Mercado Financeiro

Estamos no quarto trimestre do ano e a divulgação do PIB para o segundo trimestre trouxe algum alívio: crescimento de 0,4% no período. Isso indica que afastamos o risco de recessão técnica, representada pela contração econômica (PIB negativo) por dois trimestres consecutivos, mas ainda não estamos livres de problemas.

Atentando para os outros dados que foram publicados, temos:

Pesquisas da FGV, do IBGE e do Ipea confirmam esses números: após 21 trimestres, ainda não voltamos aos níveis do primeiro trimestre de 2014. Em recessões anteriores, o prazo máximo tinha sido de 17 trimestres.

Olhando para essas estatísticas, é fato que estamos “atrasados” e menos preparados para enfrentar alguns dos ventos contrários que já chegaram aqui.

Como a economia internacional nos afeta?

Como a economia internacional nos afeta, ilustração.

A incerteza com a disputa comercial tem reduzido o crescimento global e, consequentemente, o lucro das empresas. Investidores institucionais, antevendo os potenciais estragos em suas carteiras, diminuíram a exposição ao risco.

Diante desse cenário, fica a pergunta: Como isso nos afeta, agora que a reforma da Previdência está seguindo o seu curso?

Passados mais de 18 meses da “novela EUA – China”, ficou claro que:

  1. Ela não tem prazo para acabar;
  2. O que está em jogo não é a taxação de meia dúzia de bugigangas chinesas, mas a supremacia de um modelo econômico e tecnológico sobre o outro.

Se antes fazia sentido investir em produtividade e ganho de participação de mercado, hoje ninguém sabe quais as regras que as empresas terão que jogar.

Excluindo-se o setor de serviços, que ainda assim é impactado pelos níveis de produção globais, ficou para o consumidor norte-americano manter a economia funcionando. Ele continua empregado, mas vai pagar uma conta mais alta já que as novas tarifas vão alcançar produtos que afetam diretamente o seu bolso.

Para o Brasil, que exporta bens de baixo valor agregado, o impacto ocorre:

  1. Na redução das encomendas por parte de seus parceiros internacionais;
  2. No aumento do risco país, não porque somos negligentes com as nossas florestas mas porque, a grosso modo, 2/3 da dívida externa de países emergentes são emitidos em dólar. Quando vendemos menos ao exterior, nossas empresas enfrentam mais dificuldade para honrar os seus compromissos em moeda estrangeira.

Nesse contexto, poderíamos aumentar a taxa de juros para nos defender, mantendo aqui os recursos que não encontram outras oportunidades pelo mundo. Essa solução seria aceitável, sem dizer que facilitaria a vida dos investidores acostumados à renda fixa, não fosse a nossa grande capacidade ociosa.

Então, diante dos índices confortáveis de inflação, a turbulência internacional vai para onde os prejuízos parecem ser menores: o câmbio, via desvalorização do real.

Imersão em Fundos Mais Retorno

Quais as opções de diversificação internacional?

Quais as opções de diversificação dos investimentos, ilustração.

Com o dólar tomando uma dinâmica própria, o jeito é diversificar, buscando ganhos não só com a moeda em si, mas também com negócios consolidados e que continuarão a desempenhar bem na economia global:

Diversificação internacional através de Fundos multimercados

Os fundos multimercados foram os que mais captaram recursos no primeiro semestre desse ano, dado que possuem um leque bastante amplo de estratégias.

Dependendo da política de investimentos do fundo, os multimercados funcionam como fundos “3 em 1”:

Como vantagem adicional, os gestores são locais e conhecem as peculiaridades do nosso mercado financeiro.

Ainda assim, cabe ao investidor se informar. Os fundos de menor volatilidade atendem bem quem possui um perfil mais conservador e ainda está se familiarizando com as opções fora da renda fixa. Já os mais agressivos devem se limitar à uma pequena parcela do patrimônio.

Diversificação internacional através de Fundos internacionais

Gestoras internacionais disponibilizam aqui os mesmos fundos negociados no exterior.

Até alguns anos atrás, isso era um privilégio dos poucos que conseguiam abrir uma conta no exterior. Superada a dificuldade de se comunicar em outro idioma, isso exigia ainda o preenchimento de formulários, nada amigáveis, das mais diversas naturezas.

Além disso, na hora de enviar os recursos, nem todo mundo conseguia informar corretamente os códigos IBAN e SWIFT que identificam os bancos. Muitas vezes, o dinheiro “estacionava” durante dias na conta do banco intermediário, responsável por fazer o crédito em nome do investidor.

Isso sem contar a tributação. Até hoje, pessoas físicas que investem diretamente no exterior recolhem o imposto via DARF, um processo bem mais trabalhoso e burocrático quando comparado à tributação de 15% sobre os ganhos e a estrutura simplificada dos fundos internacionais.

