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Relação entre inclinação da curva de juros e recessão

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17/01/2019
Relação entre inclinação da curva de juros e recessão
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Você pode ter se deparado nos últimos meses com notícias do mercado financeiro tratando de uma possível recessão americana, mesmo com resultados bons na economia em termos de produção, emprego e inflação.

Você já se perguntou de onde vem todo esse temor?

Pois é, os Estados Unidos é um país que todo investidor (residente ou não) deve acompanhar com um certo zelo, pois noticias e resultados ruins daquela economia exercem impactos imediatos nos mercados no mundo todo, sobretudo em países com problemas fiscais como o caso brasileiro.

Não dá para ser “pego de surpresa”.

O fato é que o mercado tenta sempre antecipar ciclos econômicos, conseguindo se posicionar antes de alguns grandes eventos e fazer o melhor preço. Prever uma recessão é uma tarefa árdua para os economistas, que sempre tentam captar sinais deixados na luz, rastros escondidos nos dados divulgados mensalmente.

Por isso, continue lendo para saber mais sobre:

Curva de Juro e economia americana

O modelo

Curva de Juro e economia americana

Curva de juro e economia americana

No caso americano, um dos faróis mais clássicos para percepção de recessões é a inclinação da curva de juro, explico: A curva de juro mostra uma relação muito interessante do nível do juro e o tempo do vencimento de contratos ao longo de diversos períodos – em outras palavras o preço do dinheiro no tempo. Para ficar mais claro, veja o gráfico abaixo.

Curva de Juros Americana

Aqui temos as taxas de juro para contratos de 1 mês até contratos de 10 anos (há também até 30 anos, mas selecionei o período propositalmente).

Perceba que há uma inclinação nessa curva, a tão famosa inclinação da curva de juro, que pode ser positiva ou negativa, basta fazer a diferença entre as taxas dos períodos curtos e longos. Pouco se analisa as taxas mais curtas, sempre olhando 1 ou 2 anos para frente.

Atualmente dizemos que a curva está bem flat, ou seja, com pouca inclinação dado que o intervalo de 1 até 10 anos é de 2,6% e 2,7%.

Na verdade, uma boa explicação do que é a curva de juro e dos impactos dela nos investimentos pode ser lida em “O que é a curva de juros e como ela funciona nos investimentos” aqui no Mais Retorno.

Bem, mas o que isso quer dizer no caso dos EUA?

Vamos por partes, primeiramente devemos contextualizar. A economia americana tem crescido fortemente nos últimos anos, em números:

  • Média de crescimento anualizado de 2,4% entre o último trimestre de 2013 e o terceiro de 2018, uma taxa muito boa para uma economia desenvolvida do tamanho da americana;
  • Nesse mesmo período, a taxa de desemprego saiu de 7,2% para 3,9%, recuando quase pela metade e estacionando praticamente no nível natural da economia americana, ou seja, não há muito mais para onde cair.

O problema é que, a soma desses resultados positivos da economia e os estímulos oferecidos pelo atual presidente americano têm resultado em forte pressão na deterioração das contas públicas do país e nas expectativas de inflação.

A combinação da deterioração fiscal e da maior expectativa inflacionaria (que estão relacionadas de forma direta) tem obrigado o Banco Central americano a subir o juro, que saiu de 0,75% em janeiro de 2017 para 2,50% em dezembro de 2018, devendo atingir próximo de 3,0% ao fim de 2019, conforme aponta a última ata do FOMC (O juro americano conhecido como fed fund target é, na verdade, composto por um intervalo, mas optei por colocar um valor para facilitar a compreensão. O FOMC é, grosso modo, o COPOM americano).

Complicando um pouquinho e falando em termos econômicos, quando o juro mais curto está elevado pelo fato da economia estar em pleno vapor, próximo do que os economistas chamam de potencial – quando não há mais como acelerar o crescimento sem impactos na produtividade, normalmente originados de reformas – o mercado financeiro fica bastante atento quanto a desaceleração da atividade economia que vem à frente.

Até aí tudo bem, é normal uma desaceleração para conter o ímpeto inflacionário, o problema começa quando o juro mais longo fica muito próximo do juro mais curto, ou até mesmo abaixo, emitindo um sinal de que algo pior irá acontecer na economia americana.

Algo que vá atingir o ritmo da atividade econômica ao ponto de provocar o Fed a reduzir o juro para estimular a atividade, ou seja, algo como uma recessão.

