 167%, ou seja, o investidor que teve coragem de entrar no mercado desde esse período mais do que dobrou sua carteira em termos nominais. É um resultado que não se encontrará facilmente em outros lugares do mundo.

É curioso o fato de, apesar de ter um rendimento inferior ao de 2016, parecer que vivenciamos um ano muito melhor. 

E foi, dado que os riscos foram menores e a conjuntura da economia melhor: crescimento (ainda que pequeno) da economia, juros baixos, inflação controlada, criação de emprego etc. Já em 2016 estávamos no meio da maior crise econômica da nossa história e reescrevendo mais um impeachment para nossa jovem democracia.

Ainda assim cabe destacar que a “festa” não se deu por igual em todos os segmentos da economia. O PIB brasileiro deve ter crescido pouco mais de 1,0% no ano passado, com maiores destaques para os segmentos de serviço, que estão melhorando dado a recomposição das condicionantes de consumo (juro, emprego, crédito, confiança, inflação, etc).

Os diferentes resultados setoriais também podem ser verificados na bolsa, utilizando classificações feitas pela própria B3. Você já parou para pensar quão diferente essa festa foi dentro da carteira do Ibovespa?

Abaixo algumas ilustrações desse resultado, sendo importante ressaltar que não faremos análise setorial profunda, o que demandaria um espaço muito maior e uma lupa muito mais aguçada do que a que foi usada.

Os resultados do Ibovespa por setor de atuação

Para fazer essa decomposição, é necessário inicialmente separar as ações do Ibovespa pelo setor de atuação, lembrando que essa carteira teórica reúne as mais diversas e heterogêneas empresas da nossa economia, indo desde empresas de máquinas e equipamentos até empresas que trabalham com viagens e lazer.

Felizmente essa divisão já é feita pela própria B3 e pode ser conferida em seu site. Mas mais importante do que essa divisão, há o cuidado de registrar qual seria o peso de cada ação dentro do seu próprio setor de atuação.

Desta forma, a partir do retorno anual de cada ação listada e de seu respectivo peso dentro do setor é possível estabelecer qual foi o retorno diário durante 2019 para cada um desses segmentos.

Abaixo temos os retornos anuais de acordo com a segmentação sugerida pela B3, exatamente na ordem da tabela apresentada no link acima. Naturalmente alguns resultados já saltam aos olhos, como o caso da saúde, da construção civil, comércio, alimentos processados, serviços financeiros e máquinas e equipamentos.

Além da diversidade de rendimentos, sendo que no mesmo ano você pode ter perdido 30% ou ganho quase 140% se tivesse concentrado sua carteira especificamente em algum desses papeis (e segurado o ano todo), o resultado é bastante interessante pois mostra como os rendimentos das empresas desses setores estão em linha com o que conhecemos em termos de números ao longo do ano.

Por exemplo, olhando os dados do IBGE, a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) nos mostra que o comércio varejista ampliado já acumulou alta de 3,8% em volume de vendas nos últimos 12 meses (encerrados em outubro), sendo importante motor para a economia e tendo seu resultado positivo refletido no segmento dentro do Ibovespa.

Por sua vez, quando olhamos o resultado do PIB, o setor de construção civil apresenta crescimento de 0,4% nos últimos quatro trimestres, o que parece pouco, mas vale lembrar que segmentos como a indústria de transformação e extrativa nem isso conseguiram apresentar. Obviamente dentro desses setores há uma dezena de subsetores com as características mais diversas entre si, não por acaso a produção de máquinas e equipamentos (mostrada pela Pesquisa Industria Mensal, do IBGE) já acumula alta de 1,2% nos resultados conhecidos para 2019.

Naturalmente o leitor vê diversos setores de atuação com resultados muito acima do que de fato ocorreu no Ibovespa, cabendo ressaltar que o desempenho deles é reduzido quando considerado seu peso dentro da carteira.

Abaixo é possível verificar a decomposição do retorno anual do Ibovespa considerando a contribuição (em pontos percentuais) desses segmentos. Perceba que no gráfico acima há muito mais aberturas, sendo que convém agregar tudo o que tem de natureza financeira, comércio, industrial etc.

Com essa agregação feita, o que inclusive anula os resultados negativos de alguns segmentos acima, os grandes destaques do ano foram três: ativos financeiros, ativos ligados a saúde e consumo cíclico (olha a recuperação da economia fazendo sua mágica aí).

Confesso que fiquei particularmente surpreso com o resultado do segmento saúde, ainda que tenha acompanhado de perto um papel desse setor.

Por fim, tendo esses três destaques nas mãos, fica a curiosidade: ok, mas quais papeis que puxaram essas contribuições tão elevadas? Certamente os leitores já têm algumas apostas em mente, mas aqui embaixo há a comprovação.

Comentários finais

Um último comentário que pode ser feito olhando especificamente para o caso dos ativos do setor financeiro é: espero que o investidor tenha percebido que preço de ação de banco não depende de juro estar alto.

Aliás, nem necessariamente os resultados financeiros dos bancos depende do nível do juro da economia (e sim da sua margem dentro do spread, que inclusive pode ser consultado no Banco Central).

E daqui para frente? E para 2020?

Bem, a economia brasileira irá acelerar nesse ano, superando os 2% de crescimento, com melhora generalizada nos segmentos de serviços e indústria. O investidor deve se perguntar: por qual razão ativos de alguns segmentos chaves, altamente dependentes do desempenho e da confiança da economia, seriam negativos nesse ano?

Papéis intimamente ligados ao consumo cíclico, especificamente do comércio, como BTOW3, LAME4, LREN3, MGLU3 e VVAR3 já apresentaram bons resultados nos últimos anos, mas faz sentido pensar que a festa já acabou? Fica a reflexão.

Imagem do autor

Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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