Diversificação internacional através de Certificado de Operações Estruturadas (COE)

Indicado para quem quer investir tendo a garantia do principal. O retorno normalmente segue um índice negociado no exterior. Sua desvantagem está no prazo, visto que os recursos não podem ser sacados antes do vencimento.

Ainda assim, o COE é um meio interessante para se investir em empresas de tecnologia. É comum que empresas nacionais e internacionais desse setor se listem em bolsas no exterior, dada a grande quantidade de investidores institucionais que conseguem acessar. Isso explica porque pessoas físicas não conseguem investir diretamente nessas empresas.

Na estrutura de um COE, o investidor abre mão de uma parte da valorização do ativo para não correr o risco de perder tudo. Dito isso, são uma alternativa às plataformas de crowdfunding, que levantam recursos para as startups mas não oferecem garantia alguma, e aos chamados “investimentos alternativos”, como os criptoativos, que são vendidos como uma opção de proteção cambial.

Diversificação internacional através de Brazilian Depositary Receipts (BDRs)

Muitas empresas estrangeiras possuem recibos negociados na B3. Isso quer dizer que suas ações, representadas por esses recibos, podem ser adquiridas dentro do país de duas formas:

Os BDRs são classificados em 2 grupos:

Os BDRs patrocinados, por contarem com informações mais detalhadas e transparentes, estão disponíveis para qualquer um, via home broker.

Já os não patrocinados são apenas para os investidores qualificados (com patrimônio financeiro acima de R$ 1 milhão) ou os fundos de ações, que também os adquirem para as suas carteiras.

Diversificação internacional através de Fundos cambiais

Para quem possui compromissos em moeda estrangeira ou pretende morar um tempo fora do país, os fundos cambiais são os mais adequados.

Diferentemente de quem viaja a passeio, pessoas nessa situação precisam formar reservas mais robustas em moeda estrangeira. Assim, o intuito desses fundos é funcionar como um seguro contra a desvalorização do real.

Apesar dos títulos inseridos na carteira não seguirem fielmente a cotação do dólar, os fundos cambiais são uma forma prática e segura para se “guardar” recursos em moeda estrangeira.

ETF S&P500

Os fundos de índice negociados em bolsa (ETFs, na sigla em inglês) representam apenas 0,4% da nossa indústria de fundos, mas negociam algo em torno de US$ 5 trilhões no exterior.

Os motivos para tanto sucesso são:

Dessa forma, eles permitem a diversificação de forma relativamente simples e acessível.

No mercado brasileiro, os ETFs que refletem o índice norte-americano S&P 500 já são uma realidade há bastante tempo. Como vantagem, ele incorpora empresas americanas cujas operações são globais.

Para quem não possui um patrimônio financeiro de no mínimo R$ 1 milhão, os investimentos em ETFs internacionais são feitos via fundos de ações com exposição a esse índice.

Conclusão

Por mais que a direção da economia do país esteja correta, ainda temos muito terreno a recuperar. Isso dificulta nossa reação a eventos vindos de fora, nos colocando diante das mesmas limitações enfrentadas por outros países emergentes.

Para nossa sorte, a diversificação internacional é bastante viável hoje, dada a enorme quantidade de opções de investimento à disposição.

Começando pelos fundos multimercados que, pelas suas várias vantagens, deveriam fazer parte da carteira de qualquer um, independentemente do tamanho de seu patrimônio. Um fundo com pouca volatilidade já é o primeiro passo.

Os fundos internacionais complementam nossas alternativas com estratégias que antes eram bastante restritas aos brasileiros. Por meio deles, é possível investir em outras regiões e moedas, neutralizando o impacto do que ocorre aqui.

Para quem prefere a garantia da devolução do principal, os COEs são oferecidos com todas as opções possíveis e imagináveis. Apesar de serem menos conhecidos do público em geral, são igualmente adequados para quem busca empresas de tecnologia, por exemplo.

Já as multinacionais podem ser acessadas via BDRs, diferenciando a carteira de fundos de renda variável, seja porque as ações do Ibovespa ficaram caras ou ainda porque seus gestores possuem conhecimento suficiente para encontrar boas referências no exterior.

Mesmo fundos sem equipes próprias para pesquisar empresas estrangeiras conseguem destaque investindo diretamente em ETFs, que acompanham os principais índices internacionais de bolsa.

Como foi visto aqui, a diversificação internacional está ao alcance de todos, desde o investidor que se preocupa com a sua aposentadoria até aquele que quer realizar o sonho de morar fora.

“Não perca a esperança, não perca tempo esperando”.

Barack Obama

Possui MBA em Finanças e LLM em Direito do Mercado Financeiro (ambos pelo Insper/SP). É gestora de uma carteira proprietária, além de ser responsável por um Family Office.


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