Falando em recessão, os Estados Unidos possuem uma instituição muito importante de pesquisa econômica chamada NBER, ou National Bureau of Economic Research, que tem como uma de suas funções datar os ciclos econômicos da economia americana.

De forma geral, eles avaliam quando começou uma recessão, quanto tempo durou, quando acabou e quanto tempo durou o próximo período de crescimento desde 1857. Para quem ficou curioso, os ciclos americanos estão tabelados aqui.

Para juntar todas as ideias apresentadas até aqui, o gráfico abaixo mostra a evolução da inclinação da curva de juro entre 10 e 2 anos da treasurys desde 1977 até os dias atuais, com a área em azul representando o período em que a economia americana esteve em recessão. Perceba que sempre que ocorrem fortes quedas na inclinação, em direção ao terreno negativo, a economia americana entra em recessão após algum tempo.

E, não se assustem, mas isso está acontecendo exatamente agora.

Spread das Treasurys

Juntando todo esse conhecimento, os economistas e outros analistas do mercado resolveram utilizar um modelo para, além da avaliação puramente gráfica, verificar se uma recessão está próxima.

O modelo em questão é o Probit (existem outros, como a atualização do Markov-Switching, mas vale a pena nos concentramos apenas neste), que não iremos apresentar formalmente, mas apenas a sua ideia.

O modelo

O modelo

O Probit, explicando de forma bem superficial, nos ajuda a encontrar a probabilidade de um evento qualquer dado o acontecimento de outros. Daí vem a ideia: e se consideramos, a partir da datação da NBER, construir uma série de tempo em que marque a ocorrência de uma recessão num período como o número 1 e a não recessão com o número 0?

Em outras palavras, o 1 representaria 100% de chance de recessão e 0 zero o contrário, algo que poderia ser modelado no Probit.

Assim, usando a inclinação da curva de juros e outros indicadores de atividades para tentar explicar essa série de zeros e uns, é possível elaborar um modelo que mostra qual a chance atual da economia americana estar em recessão. O gráfico abaixo é a ilustração desse modelo.

Probabilidade de Recessão nos EUA

Veja como o modelo acerta bem as recessões, assim como aquela análise gráfica simples apresentada anteriormente, mas com um pouco mais de roupagem estatística. O fato é que a curva mais recente desse modelo começa a suspeitar a possibilidade de uma recessão, por estar diferente de 0%, ainda que sem muita segurança.

Um outro exercício, que não farei nessa conversa, é utilizar as projeções de mercado para o juro americano, bem como os outros indicadores de atividade, até 2020, jogar nessa “máquina de salsicha” do modelo Probit, e verificar o que ele nos índica como probabilidade de recessão caso essas projeções se concretizem.

Para encerrar, é improtante ressaltar que há um sério debate ocorrendo entre economistas com objetivo de avaliar se dessa vez essa tal relação estatística irá se concretizar.

Alguns acreditam que a mudança na política monetária desde a última crise internacional em 2008, em que os Bancos Centrais do mundo todo atuaram com aumento de liquidez para conter a recessão e o processo deflacionário, teria impactado diretamente na capacidade de previsão das curvas de juro.

Por outro lado, há uma porção de grandes economistas que seguem acreditando que a situação atual é só mais um caso de tantos outros que a economia americana assistiu ao longo de sua história econômica e que a recessão pode estar bem próxima, caso o Fed siga em sua saga de elevação de juros.

Façam suas apostas.

Conclusão

A nossa intenção aqui foi apresentar uma ferramenta bastante presente no mercado financeiro pra avaliar possibilidade de recessões na economia americana, algo fundamental para quem investe.

Mesmo que você opere apenas ativos nacionais, movimentações naquela economia impactam diretamente o retorno dos investimentos no mundo todo.

Agora, se você tem uma curiosidade um pouco mais técnica e quer aprender um pouco mais sobre essa ferramenta e literatura, recomendo iniciar pelo próprio estudo do Fed: “Predicting Recession Probabilities Using the Slope of the Yield Curve”.

Com indica esse estudo, a probabilidade de uma recessão aumenta à medida que a curva de juros se tornou mais plana nos últimos anos.

Avalie esse texto e nos ajude a melhorar cada vez mais.

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Sobre o autor

  • Arthur Lula Mota
  • Economista, já atuou no mercado financeiro e em departamento econômico, com elaboração de cenários macroeconômicos e estudos setoriais. Atualmente é Mestrando em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e dono de um dos maiores sites independentes de economia no Brasil – o Terraço Econômico.

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